Biocombustíveis somam R$ 289 bilhões em investimentos cadastrados e ampliam espaço na matriz energética

Publicado em 22/10/2026 14:39
Painel do GAFFFF destaca avanço do etanol de milho e novas oportunidades para o setor em segmentos como aviação, transporte marítimo e máquinas agrícolas

O avanço dos biocombustíveis e a abertura de novos mercados para combustíveis de menor intensidade de carbono estão ampliando as oportunidades para o setor no Brasil. Projetos relacionados aos biocombustíveis e à transição energética já somam R$ 289 bilhões em investimentos cadastrados, segundo dados apresentados durante o painel “Biocombustíveis e Transição Energética”, realizado nesta quinta-feira (2), no GAFFFF, em São Paulo.

O encontro reuniu representantes dos setores de energia, petróleo e bioenergia para discutir o potencial brasileiro diante do aumento da demanda global por energia e da busca por alternativas para reduzir as emissões de carbono. Entre os temas abordados estiveram a expansão do etanol de milho, o desenvolvimento do biometano e as possibilidades de utilização dos biocombustíveis na aviação e no transporte marítimo.

Para o deputado federal Arnaldo Jardim, presidente da Comissão de Transição Energética e Hidrogênio Verde, o Brasil tem a oportunidade de integrar duas atividades estratégicas para sua economia: a produção de alimentos e a geração de energia.

“O biocombustível é mais do que cada um isolado. É um eixo de industrialização do Brasil”, afirmou.
Jardim destacou o avanço do etanol de milho e o aproveitamento de seus coprodutos na produção de proteínas animais. De acordo com os dados apresentados pelo deputado, cerca de 23% do milho produzido no país já é destinado à fabricação de etanol, o que fortalece a integração entre as cadeias de energia e alimentos.

“Não se trata só de um insumo, se trata de algo que pode ser decisivo como uma cadeia de valor para a economia brasileira”, acrescentou.

Etanol busca novos mercados

A expansão dos biocombustíveis também começa a ultrapassar o mercado tradicional de combustíveis para veículos leves. Segundo Mário Campos, presidente executivo da SIAMIG/Bioenergia Brasil, o setor trabalha para ampliar a presença do etanol e de outros produtos renováveis em segmentos como aviação, transporte marítimo e máquinas agrícolas.

O desenvolvimento do combustível sustentável de aviação (SAF), do biogás e do biometano aparece entre as frentes de crescimento. A estratégia envolve aproveitar a experiência brasileira na produção de biocombustíveis e ampliar suas aplicações em atividades que buscam reduzir a intensidade de carbono.

“Depois de políticas públicas que levaram a gente a conseguir contar carbono, através do RenovaBio, hoje a gente pensa dessa forma dentro do nosso processo produtivo e está expandindo essa estrutura para outras áreas”, afirmou Campos.

No transporte marítimo, o executivo citou como exemplo um carregamento realizado em julho, envolvendo uma mistura com etanol em um navio de longo curso. A iniciativa sinaliza a busca por novas aplicações comerciais para o combustível brasileiro em um segmento que também enfrenta o desafio de reduzir emissões.

O biometano, por sua vez, começa a ganhar espaço na própria cadeia sucroenergética. Segundo Campos, algumas empresas já utilizam o combustível no transporte de açúcar, no deslocamento da cana-de-açúcar entre as lavouras e as unidades industriais e na operação de equipamentos agrícolas.

“A gente tem muito ainda o que desenvolver”, ressaltou.

Etanol de milho amplia participação

Outro destaque do debate foi a expansão da produção de etanol de milho no Brasil. De acordo com os dados apresentados por Mário Campos, o combustível, que tinha participação praticamente inexistente no país há cerca de uma década, já representa 30% da produção brasileira de etanol.

O crescimento impulsiona investimentos em regiões como o Centro-Oeste e também em estados do Sul, ampliando a distribuição geográfica da atividade e fortalecendo a integração entre a produção agrícola e a indústria de biocombustíveis.

O avanço, porém, também coloca em pauta a necessidade de ampliar o consumo e encontrar novos mercados para absorver o aumento da oferta. Para Campos, segmentos como aviação e transporte marítimo podem contribuir para sustentar a expansão do setor nos próximos anos.

Embora a oferta possa gerar pressão no curto prazo, a abertura de novos mercados representa uma oportunidade para diversificar a demanda e ampliar o valor agregado dos produtos brasileiros.

Demanda global deve ampliar necessidade de energia

O presidente do Instituto Brasileiro de Petróleo (IBP), Roberto Ardenghy, defendeu que a transição energética não deve ser interpretada necessariamente como uma substituição imediata das fontes tradicionais por alternativas renováveis. Na avaliação dele, diferentes tecnologias deverão coexistir para atender ao crescimento do consumo mundial.

“Mais do que transição energética, é uma evolução energética, onde todas as energias estão entrando na matriz energética mundial”, afirmou.
Ardenghy ressaltou que a demanda global por energia deve crescer significativamente nas próximas décadas, o que exigirá ampliação da oferta e combinação de diferentes fontes. Nesse cenário, o Brasil tem condições de aproveitar sua capacidade de produzir alimentos e energia e desenvolver soluções para reduzir as emissões.

Já o presidente da DATAGRO, Plínio Nastari, que moderou o painel, destacou a construção de mecanismos brasileiros para medir a intensidade de carbono dos combustíveis e incorporar esse indicador às estratégias de produção e comercialização.

Entre as iniciativas mencionadas estão o RenovaBio e os Créditos de Descarbonização (CBIOs), instrumentos que contribuíram para estruturar a mensuração dos benefícios ambientais dos biocombustíveis e ampliar a discussão sobre a descarbonização dos transportes.

A avaliação dos participantes é que o Brasil reúne condições para ocupar um espaço relevante nesse mercado, mas o avanço dependerá também da consolidação de novas aplicações e da capacidade de transformar os investimentos anunciados em produção e demanda efetiva.

Para Campos, o setor tem uma oportunidade importante de ampliar a presença dos biocombustíveis em diferentes segmentos da economia. O desafio será acompanhar o crescimento da oferta com a abertura de mercados capazes de absorver os volumes adicionais.

O painel encerrou a programação de conteúdo da terceira edição do GAFFFF, evento organizado pela DATAGRO para reunir representantes do agronegócio, da indústria e de outros setores em discussões sobre os rumos da atividade no Brasil e no mercado internacional.
 

Fonte: Notícias Agrícolas

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