Importação de etanol pode ganhar força no início de 2027 com alta dos custos internos

Janela de importação deve voltar a abrir na entressafra, enquanto estoques menores de anidro e aumento do consumo de gasolina pressionam o mercado brasileiro
Publicado em 21/10/2026 15:18

A importação de etanol anidro pelo Brasil pode ganhar força no primeiro trimestre de 2027, diante da perspectiva de encarecimento do produto nacional e de preços mais competitivos do biocombustível norte-americano. A avaliação é de Letícia Corrêa, analista de Açúcar, Etanol e Energia, que aponta a possibilidade de reabertura da janela de importação durante a entressafra da cana-de-açúcar.

Segundo a analista, a paridade entre o etanol nacional e o importado já se aproxima do equilíbrio em dezembro. A partir de janeiro, a expectativa é de que o produto dos Estados Unidos volte a apresentar vantagem competitiva, cenário que pode estimular novas compras externas, principalmente pelo porto de Suape (PE).

“É possível que vejamos um primeiro trimestre de 2027 parecido com o de 2026, com importação de etanol anidro por Suape”, avalia Letícia.
Na safra 2026/27, a produção brasileira de etanol alcançou 25,29 bilhões de litros até o início de outubro, volume aproximadamente 9% superior ao registrado no mesmo período do ciclo anterior. Apesar do avanço da oferta, as exportações recuaram 17%, para 1,032 bilhão de litros, enquanto as importações somaram cerca de 378 milhões de litros no acumulado de 2026.

Importações avançaram no início do ano

A dinâmica do comércio exterior mudou ao longo de 2026. As compras externas ganharam força no primeiro trimestre e levaram a balança comercial do etanol a registrar saldo negativo entre janeiro e março. A partir de abril, a redução das importações e a recuperação dos embarques brasileiros inverteram o movimento, com o superávit atingindo, em setembro, o maior nível da série analisada.

A janela de importação ficou aberta principalmente entre janeiro e fevereiro, quando o etanol norte-americano chegava ao Nordeste com custo inferior ao do produto nacional, mesmo com a incidência de frete e imposto de importação de 18%. Nesse intervalo, o Brasil importou 213,3 milhões de litros, o dobro do volume registrado nos mesmos meses de 2025.

A partir de março, porém, o início do conflito no Oriente Médio elevou os custos do transporte marítimo e reduziu a competitividade do produto importado. A queda sazonal dos preços internos com o avanço da safra de cana também contribuiu para manter fechada a janela de importação.

Atualmente, a arbitragem está desfavorável às compras externas tanto em Suape quanto em Santos (SP). O indicador compara o custo de trazer o etanol norte-americano ao Brasil, considerando preço de origem, câmbio, frete, tributos e despesas portuárias, com o preço do anidro no mercado doméstico.

Quando o custo do produto importado fica abaixo do preço nacional, a janela se abre e a operação pode se tornar economicamente viável. Caso contrário, a importação perde competitividade.

exportacao

Estados Unidos ampliam participação nas importações

Os Estados Unidos seguem como principal fornecedor de etanol ao Brasil. Em 2026, o país respondeu por 254,7 milhões de litros importados, o equivalente a 67,3% do total. Em 2025, a participação norte-americana era de 52,2%.

O porto de Suape, em Pernambuco, é uma das principais portas de entrada do produto importado, que posteriormente é distribuído pelo mercado nacional. As compras brasileiras se concentram praticamente integralmente no etanol combustível, especialmente o anidro, utilizado na mistura obrigatória à gasolina. Já a produção nacional tem forte presença do etanol hidratado, vendido diretamente aos consumidores nos postos.

Do lado das exportações, a queda dos embarques brasileiros está concentrada no etanol industrial, com recuo de 34,1%. O movimento está relacionado principalmente à redução das compras da Coreia do Sul, principal destino do produto brasileiro, que diminuiu suas aquisições em 44,9%. Os Estados Unidos também reduziram em 59% as compras de etanol do Brasil.

Em contrapartida, as exportações de etanol combustível cresceram 31,7% no acumulado do ano, ampliando sua participação no total embarcado.

O porto de Santos permanece como principal terminal de saída, responsável por cerca de 79% das exportações brasileiras em 2026. A participação, contudo, diminuiu em relação aos 92% registrados em 2025, acompanhando uma queda de 29,3% no volume embarcado pelo terminal. Paranaguá (PR), por sua vez, mais que dobrou os embarques e ampliou sua fatia de aproximadamente 7% para 21%.

Estoques de anidro entram no radar do mercado

Além da arbitragem internacional, o cenário de abastecimento doméstico exige atenção. Dados do Ministério da Agricultura e Pecuária (Mapa), referentes ao fechamento de setembro, apontaram estoques de 2,8 bilhões de litros de etanol anidro no Centro-Sul, volume 13% inferior ao observado na safra anterior.

Ao mesmo tempo, o mercado registrou aumento do prêmio do anidro, que chegou à média de 17,3% em outubro, em Ribeirão Preto (SP). O movimento reflete o avanço de 4,3% nas vendas de gasolina C no Centro-Sul e o aumento do teor obrigatório de etanol anidro na gasolina para 32% (E32).

A combinação de estoques menores e maior demanda levou algumas distribuidoras a manifestarem preocupação com o abastecimento nos próximos meses. Apesar disso, Letícia não vê, neste momento, sinais de uma falta generalizada do biocombustível.

A evolução dos preços, entretanto, pode alterar esse quadro e tornar as importações mais atrativas durante a entressafra.

Janela pode reabrir em janeiro

Para os próximos meses, a expectativa considera três fatores principais: estabilidade dos fretes marítimos, encarecimento do etanol brasileiro e redução dos preços do produto norte-americano.

Com essa combinação, a paridade de importação deve se tornar favorável às compras externas. Em dezembro, a diferença entre os custos dos produtos nacional e importado deve ficar próxima de zero. A partir de janeiro, a projeção aponta uma vantagem para o etanol importado de cerca de 370 pontos, segundo a análise.

Se esse cenário se confirmar, o Brasil poderá voltar a ampliar as compras de etanol anidro dos Estados Unidos no início de 2027, com desembarques concentrados em Suape. O movimento dependerá, sobretudo, do comportamento dos preços domésticos, do câmbio e dos custos de transporte marítimo ao longo da entressafra.
 

Já segue nosso Canal oficial no WhatsApp? Receba em primeira mão as principais notícias do agronegócio
Seguir canal

0 comentário