O Jornalismo que cumpre o seu papel e a alta ansiedade do PT

Publicado em 22/09/2012 08:49 e atualizado em 10/06/2013 14:53
por Reinaldo Azevedo, de veja.com.br

A edição de VEJA desta semana traz uma primeira e uma última páginas especialmente eloquentes. As duas têm como norte uma sociedade livre, em que o estado está a serviço da sociedade, não o contrário. As duas falam de um mundo em que as leis democráticas põem limites nos políticos e nos partidos, e não o contrário. Servem como balizas, sim, do que vai entre elas — e assim tem sido há décadas. E assim será. Leiam o primeiro texto editorial desta edição, a “Carta ao leitor”, intitulada “O mesmo grau de certeza”. Volto em seguida.

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Foi extraordinária, em todos os sentidos, a repercussão da reportagem de capa de VEJA da semana passada, com o publicitário mineiro Marcos Valério, o pivô financeiro do mensalão. VEJA trouxe revelações bombásticas de Valério sobre o papel central do ex-presidente Lula nas operações que resultaram em um escândalo que, por pouco, não lhe custou o mandato presidencial.

O ex-presidente Lula manteve-se calado. Marcos Valério também não se pronunciou. São dois casos de silêncio ensurdecedor.

Em contraste, os partidos da base de sustentação do governo protestaram e os de oposição emitiram notas exortando VEJA a tornar públicas as evidências materiais que embasaram a publicação das contundentes declarações do publicitário mineiro.

Os partidos que enxergam nas revelações de Marcos Valério vantagens políticas podem proceder como quem vislumbrou essas mesmas propriedades no depoimento de Pedro Collor trazido a público vinte anos atrás e que culminaram com o impeachment do irmão, Fernando Collor.

Da mesma forma, quem se sentiu prejudicado do homem do dinheiro do mensalão tem a possibilidade de interpelá-lo publicamente ou procurar reparação na Justiça. Marcos Valério está vivo e tem endereço conhecido. A mensagem é de Marcos Valério. VEJA foi a mensageira.

O grau de certeza de VEJA em relação ao conteúdo da reportagem com Marcos Valério é o mesmo que a revista tinha quando publicou, em 1992, a capa “Pedro Collor conta tudo”. Tanto em um caso quanto no outro, VEJA cumpriu sua missão de informar com fidelidade, coragem e espírito público fatos testemunhados por pessoas com grande intimidade com o poder.

Existe outro paralelo entre a reportagem de VEJA com Pedro Collor e a de agora com Marcos Valério. Ambas são estrondosas por reunirem declarações que deram materialidade a situações sobre as quais já tinham sido levantados diversos detalhes significativos, porém esparsos. Ficava faltando um demiurgo com informações privilegiadas capaz de amarrar todos os eventos, dando-lhes coerência. Foi o que Pedro Collor fez em 1992 e, na semana passada, Marcos Valério.

Retomo
A última página traz um artigo de José Roberto Guzzo intitulado “Só com censura”. É eloquente o bastante para dispensar comentários adicionais. Isso é com vocês!

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Para o seu próprio sossego pessoal, o ex-presidente Lula, seus fãs mais extremados e os chefes do PT deveriam pôr na cabeça, o mais rápido possível, um fato que está acima de qualquer discussão: só existe um meio que realmente funciona, não mais que um, para governos mandarem na imprensa, e esse meio se chama censura. Infelizmente para todos eles, essa é uma arma de uso privativo das ditaduras — e nem Lula, nem o PT, nem os “movimentos sociais” que imaginam comandar têm qualquer possibilidade concreta de criar uma ditadura no Brasil de hoje. Podem, no fundo da alma, namorar a ideia. Mas não podem, na vida real, casar com ela. Só perdem seu tempo, portanto, e se estressam à toa quando ficam falando que a mídia brasileira é um lixo a serviço das “elites”; há dez anos não mudam de ideia e não mudam de assunto. Bobagem. O que querem mesmo é impedir que esta revista, por exemplo, publique reportagens como a matéria de capa de sua última edição, com as declarações de Marcos Valério sobre o envolvimento direto de Lula no mensalão. Ficam quietos porque têm medo de que sejam publicadas as fitas gravadas com tudo aquilo que ele disse, e as coisas piorem ainda mais. Mas o seu único objetivo real é este: eliminar as informações que desejam esconder.

Até agora, o plano mais ambicioso que lhes ocorreu para chegar aonde querem foi propor algo que chamam de “controle social” da mídia: não conseguem explicar bem o que seria isso na prática, mas nem é preciso que expliquem. O problema do PT, nessa história toda, é simples: “controle social” é algo que não existe no mundo dos fatos. Na vida como ela é, só têm controle verdadeiro sobre um órgão de imprensa os seus proprietários ou, então, o departamento de censura. Todo o resto é pura tapeação. Mas é isso, exatamente, que o PT propõe. Já foi feita, de 2003 para cá, uma boa meia dúzia de tentativas para armar o tal controle, primeiro com projetos de lei que morreram antes de nascer, depois com “audiências públicas” e outras esquisitices. Não saiu, até agora, um único coelho desse mato.

Falou-se também da “mobilização de setores populares” para pressionar a mídia, mas não se conseguiu mobilizar ninguém. Manifestações de massa, para o PT de hoje, exigem ônibus fretados, lanches grátis, patrocínio de alguma estatal — e, francamente, não é assim que se faz uma revolução. Muito dinheiro do Erário tem sido gasto na compra do apoio de uma parte da imprensa, através de verbas publicitárias e outros tipos de ajuda: o problema, aí, é que o governo não consegue comprar os veículos que têm mais público. Foram criadas, também, brigadas de “blogueiros” que recebem uma espécie de “mensalinho” para falar a favor do governo e contra quem faz críticas a ele; ninguém parece prestar atenção no que dizem.

Inventou-se, ainda, uma “TV Brasil”, emissora que serve para apoiar as autoridades e é sustentada com dinheiro público em estado puro. Em cinco anos de funcionamento, sua audiência continua vizinha do zero; a esta altura, talvez tenha mais funcionários do que telespectadores. A questão, em todos esses casos, é que imprensa a favor não adianta nada — o que interessa a quem manda é não ter imprensa contra. Elogios não salvaram uma única cabeça, entre os doze ministros que a presidente Dilma Rousseff botou na rua até agora, nos casos em que foram denunciados por corrupção no noticiário. Não têm resolvido nada no julgamento do mensalão, também revelado integralmente pelo trabalho da imprensa; o STF vem sendo o flagelo de Deus para os réus, triturados um após o outro com sentenças de condenação.

Ditaduras entendem muito bem como se controla a imprensa. Não desejam aplausos: a única coisa que lhes importa é cortar tudo aquilo que não querem que seja publicado. Não podendo fazer isso, o PT fica na gritaria. Ainda há pouco, o presidente nacional do partido, deputado Rui Falcão, disse que a “mídia conservadora” é instrumento de uma “elite suja e reacionária”, e fez uma ameaça: “Não mexam com o PT”. E se mexerem — ele vai fazer o quê? As coisas que o deputado diz não chegam a obter a nota mínima necessária para ser levadas a sério: não há exemplo na história de situações em que a imprensa tenha mudado de linha por causa de discurseira desse tipo, ameaças vazias ou “pressões da sociedade”. Veículos independentes não têm medo de insultos, “setores populares” ou líderes políticos com popularidade de 80%; o que lhes quebra a espinha é a força armada, e só ela. É melhor, então, o PT segurar a ansiedade.

Por Reinaldo Azevedo

 

Fernando Eduardo! Enfim um candidato inteligente como a gente!

O candidato do PT à Prefeitura de São Paulo, Fernando Haddad, saudado pelas franjas (longuíssimas) petistas da imprensa paulistana como o “homem novo”, decidiu usar uma estratégia realmente matadora em sua campanha eleitoral. Num comício que fez ontem na Vila Brasilândia, periferia da Zona Norte, ele resolveu atacar Celso Russomanno, do PRB, líder das pesquisas. Para demonstrar que o adversário não reúne qualidades para ser prefeito, afirmou: “É um candidato muito engraçado. Parece aquela casa do Vinicius de Moraes; não tinha teto, não tinha nada”.

A Gislaynne, a Stephanny e o Uoshington Wednesday, que estavam na primeira fila, acharam a referência um pouco carne de vaca e não gostaram.
— Que é? Vem citar Vinicius só porque é periferia da Zona Norte? Aqui é de Auden pra cima, meu filho, vociferou Stephanny. Haddad ficou um tanto constrangido.
— De cabeça, assim, não me vem nada…
Wednesday não perdoou:
— Yeats, então, nem pensar, né, Fernando Eduardo?
O candidato tentou corrigir:
— Não é Fernando Eduardo, é Fernando Haddad!
O rapaz se zangou:
— Desse eu nunca ouvi falar.

Dali, o petista seguiu para outro comício, no Jaçanã. Demonstrando que tem grande intimidade e traquejo com o que Lula chamada antigamente de “classe trabalhadora”, fez outra intervenção muito feliz, também para se opor ao afilhado de Edir Macedo:
— O Russomanno é boa pessoa. Quis resolver o problema da máquina de lavar, a falta de garantia. Acho bacana o cara ir até a TV e dizer: ‘Rachou a parede, a privada não tá funcionando’. Mas, para governar São Paulo, precisa um pouquinho mais do que isso. Porque não é o direito do consumidor. É o direito do cidadão.

No gargarejo, Jéssica teve uma dúvida:
— Me diga uma coisa, Fernando Eduardo…
— É Haddad!
— Heinnn?
— É Haddad. Meu nome é Fernando Haddad, não Fernando Eduardo.
— Tudo bem, Fernando Eduardo! Mas como é que o cidadão faz para usar a privada entupida? Cocô de cidadão é diferente de cocô de consumidor?
— Nessa você me pegou!

Dá para entender por que Fernando Eduardo se tornou esse líder carismático, que vai arrebatando corações e arrebanhando multidões por onde passa. A gente percebe que a sua relação com o povo não é de natureza apenas intelectual. Há também um vínculo afetivo estreito. Ter citado Vinicius na Brasilândia e estabelecido no Jaçanã a distinção entre “consumidor” e “cidadão” são evidências de grande habilidade.

Haddad se prepara agora para debater Schopenhauer na Vila Nhocuné.

Por Reinaldo Azevedo

 

Lula medroso – Apedeuta está em silêncio e inventa teorias da conspiração porque está com medinho de Marcos Valério

Lula está com medo. E seu pavor tem nome: Marcos Valério. Na semana passada, reportagem da VEJA revelou o que o publicitário anda a dizer a seus interlocutores: o verdadeiro chefe do mensalão era o Apedeuta. O petismo entrou em parafuso e saiu a gritar: “Golpe!”. Mas “golpe” contra quem, cara-pálida?

O PT convocou seus reacionários para guerra, mas não revelou exatamente contra o quê. Lula não desmentiu Valério,  resolveu não confrontá-lo, evitou desqualificar quem o acusava. E sabe muito bem por quê.  Leia trecho de reportagem de Daniel Pereira e Rodrigo Rangel na VEJA desta semana.

(…)
A revelação dessas conversas por VEJA desnorteou o PT. Lula, um notório entusiasta do debate em público preferiu o silêncio ao ser confrontado com as novas informações. Não rechaçou o que Valério contou nem tentou desqualificá-lo. Dirceu e Delúbio seguiram o chefe. Não foi à toa. Segundo aliados, Lula não quer desafiar Valério, que não teria mais nada a perder. Além disso, teme que o empresário revele mais detalhes se provocado. Rebatê-lo agora, sem saber do arsenal à disposição de Valério, seria uma estratégia de altíssimo risco. A palavra de ordem é não comprar briga com o pivô financeiro do mensalão. Contra-ataques, só em cima dos alvos de sempre, aqueles aos quais os petistas recorrera, como uma conveniente muleta, toda vez que são pilhados em irregularidades.

Essa estratégia foi seguida à risca. Na segunda-feira, o PT divulgou uma nota conclamando a militância para “uma batalha do tamanho do Brasil” — no caso, a defesa do partido e do ex-presidente. O texto não faz menção às confissões de Valério. Ou seja: não explica do que Lula deve ser defendido. Na quinta-feira, outra nota foi publicada. Ela retoma a tese de que o mensalão e seus desdobramentos não passam de uma conspiração urdida pela oposição e por setores da imprensa para tirar o PT do comando do país por meio de um golpe. Esse golpe seria alimentado com a divulgação de denúncias sem provas. Quais denúncias? A redação petista não teve coragem, de novo, de citar as confissões de Valério, providencialmente esquecido. Fala de uma “fantasiosa matéria veiculada pela Revista Veja”. Fantasiosa, por ora, só a nota do PT. Ela foi elaborada pelo presidente da sigla, Rui Falcão. Em seguida, ele ligou para os presidentes de cinco partidos e pediu-lhes que subscrevessem o texto. Não se tratou de uma solidariedade espontânea. Muito pelo contrário.
(…)
Leia íntegra da reportagem na edição impressa.

Por Reinaldo Azevedo

 

Ferreira Gullar: “Quando ser de esquerda dava cadeia, ninguém era. Agora que dá prêmio, todo mundo é”

Ferreira Gullar tem 82 anos. É raro haver quem não o considere o maior poeta vivo da língua portuguesa e um dos grandes da literatura contemporânea. Já foi militante de esquerda, filiado ao Partido Comunista Brasileiro, mas se rendeu à realidade. Concedeu uma entrevista de impressionante lucidez a Pedro Dias Leite, nas Páginas Amarelas de VEJA. Leia trechos.

O senhor já disse que “se bacharelou em subversão” em Moscou e escreveu um poema em que a moça era “quase tão bonita quanto a revolução cubana”. Como se deu sua desilusão com a utopia comunista?
Não houve nenhum fato determinado. Nenhuma decepção específica. Foi uma questão de reflexão, de experiência de vida, de as coisas irem acontecendo, não só comigo, mas no contexto internacional. É fato que as coisas mudaram. O socialismo fracassou. Quando o Muro de Berlim caiu, minha visão já era bastante crítica. A derrocada do socialismo não se deu ao cabo de alguma grande guerra. O fracasso do sistema foi interno. Voltei a Moscou há alguns anos. O túmulo do Lênin está ali na Praça Vermelha, mas, pelo resto da cidade, só se veem anúncios da Coca-Cola. Não tenho dúvida nenhuma de que o socialismo acabou, só alguns malucos insistem no contrário. Se o socialismo entrou em colapso quando ainda tinha a União Soviética como segunda força econômica e militar do mundo, não vai ser agora que esse sistema vai vencer.

Por que o capitalismo venceu?
O capitalismo do século XIX era realmente uma coisa abominável, com um nível de exploração inaceitável. As pessoas com espírito de solidariedade e com sentimento de justiça se revoltaram contra aquilo. O Manifesto Comunista, de Marx, em 1848, e o movimento que se seguiu tiveram um papel importante para mudar a sociedade. A luta dos trabalhadores, o movimento sindical, a tomada de consciência dos direitos, tudo isso fez melhorar a relação capital-trabalho. O que está errado é achar, como Marx diz, que quem produz a riqueza é o trabalhador, e o capitalista só o explora. É bobagem. Sem a empresa, não existe riqueza. Um depende do outro. O empresário é um intelectual que, em vez de escrever poesias, monta empresas. É um criador, um indivíduo que faz coisas novas. A visão de que só um lado produz riqueza e o outro só explora é radical, sectária, primária. A partir dessa miopia, tudo o mais deu errado para o campo socialista. (…) O capitalismo não é uma teoria. Ele nasceu da necessidade real da sociedade e dos instintos do ser humano. Por isso ele é invencível. A força que torna o capitalismo invencível vem dessa origem natural indiscutível. Agora mesmo, enquanto falamos, há milhões de pessoas inventando maneiras novas de ganhar dinheiro. É óbvio que um governo central com seis burocratas dirigindo um país não vai ter a capacidade de ditar rumos a esses milhões de pessoas. Não tem cabimento.

O senhor se considera um direitista?
Eu, de direita? Era só o que faltava. A questão é muito clara. Quando ser de esquerda dava cadeia, ninguém era. Agora que dá prêmio, todo mundo é. Pensar isso a meu respeito não é honesto. Porque o que estou dizendo é que o socialismo acabou, estabeleceu ditaduras, não criou democracia em lugar algum e matou gente em quantidade. Isso tudo é verdade. Não estou inventando.

E Cuba?
Não posso defender um regime sob o qual eu não gostaria de viver. Não posso admirar um país do qual eu não possa sair na hora que quiser. Não dá para defender um regime em que não se possa publicar um livro sem pedir permissão ao governo. Apesar disso, há uma porção de intelectuais brasileiros que defendem Cuba, mas, obviamente, não querem viver lá de jeito nenhum. É difícil para as pessoas reconhecer que estavam erradas, que passaram a vida toda pregando uma coisa que nunca deu certo.

(…)
Como se justifica sua defesa da internação no tratamento da esquizofrenia?
As pessoas usam a palavra manicômio para desmoralizar os hospitais psiquiátricos. Internei meu filho em hospitais que têm piscina, salão de jogos, biblioteca. Mesmo os públicos não têm mais a camisa de força ou sala com grades. Tive dois filhos esquizofrênicos. Um morreu, o outro está vivo, mas não tem mais o problema no mesmo grau. Controlou com remédio, e a idade também ajuda. A esquizofrenia surge na adolescência e se junta à impetuosidade. Com o tempo, a pessoa vai amadurecendo. Doença é doença, não é a gente. Se estou gripado, a gripe não sou eu. A esquizofrenia é uma doença, mas eu não sou a esquizofrenia. Posso evoluir, me tornar uma pessoa mais madura, debaixo de toda aquela confusão. O esquizofrênico com 50 anos não é o mesmo de quando tinha 17.
(…)

Por Reinaldo Azevedo

 

Lula e o PT estão desesperados

Leiam editorial do Estadão deste domingo:

Lula sente-se ameaçado. De fato, está. Seu governo corre o risco de receber diploma de improbidade com o julgamento da Ação Penal 470 pelo Supremo Tribunal Federal (STF). E seu partido pode levar uma surra histórica nas urnas de 7 de outubro – como mostra o último Datafolha. São as razões do desespero que levou o ex-presidente a pedir socorro a alguns dos partidos da base do governo, constrangendo-os a subscrever uma nota dirigida “à sociedade brasileira” na qual se tenta colocar o chefão do PT a salvo das suspeitas a respeito de seu verdadeiro papel no escândalo do mensalão. 

Como não pegaria bem atacar diretamente o STF injusto ou o eleitorado ingrato, a nota volta-se contra os partidos da oposição, que tiveram a ousadia de sugerir ampla investigação sobre quem esteve de fato por detrás da trama criminosa do mensalão, conforme informações atribuídas ao publicitário Marcos Valério pela revista Veja.

A propósito dessa suspeita natural que a oposição não teve interesse ou coragem de levantar em 2004, o comportamento do ex-presidente no episódio merece, de fato, algum “refresco de memória”. Quando o escândalo estourou, Lula declarou que se sentia traído e que o PT devia pedir desculpas ao País; depois, em entrevista à televisão em Paris, garantiu, cinicamente, que seu partido havia feito apenas o que todos fazem – caixa 2; finalmente, já ungido pelas urnas, em 2006, lançou a tese que até hoje sustenta: tudo não passou de uma “farsa” urdida pelas “elites” para “barrar e reverter o processo de mudanças” por ele iniciado, como afirma a nota.

Por ordem do chefão essa manifestação de desagravo a si próprio foi apresentada pelo presidente do PT, o iracundo Rui Falcão, a um grupo selecionado de aliados. Da chamada base de apoio ficaram de fora o PP de Valdemar Costa Neto e o PTB de Roberto Jefferson, ambos sendo julgados pelo STF. O documento leva a assinatura dos presidentes do PT e de cinco outras legendas: PSB, PMDB, PC do B, PDT e PRB. Seus termos obedecem ao mais rigoroso figurino da hipocrisia política. Iniciam por repudiar a nota em que PSDB, DEM e PPS, “forças conservadoras”, “tentaram comprometer a honra e a dignidade do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva”. E a classificam como “fruto do desespero diante das derrotas seguidamente infligidas a eles pelo eleitorado brasileiro”.

Para PT e aliados, numa velada referência ao processo do mensalão, as oposições “tentam fazer política à margem do processo eleitoral, base e fundamento da democracia representativa, que não hesitam em golpear sempre que seus interesses são contrariados”. Nenhuma referência, é claro, ao fato de que, no momento, os interesses que estão sendo contrariados são exatamente os de Lula e do PT. Mas, em matéria de fazer o jogo de espelho, acusando os adversários exatamente daquilo que ele próprio faz, o lulopetismo superou-se em alusão explícita ao julgamento do mensalão: “Os partidos da oposição tentam apenas confundir a opinião pública. Quando pressionam o STF, estão preocupados em fazer da Ação Penal 470 um julgamento político, para golpear a democracia e reverter as conquistas que marcaram a gestão do presidente Lula”.

Nos últimos dias, os sintomas de desespero nas hostes lulopetistas traduziram-se em despautérios de importantes personalidades do partido. O presidente da Câmara dos Deputados acusou o ministro Joaquim Barbosa de ser falacioso ao denunciar a compra de apoio parlamentar pela quadrilha que, segundo a denúncia da Ação Penal 470, era chefiada por José Dirceu. O senador Jorge Viana (PT-AC), ex-governador do Acre, ele próprio investigado pela suspeita de compra de votos, voltou ao tema do “golpe contra o PT”. E o deputado federal André Vargas (PT-PR), chefe da equipe nacional de Comunicação do partido, revelou sua peculiar concepção de transparência da vida pública ao condenar a transmissão ao vivo das sessões plenárias do STF como “uma ameaça à democracia”. São esses os combatentes da “batalha do tamanho do Brasil” convocada pelo desespero de Lula&Cia. Convocação atendida também pelo cientista político Wanderley Guilherme dos Santos, em esfuziante entrevista no jornal Valor de sexta-feira.

Por Reinaldo Azevedo

 

Será que Roberto Jefferson merece perdão?

Qualquer que seja o juízo que se tenha sobre Roberto Jefferson, presidente do PTB, uma coisa é certa: sem ele, os mensaleiros estariam por ali, livres, leves e certamente soltos. Mais: o esquema denunciado era parte de uma estratégia de assalto a estado. Sem freios nem punição, os criminosos teriam sido a cada dia mais ousados. Em vez de Dilma, a esta altura, poderia estar no palácio José Dirceu. Ou, numa hipótese não menos perversa, Lula teria dado um jeito, nos “braços do povo”, de se perpetuar no poder. Ele já age hoje como se não o tivesse deixado, não é mesmo?, embora seja apenas um cidadão comum. Coloca-se uma questão: Jefferson merece uma compensação pelo bem inegável que fez, embora possa ter se deixado mover mais pelo desejo de vingança do que de justiça? Leiam o que informam Adriano Ceolin e Laura Diniz na VEJA desta semana.

(…)
A ponta do iceberg que deu origem ao escândalo do mensalão apareceu com o vídeo que mostrava um funcionário dos Correios recebendo propina, ao mesmo tempo em que revelava que a estatal funcionava como um centro de captação de dinheiro para o PTB. Seria mais um dos muitos casos de corrupção se Roberto Jefferson, o então todo-poderoso presidente do PTB não tivesse decidido contar o que sabia: o governo do presidente Lula havia montado uma gigantesca estrutura de arrecadação e distribuição de dinheiro para comprar partidos políticos e subornar parlamentares — “um mensalão”, como definiu pela primeira vez o deputado. Jefferson deu o nome dos envolvidos (seis parlamentares de quatro partidos), trouxe à luz a identidade do pagador (“um carequinha chamado Marcos Valério”) e apontou o dedo para quem julgava ser o chefe (o ex ministro da Casa Civil José Dirceu).

As investigações confirmaram o que o ex-deputado relatou. A Procuradoria-Geral da República denunciou quarenta pessoas por diversos crimes e dez delas já foram condenadas pelo Supremo. Sem o testemunho de Roberto Jefferson, a punição aos corruptos não passaria de uma miragem. É por isso que alguns ministros estudam propor, na hipótese de condenação do ex-deputado, a redução de sua pena, um prêmio pela colaboração “A lei permite e é um caso que pode, inclusive, ter efeito pedagógico”, diz um ministro do STF que já conversou com alguns colegas sobre o caso. A ideia é recompensar Roberto Jefferson pela delação que levou à comprovação do esquema. Há dois benefícios possíveis, extraídos de uma lei que trata da colaboração voluntária de réus nas investigações dos crimes de que participaram — o perdão judicial, livrando-o de qualquer punição, e a redução de até dois terços da pena.

Esses benefícios são resultado do reconhecimento de que só a ajuda dos próprios infratores, em determinados casos, pode acelerar investigações que se arrastariam por anos e teriam conclusão incerta. “O Judiciário se vê diante de crimes tão complexos atualmente que, muitas vezes, sem essa colaboração, não se chega aos culpados”, diz o ex-ministro Carlos Velloso.
(…)
Por enquanto, Jefferson diz que seu maior temor não é cumprir pena na cadeia após o julgamento do rnensalão. Ele estaria às voltas com um desafio bem mais prosaico: alimentar-se, um processo que ficou tormentoso depois que seu aparelho digestivo teve de ser remodelado em consequência de uma cirurgia para a retirada de um tumor maligno no pâncreas. “Tirei quatro quintos do estômago, 1,5 metro de intestino delgado, um quarto do fígado e metade do pâncreas. Tomei 500 pontos. Preciso comer, mas, se como um pouco a mais, meu estômago grita. Sinto cólicas.”
(…)
Leia a íntegra na edição impressa da revista.

Por Reinaldo Azevedo

 

Paulo Rocha, mensaleiro graúdo, admite que houve crime, sugere que ministros estão traindo o PT e ataca a VEJA com ilação antissemita. Essa história vem desde Goebbels: acuse a imprensa e os judeus…

Não deixem de ler a reportagem de Maria Lima, do Globo, com o mensaleiro, ex-deputado e dirigente petista do Pará Paulo Rocha (PA). Pela primeira vez, um réu do mensalão admite que houve crime, contrariando todos os advogados de defesa e, por óbvio, dando razão ao relator do processo, o ministro Joaquim Barbosa. Rocha aproveita ainda para atacar a VEJA e faz uma óbvia ilação de caráter antissemita — tudo, obviamente, conforme o caráter desses patriotas.

Leiam esta afirmação de Rocha:
“Ninguém está negando que houve os empréstimos fraudulentos, os repasses, mas não teve compra de votos, foi para pagar conta de campanha.”

José Dirceu, José Genoino e Delúbio Soares devem ter vibrado com a confissão de Rocha: os empréstimos eram fraudulentos!!! Genoino e Delúbio meteram suas respectivas assinaturas numa fraude. E Dirceu na chefia de tudo! É bem verdade que os ministros já sabiam disso, né? Daí terem condenado Kátia Rabello, José Roberto Salgado e Vinicius Samarane, do Banco Rural, por gestão fraudulenta.

Ora, se os empréstimos e os repasses foram “fraudulentos”, como confessa o petista, os ministros do Supremo seguem a lei ao punir os fraudadores, os criminosos. Ah, ocorre que Rocha insiste que o destino do dinheiro era pagar conta de campanha… Ainda que tivesse sido. E daí? Os ministros já decidiram, acertadamente, que pouco importa a destinação que se dê ao fruto de um crime: isso não muda a sua natureza. Se o PT usou o dinheiro para pagar contas de campanha ou para tomar Chicabon, tanto faz como tanto fez. O que caracteriza a corrupção passiva não é ter cometido um ato de ofício (sim, eles cometeram…), mas a expectativa de que um servidor público possa fazê-lo. Alertei para isso desde sempre. Os mensaleiros deveriam ter me contratado: cobro a metade de Márcio Thomaz Bastos: R$ 10 milhões…

Atenção que a fala vai ficando ainda melhor. Indignado, Rocha afirma:
“Não há prova do que estão dizendo. Os ministros do Supremo não foram colocados lá para apenar como estão apenando”.

Como, excelência? Notem que Rocha não se dedica exatamente a negar o fato, mas a sustentar que não há provas. Como bem exemplificou o ministro Luiz Fux, é o caso do filho adolescente que, ao ser indagado pelo pai sobre uma falta, em vez dizer um “não fui eu”, afirma: “Não há provas contra mim”. E qual seria “a prova” na visão de Rocha? Pois é… Ele esqueceu de ler o Artigo 317 do Código Penal, né? Um parlamentar pode cometer corrupção passiva até mesmo votando contra os interesses de quem lhe deu grana.

Mas há mais aí: segundo o deputado, os “ministros do Supremo não foram colocados para apenas como estão fazendo…”. Heeeinnn? Rocha sugere que eles estão traindo um compromisso? Teriam sido colocados lá para inocentar os mensaleiros? A propósito: o que quer dizer “ministros colocados”?

Seu ódio é especialmente dirigido a Joaquim Barbosa:
“O ministro Joaquim Barbosa está movido pelo ego. Não tem opinião pública. A opinião pública não sabe de nada, sabe o que vocês publicam. O ministro não tem prova de nada, só indícios. Semana que vem, ele vai condenar o José Dirceu e o Genoino por causa da eleição”.

Além das provas, há agora uma confissão: a de Paulo Rocha! Os empréstimos foram fraudulentos. Rocha, como se nota, acusa o relator do processo de atrelar seu voto à questão eleitoral. Parece-me que o petista está acusando o ministro do Supremo de cometer um crime — porque é crime uma autoridade submeter a sua autoridade a um ditame extralegal. Barbosa deveria processá-lo, mas isso é com Sua Excelência.

Baixo calão
O deputado estava mesmo com o pensamento e a língua sem freios. Indagado se temia ser preso, mandou brasa:
“Você nunca me ouviu sobre o processo e agora quer saber se estou preparado para ser preso? Ah! Vai se foder!”
É normal. Esse vocabulário é muito comum no PT até quando eles estão numa conversa amena, elogiando-se mutuamente. A escolha de palavras tão desassombradas era uma das características que os assessores e adoradores de Lula mais apreciavam nele. Sigamos com uma cena até engraçada, que vai chegar à revista VEJA. A jornalista e Rocha conversavam numa feirinha de artesanato de um shopping. Transcrevo trecho da reportagem (em azul):

Sem saber que Rocha era um ex-deputado réu do mensalão, a vendedora foi interpelada para dar sua opinião sobre o julgamento em curso.
“Estou amando! Finalmente está havendo justiça nesse país. Mas minha irmã é quem está mais bem informada, porque é cientista política”, disse a moça.
“Ah! Você não sabe de nada, só o que lê na imprensa, na “VEJA”, que só está fazendo esse papel sujo porque o presidente Lula abriu o mercado para os árabes. Sua irmã também não sabe de nada! Intelectual que se informa por livros e não sabe o que se passou de verdade nesse processo!”, esbravejou Paulo Rocha, assustando também a moça.
Depois da discussão, o ex-deputado petista continuou seu passeio pelo shopping.

Voltei
Entendi. Rocha é contra intelectuais que se informam por intermédio de livros. Emir Sader também é, hehe. O papel de um intelectual, como já deixaram claro Pol Pot, Mao Tse-tung e os petistas da Apeoesp, em São Paulo, é queimar livros. Agora vamos à VEJA.

Como é? A revista estaria descontente porque “o presidente abriu o mercado para os árabes”??? Hesitei um tantinho antes de chegar ao sentido profundo dessas palavras. O que estaria querendo ele dizer? Mas entendi logo. Roberto Civita, o editor da VEJA, é judeu. Assim, só poderia estar descontente com a dita abertura do mercado aos árabes. Sagaz esse Paulo Rocha! Covenham: uma ilação antissemita, com efeito, não fica mal ornando um pensamento com tal brilhantismo.

Em seu primeiro pronunciamento público depois da chegada de Hitler ao poder, Goebbels prometeu pegar a imprensa e os judeus. Essa é uma história antiga.

Sempre que me defronto com um pensamento sofisticado como o de Paulo Rocha, sou tentado a buscar um emblema que o deixe marcado também por imagem. Escolhi esta foto, de 1º de julho de 2009, quando o então presidente do Brasil, Luiz Inácio das Arábias da Silva se encontrou com o então ditador líbio, Muamar Kadafi, a quem chamou de “irmão”. À época, acreditem, ele escolheu a Líbia para acusar a existência de um golpe em Honduras — golpe que não existiu. Civita, o judeu, como sabem, prometeu se vingar: “Serei mau como um pica-pau. Vou pedir para a VEJA ser contra empréstimos fraudulentos”.

E assim tudo começou!

Lula (à dir.), ao lado do terrorista Kadafi (com seu amarelo coruscante), prega contra o “golpe” em Honduras. Ah, sim: Kadafi caçava opositores, mas jurava que só queria ser “bo-ni-ta” e caçar beduínos no deserto. Acabou mal -Foto Sabri Elmehdwi/Efe

Texto originalmente publicado às 19h54 desta sexta

Por Reinaldo Azevedo

 

Parlamentares com vergonha na cara reagem a nota absurda tramada por Lula em sua própria defesa

Sim, é claro que existem pessoas com vergonha na cara nos partidos da base aliada, concorde-se ou não com elas. Nem todo mundo de quem discordo é sem-vergonha, é evidente. Há gente decente, embora eu possa considerar equivocada.

E os decentes começam a reagir àquela nota absurda, assinada por seis partidos, tramada por Lula, levada a efeito por Rui Falcão e assinada por seis presidentes de legendas da base aliada. Acusa a imprensa de golpista por, supostamente, estar se mobilizando contra Lula. Ainda que esta segunda acusação fosse verdadeira (também é falsa), cabe a pergunta: o Apedeuta, por acaso, é chefe de estado? Se verdadeiro, o ataque a ele seria “golpismo” por quê? A presidente da República, salvo melhor juízo, se chama Dilma Rousseff. Leia trecho de reportagem de EugênIa Lopes, no Estadão Online:

Integrantes do PMDB e do PDT reclamaram neste sábado da decisão dos presidentes Valdir Raupp e Carlos Lupi de assinar nota, idealizada pelo PT, na qual seis partidos da base aliada defenderam o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva e acusaram a oposição de tentativa de golpe. Divulgada na quinta-feira, a nota faz ataques ao PSDB, DEM e PPS, após a oposição ameaçar pedir apuração sobre a suposta relação do ex-presidente com o mensalão.

“É um exagero. A oposição não está sendo golpista. Não existe golpe contra ex-presidente”, disse no sábado o senador Cristóvam Buarque (PDT-DF). Ele e o senador Pedro Taques (PDT-MT) divulgaram nota reclamando por não terem sido consultados sobre o desagravo a Lula. “Se tivéssemos sido consultados seríamos contra”, afirmaram os dois senadores, na nota. “Além de ser um direito inerente às oposições fazer críticas, em nenhum momento tocaram na presidenta Dilma. Consideramos mais ameaçadoras à democracia as consequências dos imensos gastos publicitários feitos pelos governos”, escreveram.

Dirigentes do PMDB também condenaram a atitude do presidente do partido, senador Valdir Raupp (RO), de assinar a nota em defesa de Lula. “Ele (Raupp) puxou para o colo do PMDB o mensalão. Nós não temos nada com isso”, argumentou um peemedebista. Na época do mensalão, o PMDB não era da base de apoio do governo Lula. “O PMDB era de oposição e depois do mensalão é que o governo veio atrás da gente”, observou outro integrante do partido. “O Raupp renegou fatos históricos ao tomar uma posição dessas e assinar a nota sem nos consultar.”

Segundo um parlamentar peemedebista, o presidente do PT, Rui Falcão, teria pego Raupp de surpresa com a nota já assinada pelos outros cinco partidos. Sem saída, Raupp chancelou a “Carta à Sociedade” e, depois, comunicou o vice-presidente da República, Michel Temer, sobre o documento de solidariedade a Lula. “O Raupp não teve capacidade de reagir”, reclamou um peemedebista.
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Por Reinaldo Azevedo 

 

As ditas “Primaveras Árabes”, até agora, não aplicaram uma só conquista típica da democracia, mas o Ocidente já começa a flertar com seus valores ditatoriais. Ou: O que queriam mesmo os muçulmanos de Foz do Iguaçu? Tolerância? Onde?

E a onda de violência continua em alguns países islâmicos sob o pretexto de protestar contra o filme “Inocência dos Muçulmanos” e contra as charges publicadas no semanário francês “Charlie Hebdo”. Dizer o quê? Eles que são muçulmanos que se entendam. Se seus respectivos governos não conseguem pôr ordem na casa — e se alguns até estimulam as manifestações, a exemplo do que faz o do Egito —, não há muito o que o Ocidente possa fazer a não ser tomar as medidas adicionais de segurança. Isso, em si, não tem muita importância.

O que me preocupa é outra coisa. Os países ocidentais e, sobretudo, suas respectivas imprensas (a nossa também) se tornaram reféns do extremismo islâmico. Da linguagem empregada ao viés das reportagens, há um clamor geral de condenação ao filme e às charges. Não vi nem uma coisa nem outra, mas me ocorre que a liberdade de expressão é um fundamento das democracias — inclusive, vejam só!, para criticar Maomé. E sabem por quê, meus irmãos muçulmanos? Porque, nas democracias de maioria cristã, a Bíblia, Deus, Jesus, o papa, os patriarcas judeus do Velho Testamento — e, claro!, também “O Profeta” — podem e devem ser submetidos ao livre exame das consciências.

O filme é uma boçalidade? Pode até ser. Mas, nas democracias, também se publicam e se divulgam boçalidades. Se fatias consideráveis da população muçulmana são incapazes de entender que os regimes democráticos não podem ser submetidas aos fundamentos do islamismo, então seus respectivos governos têm de agir com a energia necessária para que, ao menos, se contenham.

Ocorre que não é isso o que está em curso. Ao contrário. Governos de países islâmicos — inclusive daqueles que viveram a tal “Primavera Árabe” — estão é estimulando a mobilização, que, ora vejam!, já chegou ao Brasil. Ontem, em Foz do Iguaçu, houve uma “manifestação pacífica” em favor da tolerância religiosa. A maioria dos participantes era muçulmana, mas representantes de outras religiões também foram convidados. Huuummm… Posso fazer de conta que não vi o que vi. Como vi, então não faço de conta.

Tomavam-se por “intolerância”, ali, claramente, o tal filme e as charges, não os protestos violentos que varreram boa parte do mundo, fazendo vítimas. O fato de a manifestação ser pacífica não nos impede de questionar: aquela era também uma manifestação em favor da TOLERÂNCIA COM QUEM PENSA DIFERENTE? O que queriam os  de Foz do Iguaçu? Mandar aos muçulmanos do resto do mundo a mensagem de que eles também estão indignados com as supostas “ofensas” ao Islã ou lhes dizer que estão errados ao sair pelas ruas quebrando o que veem pela frente? Infelizmente, eu sei a resposta, e ela não é boa.

Não! Os muçulmanos não têm nada a ensinar em matéria de tolerância com o outro, com a diferença. Aliás, nem mesmo existe um só Islã, não é? E, no que se dividem, assistimos a batalhas verdadeiramente sangrentas. Mas eles têm muito a aprender. Gozam, nas democracias, de uma liberdade religiosa que os países islâmicos jamais concederam àqueles que não pertencem à sua fé. Um pastor protestante está condenado à morte no Irã. Acusação: ter-se convertido ao cristianismo. Que país muçulmano é hoje exemplo de liberdade religiosa? Como eu a concebo, nem mesmo a Turquia, uma sedizente “democracia islâmica”. Nem tão democrática que se possa criticar… “O Profeta”!

Os que foram às ruas ontem, em Foz do Iguaçu, estavam pedindo tolerância religiosa também nos países islâmicos? Ou, ao condenar filme e charges, explicavam e justificavam, de modo oblíquo, a violência que toma conta de boa parte do mundo? E tudo por causa de um filme amador, que jamais seria notícia, não fosse justamente a… fúria popular organizada por extremistas, tolerada e até apoiada por governos?

Terão, doravante, as respectivas Constituições das democracias ocidentais de contar com uma cláusula de exclusão? Que tal esta: “É assegurada a liberdade de pensamento e de expressão, menos em assuntos que se refiram ao Profeta Maomé”? Ban Ki-moon, esse banana que é hoje secretário-geral da ONU, certamente concordaria com o texto. Afinal, segundo ele, a liberdade de expressão é um “privilégio” que tem de ser usado com parcimônia…

Essa tal “Primavera Árabe” fica, realmente, a cada diz mais interessante, não é? Até agora, não se viu por lá uma só conquista típica das democracias (também existem eleições em ditaduras!), mas já estamos, nos países ocidentais, flertando com seus valores ditatoriais. 

O choque de civilizações previsto por Samuel Huntington não vai acontecer. Antes disso, os “cruzados” jogam a toalha…

Que dias estes!

Por Reinaldo Azevedo

 

Surgem evidências de que o tal fragmento de papiro que sugere que Jesus era casado é uma falsificação. Pois é…

Pois é, caras e caros… Há coisas que podem ser resolvidas pela lógica elementar, por algum conhecimento e por certo bom senso. Vamos ver. Karen King é uma respeitada professora de religião de Harvard. Mas é também obcecada pelo papel da mulher nos primórdios do cristianismo. Na verdade, a sua pesquisa tem um viés militante. Até aí, vá lá. Pois não é justamente às mãos de alguém com esse perfil que chega o fragmento de um papiro sugerindo que Jesus tinha mulher? É aquele caso em que a ocorrência sensacional e fortuita premia, por acaso, justamente a linha de investigação da pesquisadora!

Escrevi a respeito, como sabem. Sugeri cuidado, lembrei o perfil da professora e acrescentei que o casamento de Jesus não era uma questão dogmática. Não há nenhum fundamento que derive do celibato de Jesus ou da sua virgindade. A condição, para os sacerdotes, é entendida há séculos como uma renúncia em favor da construção e do fortalecimento da instituição, causa à qual eles devem se dedicar integralmente. Falando aos primeiros construtores da Igreja de Cristo, Paulo, celibatário, sugeriu que eles o imitassem. Mas melhor o casamento do que “abrasar-se”, ele advertiu.

Muito bem! Há obscuridades e coincidências demais numa história que, de resto, não muda fundamento nenhum do cristianismo. Apareceram agora as primeiras evidências de que o tal papiro pode ser uma farsa. E evidências fortíssimas. Leiam o que vai na VEJA.com.
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As discussões sobre o fragamento de papiro que provaria que Jesus foi casado ganhou um novo capítulo nesta sexta-feira.  O pesquisador Francis Watson, professor do Departamento de Teologia e Religião da Universidade de Durham, na Inglaterra, e especialista no Novo Testamento, disse não ter dúvidas que se trata de uma falsificação. Em um texto publicado online (em inglês), ele afirma que o texto do papiro seria uma colagem de trechos do Evangelho de Tomé escrito em copta, que teriam sido misturados para sugerir um novo significado. “O texto foi construído a partir de pequenos pedaços – palavras ou frases – retiradas em sua maior parte dos provérbios 101 e 114  do Evangelho de Tomé em copta, colocadas em novo contexto”, escreveu.

São livros que descrevem a vida de Jesus, mas que a maioria das igrejas cristãs não considera legítimos. Por isso eles não entram no cânone — conjunto de textos sagrados — da Bíblia. Além dos evangelhos, porém, há outros tipos de apócrifos que descrevem, por exemplo, a origem e o fim do mundo, como fazem o Gênesis e o Apocalipse bíblicos, respectivamente. A maior parte desses relatos foi destruída ou se perdeu com o tempo. Em 1945, porém, foram descobertos vários textos escondidos em cavernas no Egito. De lá pra cá, especialistas passaram décadas na busca de novos textos e tentando traduzi-los. Entre os relatos já estudados, estão evangelhos atribuídos a Maria Madalena e aos apóstolos Tomé e Judas.

Ele até considerou a possibilidade de se tratar de um evangelho antigo, que juntou e reinterpretou trechos de outros textos, como muitos dos evangelhos apócrifos. Não haveria problema nenhum – e nem como chamar o texto de falsificação – se Watson não insinuasse que a colagem teria sido feita recentemente. “A técnica de composição de textos é provavelmente de um indivíduo moderno, que não é falante nativo do Copta.”

Como argumento, Watson cita uma quebra em uma das linhas – uma das palavras aparece pela metade, como se a primeira parte tivesse sido escrita na linha anterior – que teria sido copiada diretamente de outro texto. Segundo o professor, era comum as palavras serem quebradas no meio nos textos antigos, que não utilizavam hifens, mas a quebra dificilmente apareceria no mesmo lugar em dois textos diferentes, a não ser que o autor não dominasse o idioma. “O autor é evidentemente dependente do manuscrito do Evangelho de Tomé em copta, cuja divisão de linhas ele copia. Uma explicação óbvia é que o autor usou uma edição moderna impressa do texto copta, onde a divisão original de linhas foi preservada.”

Debate sem fim
A historiadora Karen King ainda não se pronunciou sobre as críticas. No entanto, quando sua pesquisa foi anunciada, ela afirmou que o papiro havia sido analisado por dois especialistas no assunto, que confirmaram sua autenticidade. O professor Roger Bagnall, diretor do Instituto para o Estudo do Mundo Antigo da Universidade de Nova York, foi um deles. Em declaração ao site de VEJA, ele confirmou que acredita na veracidade do documento.

Francis Watson diz que mesmo que o papiro analisado pelos especialistas seja antigo, o mesmo não pode ser dito da tinta usada no texto. “Se testes químicos forem realizados para estabelecer a composição química da tinta, eles podem mostrar que tinta moderna foi usada e provar que é uma falsificação moderna”, escreveu. Karen King já havia prometido submeter a tinta a uma espectroscopia, técnica que analisa a composição química de um produto. Até lá, os questionamentos de Watson devem permanecer sem resposta. E, mesmo assim, nada indica que os resultados do exame devem acabar com a controvérsia.

Por Reinaldo Azevedo

 

Ibope – Manuela despenca em Porto Alegre; Fortunatti tem 45%; candidato de Tarso, apenas 10%

Parece que não vai desta vez que Manuela Dávila, a face mais bela do PCdoB, vai administrar Porto Alegre. Leiam o que informa a Folha Online:

Pesquisa Ibope divulgada nesta sexta-feira (21) aponta que o prefeito de Porto Alegre, José Fortunati (PDT), tem chance de ser reeleito já no primeiro turno. Fortunati aparece com 45% das intenções de voto, contra 28% de Manuela D’Ávila, do PC do B. O levantamento foi encomendado pelo grupo RBS e tem margem de erro de três pontos percentuais para mais ou para menos. Na pesquisa feita pelo instituto há três semanas, os dois candidatos estavam tecnicamente empatados, com Manuela tendo dois pontos percentuais de vantagem — 37% a 35%.

Na sondagem divulgada hoje, o terceiro lugar na disputa continua com o petista Adão Villaverde. Agora, ele aparece com 10% das intenções de voto. Roberto Robaina, do PSOL, e o tucano Wambert di Lorenzo estão empatados com 2%. A pesquisa ouviu 805 eleitores e foi registrada no Tribunal Regional Eleitoral sob o número RS-00182/2012.

Por Reinaldo Azevedo

 

Haddad adverte o eleitorado da periferia: “Russomanno é a velha política”. Só se fala nisso em Parelheiros, Guaianazes, Jaraguá e Tremembé

O candidato do PT à Prefeitura de São Paulo, Fernando Haddad, decidiu dar uma declaração realmente bombástica à imprensa: afirmou que Celso Russomanno, do PRB, representa a “velha política”. E ganhou, claro, destaque nos sites noticiosos.

Huuummm… Eu também acho que Russomanno representa “a velha política”. Mas quem fala? Haddad, que só é candidato porque o Luiz Inácio Coroné da Silva mandou. Pode haver algo mais velho do que isso?

Mas essa nem é a questão central. Ao dizer que Russomanno é a “velha política”, Haddad está tentando ganhar o voto de quem? Huuummm… Deixem-me ver… Já sei: da maioria dos professores do Complexo Pucusp, que já vão votar nele.

Lá nos extremos da Zona Leste, onde Russomanno bateu a carteira eleitoral dos petistas, só se fala nisto: “Russomanno não é o novo, como bem já nos alertou Marilena Chaui. Precisamos tomar cuidado com o tendência fascistizante de São Paulo”.

Hoje, é o assunto mais discutido em Parelheiros, Guaianazes, Jaraguá e Tremembé!

Por Reinaldo Azevedo

 

Dilma de cabeça na campanha e a linguagem que cheira a chantagem

A presidente Dilma Rousseff havia emitido sinais de que manteria uma postura de magistrada nas eleições. Seria o certo. Mas quê… Entrou pra valer na campanha. Integra o esforço concentrado para tentar tirar o PT do sufoco. Nas capitais, o partido lidera as pesquisas de intenção de voto apenas em Goiânia. O pior Dilma já fez: nomeou uma ministra de Estado apenas para tê-la na campanha eleitoral. Refiro-me a Marta Suplicy. A pasta da Cultura foi usada como moeda de troca.

Dilma gravou, por exemplo, um depoimento para Vanessa Grazziotin, que disputa a Prefeitura de Manaus pelo PCdoB. O principal adversário é o ex-senador Arthur Virgílio (PSDB), um dos desafetos de Lula. Muito bem. A presidente disse o seguinte texto:
“Vanessa na prefeitura é a certeza da consolidação da parceria que firmamos com o governador Omar (Aziz) e com o senador Eduardo (Braga), que já significou, entre outras coisas, a decisão de prorrogar por mais 50 anos a Zona Franca de Manaus. Vanessa na prefeitura é mais crescimento econômico e mais igualdade para todos”.

A única coisa aceitável nesse pronunciamento é a frase final: “Vanessa na prefeitura é mais crescimento econômico e mais igualdade para todos”. Políticos são assim mesmo: prometem coisas. Dilma prometeu entregar 3,5 milhões de casas até 2014 (um milhão dessa promessa é herança do antecessor), por exemplo. Não chegará a 20% disso. O resto varia da chantagem à mentira. Quer dizer que um outro prefeito encontraria dificuldades com o governo federal? Essa é a chantagem. Agora a mentira: foi o Congresso que prorrogou a Zona Franca de Manaus, não a parceria entre um governador e um senador. Ainda que tivesse sido: se Virgílio for eleito, a parceria vai se romper? Por quê?

Leiam reportagem de Thaís Arbex, da VEJA.com, sobre as ações de Dilma em favor de petistas e aliados.
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A presidente Dilma Rousseff mudou de ideia. Exatamente um mês depois de pedir ao ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva que avisasse à direção do PT que sua participação nas eleições deste ano seria mínima, Dilma começa a refazer a agenda, abrindo espaço para subir no palanque de candidatos petistas a prefeito pelo país. O objetivo: socorrer o PT do pífio desempenho nas capitais – hoje, o partido só tem posição confortável em Goiânia (GO). Em São Paulo, Dilma deve participar, ao lado de Lula, do último comício de Fernando Haddad, no dia 29.

A antiga desculpa de que não participaria tão intensamente da eleição para preservar a relação com a base aliada do governo no Congresso caiu por terra. Só nesta semana, Dilma avisou às campanhas de Nelson Pelegrino (PT), em Salvador, e de Patrus Ananias (PT), em Belo Horizonte, que deve participar de atos nas cidades nos próximos dias. E, na última terça-feira, em depoimento de 30 segundos, a presidente pediu votos na TV para a senadora Vanessa Grazziotin (PC do B), candidata à prefeitura de Manaus (AM). No dia seguinte, Lula subiu no palanque da aliada na capital amazonense. A ofensiva parece ter surtido efeito: pesquisa divulgada nesta quinta-feira mostra que Vanessa subiu dez pontos nas pesquisas de intenção de votos, empatando com o ex-senador Arthur Virgílio (PSDB).

“Vanessa na prefeitura é a certeza da consolidação da parceria que firmamos com o governador Omar (Aziz) e com o senador Eduardo (Braga), que já significou, entre outras coisas, a decisão de prorrogar por mais 50 anos a Zona Franca de Manaus. Vanessa na prefeitura é mais crescimento econômico e mais igualdade para todos”, disse Dilma na televisão.

Embora na capital amazonense, outros três candidatos – Serafim Corrêa (PSB), José Henrique Oliveira (PR) e Raimundo Maues (PTB) – sejam de partidos que apoiam seu governo no Congresso Nacional, Dilma decidiu pedir votos na televisão apenas para Vanessa.

Embate mineiro
A presidente analisa a possibilidade de desembarcar em Belo Horizonte neste sábado, mas sua viagem no domingo para os Estados Unidos, onde participará da Assembleia Geral da ONU, pode adiar o socorro a Patrus Ananias (PT) em uma semana. De acordo com a última pesquisa Datafolha, Márcio Lacerda (PSB), com 46% das intenções de votos, tem vantagem de 18 pontos em relação ao candidato petista, que corre o risco de perder a eleição no primeiro turno.

Principal cabo eleitoral do prefeito Marcio Lacerda, o senador Aécio Neves (PSDB) afirmou na última terça-feira que a presidente Dilma Rousseff “faz maldade com Minas Gerais”. A declaração do tucano, feita durante entrevista em um ato da campanha do prefeito, foi uma crítica ao veto da presidente ao aumento dos royalties da mineração.

Dilma estabeleceu como prioridade eleger o petista Patrus Ananias prefeito da capital mineira, terra de Aécio Neves, provável candidato tucano à presidência em 2014. A operação que, pode terminar no grande fiasco de Dilma, resultou no lançamento da candidatura de Patrus articulada pelo Palácio do Planalto.

Traição
Em Salvador, a liderança do deputado ACM Neto (DEM) na disputa pela prefeitura fez o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva colocar a cidade em sua lista de prioridades deste ano. Lá, o candidato do PT, Nelson Pelegrino, está em segundo lugar nas pesquisas de intenção de voto.

Dilma tomou a decisão de desembarcar na capital baiana ainda no primeiro turno depois de o PMDB do ex-ministro Geddel Vieira Lima, que é oposição ao PT na Bahia, disparar que estava sendo “traído” pela presidente. Na segunda-feira, ela foi a estrela do programa eleitoral na televisão do candidato petista.

Logo que souberam da estreia de Dilma na campanha de Salvador, os líderes do PMDB baiano começaram a sinalizar ao DEM que apoiarão a candidatura de ACM Neto – que lidera as pesquisas – no segundo turno, caso o candidato da legenda, o ex-prefeito Mário Kestéz, que não saiu de um dígito nas pesquisas de intenções de voto, não passe do primeiro turno.

Veto a ministros - Há um mês, a expectativa mais realista do PT era a de que a presidente esperasse o segundo turno para entrar nas campanhas. A quem perguntava, ela repetia o discurso de a melhor forma de contribuir com o partido era “continuar governando bem o Brasil”.

No início de julho, a poucos dias da largada oficial da eleição, Dilma chegou a dizer a alguns ministros que não tinha a menor intenção de participar da campanha. Na mesma época, a presidente orientou sua equipe ministerial a somente participar das campanhas eleitorais fora do horário de trabalho.

“Nós temos uma orientação muito clara da presidente. Fora do horário do expediente, cada um exerça sua militância, que não comprometa as atividades dos ministérios. Isto vale para os ministros de todos os partidos”, disse a ministra da Secretaria de Relações Institucionais, Ideli Salvatti, no dia 3 de julho.

Em agosto, na véspera da estreia do horário eleitoral no rádio e televisão, Dilma lembrou os ministros que nenhum deles poderia recorrer a “agendas casadas”, em que aproveitam atos oficiais no fim de semana, com viagens em aviões da Força Aérea Brasileira (FAB), para depois subir em palanques.

Embora tenha proibido seus ministros de fazer campanha nas capitais em que partidos de grande porte da base estivessem na disputa, Dilma abriu a primeira exceção quando pediu que o ministro Fernando Pimentel entrasse de cabeça na eleição mineira. Pimentel é uma das peças-chaves da campanha de Patrus na disputa pela prefeitura de Belo Horizonte.

A exceção foi sacramentada como regra há dez dias, quando a presidente Dilma Rousseff indicou a senadora Marta Suplicy para o Ministério da Cultura em troca de seu apoio à campanha de Fernando Haddad, em São Paulo.  No topo da lista de mais requisitados por petistas de todo o país está o ministro da Saúde, Alexandre Padilha. Nesta sexta-feira, ele desembarca em Recife para tentar tirar o senador Humberto Costa do apuro e participar de uma plenária de militantes. De acordo com a última pesquisa Datafolha, Geraldo Julio, do PSB, tem 34% das intenções de votos contra 23% do petista.

No sábado, é a vez de a ministra Eleonora Menicucci, da Secretaria de Políticas para Mulheres, amparar o candidato Humberto Costa na capital pernambucana. Ela fará uma caminhada ao lado do petista na comunidade Nova Descoberta. Por enquanto, a presidente Dilma Rousseff não mostra disposição em participar ativamente da campanha em Recife. Ela quer evitar confronto com o governador Eduardo Campos (PSB), que ainda não decidiu se quer alçar voo solo ou apoiar a reeleição de Dilma em 2014. 

O embate com Campos ficará a cargo de Lula, que prometeu ir à capital pernambucana no dia 26 deste mês, dez dias depois de o ex-presidente receber o governador em São Paulo para selar a paz. A relação entre os dois ficou estremecida depois que ele rompeu a aliança com os petistas e lançou candidato próprio à prefeitura da capital. No último domingo, Campos participou de um almoço na capital paulista em apoio à candidatura de Fernando Haddad e gravou uma mensagem para o programa de TV do petista. 

Por Reinaldo Azevedo

 

A nota de Dilma ao “senhor ministro Joaquim Barbosa” é mais desaforada do que parece. Mais um mau passo dado pela presidente. Ou: Tática de intimidação da Justiça

senhora Dilma Rousseff é a presidente da República em 2012. A senhora Dilma Rousseff não era presidente da República quando prestou um depoimento em 2009, no curso do processo do mensalão. A senhora Dilma Rousseff conseguiu plasmar a imagem de que sabe distinguir as coisas de estado das coisas de partido, embora eu considere exagerada essa sua fama — e já digo por quê. A senhora Dilma Rousseff não tem de bater boca, ainda que segundo o sotaque da burocracia, com um ministro do Supremo. A senhora Dilma Rousseff anda se descuidando — e nem está ainda disputando a reeleição. Leiam o que informa a Folha Online. Volto em seguida.

A presidente Dilma Rousseff divulgou nota nesta sexta-feira (21) em que responde à menção feita pelo relator do julgamento mensalão, Joaquim Barbosa, sobre depoimento dado por ela durante o processo. Ontem, durante sessão do julgamento em que analisava a prática de corrupção passiva por integrantes da base do governo Lula, Barbosa usou depoimento de Dilma como indício de que os acusados de fato receberam dinheiro em troca de apoio político. O ministro citou o fato de Dilma, em depoimento judicial dado em 2009, quando era ministra-chefe da Casa Civil, ter relatado “surpresa” com a aprovação, em 2003, de medidas provisórias que criavam um marco regulatório para o setor de energia. Na época da aprovação, Dilma era ministra de Minas e Energia. A medida provisória do marco regulatório levou três meses para ser aprovada na Câmara.

Na nota de hoje, Dilma buscou explicar o uso do termo “surpresa”. Segundo ela, a surpresa não foi com a aprovação das medidas provisórias, mas pelo fato de as medidas terem sido aprovadas rapidamente, e com o apoio de parlamentares da oposição.
(…)

Segue íntegra da nota. Retomo depois. Os negritos são de responsabilidade deste escriba:

“Na leitura de relatório, na sessão de ontem do Supremo Tribunal Federal, o senhor ministro Joaquim Barbosa se referiu a depoimento que fiz à Justiça, em outubro de 2009. Creio ser necessário alguns esclarecimentos que eliminem qualquer sombra de dúvidas acerca das minhas declarações, dentro dos princípios do absoluto respeito que marcam as relações entre os Poderes Executivo e Judiciário.

Entre junho de 2001 e fevereiro de 2002, o Brasil atravessou uma histórica crise na geração e transmissão de energia elétrica, conhecida como “apagão”.

Em dezembro de 2003, o presidente Lula enviou ao Congresso as Medidas Provisórias 144 e 145, criando um marco regulatório para o setor de energia, com o objetivo de garantir segurança do abastecimento de energia elétrica e modicidade tarifária. Estas MPs foram votadas e aprovadas na Câmara dos Deputados, onde receberam 797 emendas, sendo 128 acatadas pelos relatores, deputados Fernando Ferro e Salvador Zimbaldi.

No Senado, as MPs foram aprovadas em março, sendo que o relator, senador Delcídio Amaral, construiu um histórico acordo entre os líderes de partidos, inclusive os da oposição. Por este acordo, o Marco Regulatório do setor de Energia Elétrica foi aprovado pelo Senado em votação simbólica, com apoio dos líderes de todos os partidos da Casa.

Na sessão do STF, o senhor ministro Joaquim Barbosa destacou a ‘surpresa’ que manifestei no meu depoimento judicial com a agilidade do processo legislativo sobre as MPs. Surpresa, conforme afirmei no depoimento de 2009 e repito hoje, por termos conseguido uma rápida aprovação por parte de todas as forças políticas que compreenderam a gravidade do tema. Como disse no meu depoimento, em função do funcionamento equivocado do setor até então, “ou se reformava ou o setor quebrava. E quando se está em situações limites como esta, as coisas ficam muito urgentes e claras”.

Dilma Rousseff
Presidenta da República Federativa do Brasil”

Voltei
Em primeiro lugar, existe a linguagem própria ao decoro, que marca as relações entre os Poderes Executivo e Judiciário. Não se trata de frescura, mas de baliza. Fora deles, tudo passa a ser possível. Quando alguém decide quebrar as regras do decoro, está querendo dizer alguma coisa. Eu posso chamar a presidente de “senhora Dilma Rousseff” porque eu não sou representante de Poder nenhum. Sou só um jornalista. Ao se referir a um ministro do Supremo, a senhora Dilma, a dona Dilma, a Dilma simplesmente, tem de recorrer ao tratamento adequado: “Sua excelência o ministro Joaquim Barbosa” ou o “excelentíssimo ministro Joaquim Barbosa”.

Se Dilma for chamada a saudar o Congresso, como irá se referir aos respectivos presidentes das duas Casas ou mesmo aos demais parlamentares? “Senhor José Sarney? Senhor Marco Maia?” Por que Joaquim Barbosa é “senhor”, não “excelência”, dona Dilma?

O ministro Joaquim Barbosa referiu-se à fala de uma depoente e deu a sua interpretação do caso. Dilma não pode, como presidente da República, dizer qual é a “leitura correta” daqueles episódios, mormente se usa uma nota oficial para, adicionalmente, fazer proselitismo contra o governo que antecedeu o dos petistas. “Mas ela falou como cidadã e depoente, Reinaldo!” Errado! É ela quem se refere às “relações entre os Poderes”. Quando Barbosa evocou o seu testemunho, não estava chamando às falas um “Poder da República”. Há no trecho a clara sugestão de que Barbosa faltou, então, com o devido “respeito”. Talvez isso explique o “senhor Joaquim Barbosa”, em vez do “excelentíssimo ministro Joaquim Barbosa”.

A nota é despropositada. Se a citação de Barbosa é descabida, a Corte conta com nove outros ministros para considerá-la no contexto que seria, então, devido. Ademais, se a presidente Dilma, hoje representante máxima de um Poder, pretende esclarecer o sentido de uma fala da então ministra Dilma, sem se descuidar do proselitismo partidário, que passe a tarefa ao PT ou a seus líderes na Câmara e no Senado.

Observo que esse episódio se segue a dois outros, não menos absurdos: uma nota da Executiva do PT e outra assinada por seis partidos. As duas pretendem inserir o julgamento do mensalão numa espécie de conspiração dos maus contra os bons.

O conjunto dos fatos caracteriza, claramente, uma tática de intimidação da Justiça.

Por Reinaldo Azevedo

 

Achacadores da esperança, demagogos da miséria, cafetões da pobreza! Ou: Lá está Suplicy tirando uma casquinha eleitoral da infelicidade alheia!

Eu vou lhes contar uma história escabrosa.

Espalhem este texto. Debatam-no nas redes sociais. O tema diz respeito a todas as capitais brasileiras e a várias outras cidades médias e grandes.

Os pobres brasileiros viraram massa de manobra de pilantras, de vigaristas, de achacadores da esperança, de cafetões da pobreza, de demagogos da miséria, que farejam as tragédias como os urubus, a carniça. O caso que vou relatar abaixo aconteceu em São Paulo, mas é assim em toda parte, e os leitores do Brasil inteiro — e muitos que há América Latina afora — saberão do que falo. Há uma ocupação irregular em São Paulo chamada “favela do Moinho”. Fica localizada, como vocês podem ver abaixo, entre duas linhas de trem, que passam a menos de meio metro de muitas casas. Crianças se espalham pelos trilhos, e a tragédia as espreita — quando, então, aqueles pulhas correrão para encharcar com suas lágrimas asquerosas as vítimas de sua demagogia. Há laudos demonstrando que o solo está contaminado. Sobre um dos lados do quase trapézio (à esquerda), como vocês podem ver abaixo, há um viaduto. Há barracos embaixo dele. Volto em seguida.

 

Essa imagem localiza o incêndio do ano passado. No começo desta semana, um rapaz brigou com o seu namorado e teve uma ideia: usou um botijão de gás como maçarico e matou seu companheiro estável. Provocou um incêndio. Justamente embaixo do viaduto. Pelo menos oitenta barracos foram destruídos. As linhas de trem ficaram interditadas por um bom tempo. O elevado teve de ser fechado. Placas de concreto, que se despregaram com o calor, ameaçam desabar.

Quando secretário de Subprefeituras, Andrea Matarazzo tentou remover a favela do local. É evidente que ela não pode ficar ali em razão do risco que representa à segurança dos moradores. Seja pelas linhas do trem, seja pelo solo contaminado, seja pela qualidade das moradias, o risco é permanente. Não se tratava de dar um pé no traseiro dos moradores e pronto! A Prefeitura se dispôs, inclusive, a pagar aluguel para os que se cadastrassem. Tudo inútil. Armou-se um grande salseiro. Já escrevi dois textos a respeito.

Os supostos “amigos do povo” entraram em ação, acusando a iniciativa da Prefeitura de “higienista” — os mesmos que também tentaram impedir que o estado de direito chegasse à região conhecida como Cracolândia. O padre Júlio Lancelotti, cujo Deus tem coloração partidária (é do PT!), protestou. Na PUC-SP, formou-se um núcleo de defesa dos moradores do Moinho, como se a intenção da Prefeitura fosse atacá-los. O deputado Paulo Teixeira (PT-SP), claro!, se mobilizou. E o senador Eduardo Suplicy (PT), como sempre, foi lá oferecer a sua solidariedade e, por que não?, falar sobre o renda mínima…

Em busca de um cadáver
Muito bem! Na noite de ontem, com as placas de concreto se desprendendo do viaduto, a Prefeitura fez o óbvio: isolou a área e impediu que novos barracos fossem construídos embaixo dele antes que se faça o devido reparo. Um “líder comunitário”, formado na engenharia da vida — se Lula tem 7.867 títulos de doutor honoris causa, por que não? —, achou que a área isolada era muito grande, entenderam? E mobilizou moradores para impedir o trabalho da Guarda Municipal — que passou a ser hostilizada.

Leiam os textos que saíram nos portais da imprensa paulistana, obsessivamente antitucana, obsessivamente anti-Kassab. Podem ser “anti-o-que-bem-lhes-der-na-telha”, ora essa! Mas e os fatos? Quando só depoimentos contra a Guarda Municipal são colhidos, há algo de errado na narrativa. Imaginem se a Prefeitura permite que novos barracos sejam construídos antes dos reparos e se uma placa de concreto cai na cabeça de moradores, o que pode ser morte certa! O mundo vem abaixo. Mas pergunto: não é justamente cadáveres o que querem esses “amigos do povo”?

A guarda começou a ser atacada. Foi preciso pedir o auxílio da PM. Foram usadas balas de borracha “contra o povo”, como diz o PT. Os companheiros acham que esse recurso é válido quando empregado pelas polícias e guardas sob o comando dos governantes de seu partido ou da base aliada. Já demonstrei como casos de cegueira em razão do mau uso desse expediente cegaram pessoas em estados governados pelo PT. Procurem no arquivo.

Mas o melhor vem agora. Mal o confronto havia começado, a favela do Moinho se encheu de políticos. Foram pra lá a candidata do PPS à Prefeitura, Sônia Francine, o deputado Paulo Teixeira (PT-SP), o deputado Adriano Diogo (PT-SP) e, ora vejam, o senador Eduardo Suplicy (PT-SP). A cena não poderia estar completa sem a presença do padre Júlio Lancelotti, o que sempre cai de joelhos diante de um homem humilde.

Incrível! Toda essa gente estava sem agenda, à espera, pelo visto, de um “conflito social” para ir prestar a sua solidariedade. Pergunto-me: onde andavam esses patriotas, esses amigos do povo, durante a gestão de Marta Suplicy (2001-2004). Também havia incêndio em favelas naquele tempo. Aliás, muito mais do que hoje em dia. Os números são estes:
2001 – 224
2002 – 169
2003 – 200
2004 – 185

A partir de 2005 — são dados oficiais —, caíram espantosamente as ocorrências:
Gestão Serra
2005 – 151
2006 – 156
Gestão Kassab
2007 – 120
2008 – 130
2009 – 129
2010 – 31
2011 – 79
2012 – 69

O que eu estou sugerindo? Que o fogo gosta do PT? Ainda se fosse o contrário… Não! Trabalhos de urbanização de favelas e de regularização das instalações elétricas respondem pela diminuição de ocorrências — tudo devidamente ignorado pelo noticiário.

O que faziam os petistas ontem à noite na favela do Moinho? O mesmo que faziam horas depois do incêndio, enquanto os bombeiros ainda realizavam o trabalho de rescaldo: campanha eleitoral em cima da desgraça alheia. Os barracos destruídos ainda soltavam seus fumos, e uma equipe de TV de Fernando Haddad já estava lá, filmando tudo, na certeza de que aquilo rende votos.

Há, pois, nisso um norte ético, moral mesmo: se as desgraças rendem votos ao PT, infere-se que os terá tanto mais quanto maiores elas forem. Seus partidários estavam lá, provavelmente, para acelerar a história.

Não! O partido não age assim só em São Paulo. Age assim onde quer que seja oposição. Quando, então, chega ao governo, aí usa com gosto as balas de borracha e o gás pimenta. Em nome da classe trabalhadora, do futuro e dos amanhãs que cantam!

Esse é o país dos petralhas que assombra o país dos decentes, ricos ou pobres.

Texto originalmente publicado às 3h39

Por Reinaldo Azevedo

 

Petistas veem números do Datafolha como uma conspiração!

Lula — que, segundo Marta, é Deus — decidiu ontem pôr em dúvida os números do Datafolha para a Prefeitura de São Paulo, que apontam Celso Russomanno (PRB) com 35%; José Serra (PSDB) com 21% e Fernando Haddad (PT) com 15%. Embora de modo mais discreto, com o seu jeito que nunca suja o shortinho (outros fazem isso em seu lugar), Haddad fez o mesmo. É evidente que candidatos e partidários de candidaturas não gostam quando os números e as análises dizem o que eles não querem ouvir. Ocorre que Lula deixa no ar a suspeita de que existe uma conspiração.

O coordenador da campanha do candidato petista não economizou. Afirmou mesmo haver uma tramoia, segundo informa a Folha. Leiam trecho:
Coordenador da campanha de Fernando Haddad (PT) à prefeitura, o vereador Antonio Donato pôs em dúvida resultados recentes de pesquisas, criticando a Folha. A entrevista de Donato, reproduzida ontem pela página do diretório municipal do PT, foi publicada por um blog na noite de anteontem, antes da divulgação do último Datafolha, que indica José Serra (PSDB) em segundo, à frente de Haddad — 21% a 15% das intenções de voto.

Donato disse que Haddad está à frente de Serra (18% contra 16%) no tracking (sondagem telefônica para monitorar curvas de desempenho das candidaturas) feito pela campanha petista. Para ele, os institutos de pesquisa evitam mostrar este cenário. “Se acusarem a ultrapassagem, a campanha do Serra termina”, disse. “Acredito que vão empurrar ao máximo com a barriga a divulgação dessa ultrapassagem (…). Enquanto estiver na margem de erro, eles não vão noticiar (…). O Datafolha, como o próprio nome diz, é da Folha.”

Voltei
Huuummm… Vocês encontram na rede os textos analíticos publicados pela Folha, assinados, diga-se, pelos diretores do Datafolha. Em todos eles, sempre esteve presente a perspectiva de ascensão de Haddad, especialmente quando se tornasse mais conhecido e ficasse claro que era o candidato do PT — e isso, hoje, creio, está claríssimo já.

O petista se arrastava ainda ali pelos 3%, 4%, e lá vinha a antevisão: “Quando ficar claro que é o candidato do PT, de Lula, de Dilma…”. E não só na Folha. Sempre foi essa a leitura dos “especialistas” do Estadão, por exemplo, jornal em que a “novidade Haddad” chegou a ser tratada quase como uma categoria de pensamento por alguns analistas.

A verdade é bem outra. Haddad é o candidato mais poupado, na média, pela imprensa. Passou por dezenas de entrevistas sem que jornalistas tenham se dignado a inquiri-lo com seriedade, por exemplo, sobre o kit gay ou sobre a herança que deixou nas universidades federais. Se a sua experiência administrativa é o Ministério da Educação, é obrigatório confrontar sua retórica com a sua obra.

Mas quê… Indagá-lo sobre o kit gay seria coisa de “reacionários”. Não sei se ele vai ou não para o segundo turno. Até agora, protegê-lo de si mesmo não tem dado muito resultado. O debate esclarecido que a imprensa não quis fazer acabou se transformando no debate obscurantista, feito pelos obreiros visitadores de Russomanno.

Texto originalmente publicado às 5h51

Por Reinaldo Azevedo

 

Lewandowski, a lavagem de dinheiro, o que diz a lei, o “bis in idem”, o razoável e o despropositado

Este blog fez, quero crer, o bom debate sobre os tais atos de ofício e se a corrupção passiva  — e o mesmo debate se dará no caso da corrupção ativa — só se caracterizaria mediante o efetivo ato — ou a sua não-efetivação no caso de o servidor deixar de cumprir uma obrigação em razão de um benefício recebido. A questão nem estava ainda colocada pelos ministros, e tratávamos aqui do caso — e também nos debates da VEJA.com. Demonstrei precocemente como os advogados de defesa distorciam (pode até ser de sua função; a minha é provar que está errado no caso de estar…) a literalidade da lei. Se um funcionário público pode praticar corrupção passiva antes mesmo de assumir o cargo, que sentido fazia afirmar que, sem a comprovação do ato, não poderia haver condenação? Ora…

Também tratei do assunto em relação aos votos dos parlamentares. Com satisfação, ouvi  ministros do Supremo a dizer o que me parecia óbvio: basta ao parlamentar que recebeu um dinheiro ilegal a perspectiva do voto. Se ele cumpriu ou não o prometido, aí estamos cuidando é do agravante. Apanhei um tantinho de muitos advogados, que me perguntavam onde eu havia estudado direito. Não estudei. Mas sei ler.

Lavagem de dinheiro
Volto a uma outra questão sobre a qual escrevi um pouco ontem: a lavagem de dinheiro. Querem alguns, e Lewandowski vai nessa direção, que a ocultação do dinheiro oriundo da corrupção é característica inerente ao crime. A punição, pois, por lavagem de dinheiro seria o que se chama em direito “bis in idem” (literalmente, “dois no mesmo” — ou duas punições pelo mesmo delito.

Pra começo de conversa, deixo claro que não foi a eventual questão técnica do voto de Lewandowski que me incomodou ontem, mas outra coisa, absolutamente distinta, da qual trato daqui a pouco. Volto à questão da lavagem, que só é possível na hipótese de haver um crime antecedente, dele derivando os recursos “lavados”. Há leis que tratam do assunto. A mais recente é a 12.683, de 2012. Os mensaleiros não podem ser julgados por ela porque seus crimes são anteriores. Os ministros tem de julgá-los segundo a Lei 9.613, que é de 1998.

O “achar” é livre. O “interpretar” tem objeto. Meu interpretar tem um objeto, que é o Artigo 1º da lei que estava em vigência quando aqueles crimes foram cometidos, a saber (em azul):
Art. 1º Ocultar ou dissimular a natureza, origem, localização, disposição,movimentação ou propriedade de bens, direitos ou valores provenientes, direta ou indiretamente, de crime:
I – de tráfico ilícito de substâncias entorpecentes ou drogas afins;
II – de terrorismo;
II – de terrorismo e seu financiamento; (Redação dada pela Lei nº 10.701, de 9.7.2003)
III – de contrabando ou tráfico de armas, munições ou material destinado à sua produção;
IV – de extorsão mediante sequestro;
V – contra a Administração Pública, inclusive a exigência, para si ou para outrem, direta ou indiretamente, de qualquer vantagem, como condição ou preço para a prática ou omissão de atos administrativos;
VI – contra o sistema financeiro nacional;
VII – praticado por organização criminosa.
(…)

ATENÇÃO! Não é preciso, deixa claríssimo o Artigo 1º, dar uma aparência legal ao dinheiro, que é uma das modalidades da lavagem, só especificada  no Parágrafo 1º. Aliás, a nova redação da lei tornou mais severa a persecução à lavagem porque eliminou a lista de “crimes antecedentes”. Lava dinheiro qualquer um que faça aquelas coisas com dinheiro decorrente de “infração penal”. Sempre digo tudo o que a lógica me ilumina. Acho o texto, inclusive, estranho e largo demais. Um ladrão que bate uma carteira e dissimula a natureza ou a origem de um bem dando um presente para a sua santa mãezinha lavou dinheiro? Bater carteira, afinal, é uma “infração penal”, certo?

João Paulo foi condenado por seis ministros por lavagem de dinheiro por causa da “dissimulação da natureza” do dinheiro. Sua mulher foi à agência sacar o dinheiro, é verdade! Mas estava lá para pegar uma grana que, pra todos os feitos documentais, a SMP&B sacava da conta da própria SMP&B.

É razoável, mas não concordo
Posso até entender a linha de argumentação de Lewandowski e Rosa Weber e por que acreditam que estamos diante de um caso de “bis in idem”, mas não concordo. E não é por uma questão de gosto. Não concordo porque é uma questão de lei. Se não é boa, o texto tem de mudar (inclusive o atual).

No que concerne ao sentido das palavras, estamos diante de mais um mito (semelhante àquele do ato de ofício): dar uma aparência legal ao dinheiro ilegal é um capítulo da lei, não é uma síntese da lei.

A argumentação absurda de Lewandowski
Se Lewandowski tivesse ficado na tese do “bis in idem”, eu não teria pegado no pé dele, como não peguei no de Rosa Weber ou Cezar Peluso, que inocentou João Paulo. O que é constrangedor no voto do ministro,aí sim, é a afirmação de que os réus não tinham como saber da origem ilícita do dinheiro.

Chamo isso de afronta ao bom senso, que não é um crime previsto no Código Penal, mas é o fundamento filosófico do direito. Então aqueles patriotas todos recorriam aos mais variados ardis para receber pacotes e até malas de dinheiro, mas não tinham como suspeitar de sua ilegalidade? Ora…

Segundo a lei — não segundo o Reinaldo —, quem “ocultou ou dissimulou” a origem de um bem cometeu crime de lavagem. “Ah, mas como ele ia saber que aquele dinheiro tinha origem ilícita?” Ainda que a pergunta fosse certa, seria absurda. Não soubesse, por que todo aquela lambança?

É claro que rende um bom debate. Tanto é assim que o tribunal se dividiu.

Texto originalmente publicado às 4h44

Por Reinaldo Azevedo

 

Obama é obrigado a cair na real e admitir que ato na Líbia foi atentado terrorista. Ou: O Ocidente sob a sharia

O presidente dos EUA, Barack Obama, fez o diabo para tentar esconder um fato óbvio: a ação que matou o embaixador americano na Líbia, Christopher Stevens, foi um atentado terrorista. Até ontem, o governo americano endossava a cascata inverossímil, inventada pelo governo de bandoleiros líbios, segundo a qual tudo não passara de uma reação da população ao tal filme que “ridiculariza Maomé”, como tem escrito a imprensa ocidental, inclusive a nossa, já aderindo a teses que, em última instância, justificam os ditos protestos no mundo muçulmano.

Obama tentava esconder o caráter terrorista da ação porque assim omitia a responsabilidade óbvia que a Casa Branca tem por aquele governo. Foi a Otan que entregou o poder àquela gente, em nome, como é mesmo?, “da democracia”. Primeiro os aviões cuspiam bombas — contrariando resolução da ONU; depois os fundamentalistas e jihadistas avançavam por terra. Presos com vida, Kadafi e um filho seu foram seviciados e mortos, num espetáculo grotesco. Olho por olho, dente por dente. Democracia… Sobraram evidências de que os “libertadores de Benghazi” avançavam praticando massacres e chacinas. Era a força irresistível da “Primavera”.

A suposição de que qualquer coisa que viesse depois das ditaduras seria necessariamente melhor era, obviamente, falsa. É preciso saber quais são os valores e o projeto de quem quer derrubar o tirano, não é mesmo? Há um milagre que a história política ainda não fez: democracias sem democratas. Eles existem? Estão onde?

Ainda voltarei ao tema para tratar do tal filme e da charge. O espantoso, na imprensa ocidental, é perceber que o paradigma Ban Ki-moon está ganhando adeptos. Segundo este notável delinquente intelectual que é secretário-geral da ONU, “a liberdade de expressão, um direito fundamental e um privilégio, não pode ser usada abusivamente”. Abuso, pois, deve ser tudo aquilo que a rua muçulmana considere… “abuso”.

Ban Ki-moon está nos convidando a viver sob as leis da sharia. Já que parece impossível convencer os fiéis de Maomé de que, no Ocidente, é um direito queimar livros santos e bandeiras, então é melhor a gente se submeter à sua incapacidade de entender o exercício da liberdade. Não podendo vencer a estupidez, subordine-se a ela!

O grande Ban Ki-moon nos ensina que a liberdade de expressão é um “privilégio” que não se deve exercer para não ofender os muçulmanos. Ou…

Por Reinaldo Azevedo

 

O debate desta quinta na VEJA.com

Por Reinaldo Azevedo

 

PT constrange partidos aliados a assinar nota de apelo golpista em favor de Lula e contra a imprensa, contra o STF e contra os fatos!

Circula por aí uma nota de espírito golpista — contra os fatos, contra a imprensa, contra o STF e, pois, contra a democracia — assinada por presidentes de seis partidos políticos. O líder, claro, é Rui Falcão, chefão do PT.  Leiam o texto. Volto em seguida.

À SOCIEDADE BRASILEIRA

O PT, PSB, PMDB, PCdoB, PDT e PRB, representados pelos seus presidentes nacionais, repudiam de forma veemente a ação de dirigentes do PSDB, DEM e PPS que, em nota, tentaram comprometer a honra e a dignidade do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Valendo-se de fantasiosa matéria veiculada pela Revista Veja, pretendem transformar em verdade o amontoado de invencionices colecionado a partir de fontes sem identificação.
As forças conservadoras revelam-se dispostas a qualquer aventura. Não hesitam em recorrer a práticas golpistas, à calúnia e à difamação, à denúncia sem prova.
O gesto é fruto do desespero diante das derrotas seguidamente infligidas a eles pelo eleitorado brasileiro. Impotentes, tentam fazer política à margem do processo eleitoral, base e fundamento da democracia representativa, que não hesitam em golpear sempre que seus interesses são contrariados.
Assim foi em 1954, quando inventaram um “mar de lama” para afastar Getúlio Vargas. Assim foi em 1964, quando derrubaram Jango para levar o País a 21 anos de ditadura. O que querem agora é barrar e reverter o processo de mudanças iniciado por Lula, que colocou o Brasil na rota do desenvolvimento com distribuição de renda, incorporando à cidadania milhões de brasileiros marginalizados, e buscou inserção soberana na cena global, após anos de submissão a interesses externos.
Os partidos da oposição tentam apenas confundir a opinião pública. Quando pressionam a mais alta Corte do País, o STF, estão preocupados em fazer da ação penal 470 um julgamento político, para golpear a democracia e reverter as conquistas que marcaram a gestão do presidente Lula .
A mesquinharia será, mais uma vez, rejeitada pelo povo. 

Rui Falcão, PT
Eduardo Campos, PSB
Valdir Raupp, PMDB
Renato Rabelo, PCdoB
Carlos Lupi, PDT
Marcos Pereira, PRB.

Brasília, 20 de setembro de 2012.

Voltei
Vamos ver. A maioria dos presidentes de partido foi constrangida a assinar a nota. Quem os mobilizou falou pessoalmente em nome de Lula. Ficou claro que era um favor de caráter pessoal.

Quanto ao mérito, dizer o quê? “Fantasiosas” são as convicções democráticas dos que promoveram essa peça patética — mais um desdobramento da loucura que vai tomando conta de Lula.

Golpista é roubar dinheiro do Banco do Brasil para financiar um projeto de poder. Golpista é tentar montar um Congresso paralelo, sustentado por uma propinoduto. Golpista é tentar intimidar o Supremo. Golpista é tentar calar a imprensa livre.

Golpismo, no entanto, inútil. Pela maioria de suas vozes, o Supremo deixa claro que zela por sua independência. A imprensa independente, por sua vez, continuará a fazer o seu trabalho: retratar os fatos, zelar pela verdade e vigiar os Poderes da República, tendo como referência a Constituição.

Golpistas de 1954? Golpistas de 1964? Essa nota é assinada pelo PMDB, de que José Sarney, aliado dileto de Lula, é um dos capas-pretas? Seria aquele mesmo Sarney que foi estrela da UDN, que fez oposição severa a Getúlio, e que presidiu depois o PDS (partido sucedâneo da Arena) e que comandou os votos governistas na rejeição da emenda das Diretas? Trata-se de uma apreciação, também ela, fantasiosa e ridícula.

Os signatários que apenas fazem um favorzinho pessoal a Lula não se dão conta de que põem sua assinatura num documento que tenta, a um só tempo, constranger a imprensa e a Justiça. Uma tentativa, acreditem vocês e os signatários, inútil.

Por Reinaldo Azevedo

 

Ricardo Lewandowski, a lavagem de dinheiro e por que seu voto, se triunfar, passa a mão na cabeça de políticos corruptos

Ricardo Lewandowski deve absolver todo mundo do crime de lavagem de dinheiro. Segundo o ministro, para que pudesse haver lavagem de dinheiro, seria necessário que aquele que recebeu o dinheiro agisse de modo deliberado para escondê-lo. Sem isso, diz, seria punir alguém duas vezes pelo mesmo crime, o tal “bis in idem”. Diz ainda que o recebedor dos recursos teria de saber que o dinheiro tinha origem ilícita — e não haveria provas disso, diz ele.

É uma consideração que tem consequências. Boa parte dos políticos é acusada de corrupção passiva, lavagem de dinheiro e formação de quadrilha. Três condenações podem levar um réu à cadeia, mas duas não. Lewandowski deu ainda pistas de que pode inocentá-los também de formação de quadrilha.

A tese de que aqueles que recebiam dinheiro não sabiam necessariamente de sua origem ilícita é, para dizer pouco, risível. Diz que se trata de mera ilação. Ora, se o dinheiro não tinha origem ilícita, por que todas aquelas heterodoxias para sacá-lo? Tenham paciência!

Em tempo: Lewandowski condenou Pedro Correa por corrupção passiva, mas inocentou Pedro Henry. Só tratará da lavagem de dinheiro ao fim do seu voto. Seu voto, embora severo na questão da corrupção passiva — mas sempre deixando claro que está seguindo o tribunal, sugerindo que seu entendimento é outro —, se triunfante, passa a mão na cabeça dos políticos.

Por Reinaldo Azevedo

 

Fico feliz ao verificar que este blog e VEJA.com trabalharam direito em benefício do leitor

O revisor, Ricardo Lewandowski, começou a votar. Está tratando do caso de Pedro Correa, do PP, que ele condena por “corrupção passiva”. Ele coligiu os votos e opiniões dos demais ministros, que definem o que é corrupção passiva. E notou que a totalidade dos seus pares entende que basta haver A PERSPECTIVA DO ATO DE OFÍCIO para caracterizar a corrupção passiva. Ter cometido ou não o ato é agravante da pena.

Vocês sabem que tenho insistido nesse aspecto desde o primeiro dia. Tratei literalmente dessa questão no primeiro programa da VEJA.com, no dia 2 de agosto. Produziu-se muita desinformação a respeito. Bastava, no entanto, ler o Artigo 317 do Código Penal, a saber:

Art. 317 – Solicitar ou receber, para si ou para outrem, direta ou indiretamente, ainda que fora da função ou antes de assumi-la, mas em razão dela, vantagem indevida, ou aceitar promessa de tal vantagem:
Pena – reclusão, de 2 (dois) a 12 (doze) anos, e multa.
§ 1º – A pena é aumentada de um terço, se, em consequência da vantagem ou promessa, o funcionário retarda ou deixa de praticar qualquer ato de ofício ou o pratica infringindo dever funcional.
§ 2º – Se o funcionário pratica, deixa de praticar ou retarda ato de ofício, com infração de dever funcional, cedendo a pedido ou influência de outrem:
Pena – detenção, de 3 (três) meses a 1 (um) ano, ou multa.

Voltei
Ora, como se poderia sustentar que o ato efetivo seria necessário se um funcionário pode cometer corrupção passiva antes mesmo de assumir um cargo? Era uma leitura absurda.

Quem acompanhou este blog e os debates que fizemos na VEJA.com sempre esteve com a informação segura.

Por Reinaldo Azevedo

 

A síntese do voto de Joaquim Barbosa

RÉUS LIGADOS AO PP
Condenados por corrupção passiva, formação de quadrilha e lavagem de dinheiro:
Pedro Henry (MT), Pedro Corrêa, João Cláudio Genu.

Condenados por formação de quadrilha e lavagem de dinheiro:
Enivaldo Quadrado e Breno Fischberg.

RÉUS LIGADOS AO PL
Condenados por corrupção passiva, formação de quadrilha e lavagem de dinheiro:
Valdemar Costa Neto e Jacinto Lamas.

Condenado por corrupção passiva e lavagem de dinheiro
Bispo Rodrigues.

RÉUS LIGADOS AO PTB
Condenados por corrupção passiva e lavagem de dinheiro:
Roberto Jefferson, Romeu Queiroz e Emerson Palmieri.

RÉU LIGADO AO PMDB
Condenado por corrupção passiva e lavagem de dinheiro:
José Borba.

Joaquim Barbosa absolveu Antonio Lamas, irmão de Jacinto Lamas.

Por Reinaldo Azevedo

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Fonte: Blog Reinaldo Azevedo (VEJA)

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