Trump amplia proteção aos pecuaristas dos EUA, mas necessidade de carne importada abre espaço para o Brasil
O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, assinou essa semana duas ordens executivas com um pacote de medidas voltadas ao fortalecimento da pecuária norte-americana. As ações vão desde maior proteção dos rebanhos contra ataques de lobos até estímulos aos pequenos e médios frigoríficos, maior fiscalização sobre a indústria processadora e uma revisão das regras para identificação da origem da carne comercializada no país.
A análise das medidas feita por Geraldo Isoldi, da Terra Investimentos/Terra Agro Insights, chama atenção para um aparente paradoxo da política americana: ao mesmo tempo em que Washington procura proteger e estimular seus pecuaristas, precisa aumentar a disponibilidade de carne importada para enfrentar os preços elevados ao consumidor.
O pano de fundo é uma restrição importante de oferta. Segundo a Casa Branca, o rebanho bovino norte-americano está no menor nível em 75 anos, enquanto a demanda por carne bovina aumentou quase 10% na última década. Secas e incêndios também contribuíram para a redução do número de animais, pressionando os preços da carne no varejo.
Governo quer dar mais força ao pecuarista diante dos frigoríficos
Uma das principais frentes das novas medidas é aumentar as alternativas de processamento disponíveis aos produtores.
A ordem determina a expansão dos programas Cooperative Interstate Shipment e Talmadge-Aiken, com o objetivo de facilitar o processamento de carne em menor escala e ampliar a possibilidade de comercialização entre estados.
O USDA também deverá modernizar procedimentos de inspeção, reduzir exigências consideradas desnecessárias e criar mecanismos de assistência técnica para pequenos processadores. A administração prevê ainda um programa de empréstimos garantidos destinado à expansão de frigoríficos pequenos e regionais.
Outra determinação é reforçar a aplicação do Packers and Stockyards Act, legislação criada para combater práticas desleais ou anticompetitivas nos mercados de animais e carnes.
O USDA deverá priorizar investigações sobre eventuais violações, ampliar equipes e recursos e trabalhar em conjunto com o Departamento de Justiça.
Na prática, as ações procuram reduzir a concentração do processamento e aumentar o poder de negociação do produtor norte-americano, oferecendo mais alternativas para comercialização do gado.
Regra de origem da carne pode exige atenção do Brasil
Para o mercado brasileiro, porém, um dos pontos que mais merece atenção é a rotulagem de origem.
Trump determinou que o USDA, em conjunto com o Representante Comercial dos Estados Unidos (USTR), avalie as possibilidades legais para estabelecer uma identificação obrigatória do país de origem da carne bovina.
Isso não significa que a obrigatoriedade tenha sido restabelecida. A própria ordem determina uma avaliação das competências legais existentes e admite a necessidade de novas regulamentações ou recomendações legislativas. A exigência anterior para bovinos e suínos havia sido revogada pelo Congresso americano em 2015, depois de contestações comerciais de Canadá e México.
Para Geraldo Isoldi, esse é um ponto que merece acompanhamento porque a rotulagem de origem pode se transformar em um risco de médio prazo para a carne importada, dependendo dos desdobramentos no Congresso americano.
Para o Brasil, portanto, não há impacto imediato sobre as vendas, mas uma eventual regulamentação mais rígida poderá alterar a forma como a carne brasileira é identificada e posicionada diante do consumidor dos Estados Unidos.
Ao mesmo tempo, EUA precisam importar mais carne
É justamente nesse ponto que aparece a contradição mais importante para o mercado.
Poucos dias antes das ordens de apoio aos pecuaristas, Trump havia autorizado uma cota adicional temporária de 300 mil toneladas de carne bovina magra, distribuída em três parcelas mensais de 100 mil toneladas, entre setembro e novembro.
A medida reduz significativamente a tarifa dentro da cota e procura aumentar a oferta de matéria-prima utilizada principalmente na produção de carne moída.
O Brasil está entre os países elegíveis a utilizar esse volume adicional. A medida entrou em vigor em 1º de setembro e terá duração de 90 dias.
A decisão gerou reação entre pecuaristas americanos, que argumentam que aumentar as importações pode pressionar os preços recebidos pelo produtor justamente quando os Estados Unidos precisam estimular a reconstrução de seu próprio rebanho.
É justamente aí que surge uma oportunidade para a pecuária brasileira.
Brasil pode ganhar espaço no mercado americano
Os Estados Unidos precisam de carne bovina magra para complementar sua produção doméstica, especialmente para a fabricação de hambúrgueres e carne moída.
E a oferta americana continuará limitada enquanto o país atravessa seu processo de recomposição do rebanho. Assim, embora o governo Trump procure fortalecer a produção doméstica, a necessidade de importações não desaparece no curto prazo.
Esse cenário ganha relevância diante dos números recentes das exportações brasileiras. Como mostrou levantamento anterior da própria Terra Agro Insights, os Estados Unidos receberam 31,3 mil toneladas de carne bovina brasileira em agosto, aumento de 389,8% frente ao mesmo mês de 2025 e recorde para um mês de agosto.
Ou seja, o mercado norte-americano já vinha ganhando importância para o Brasil antes mesmo de a nova cota começar a produzir seus efeitos.
Lobos também entram na agenda
Outro eixo das ordens assinadas por Trump trata das perdas provocadas por predadores.
O Departamento do Interior terá 90 dias para avaliar se o lobo-cinzento e o lobo-mexicano ainda atendem aos critérios para permanecer nas atuais categorias de proteção previstas pela Endangered Species Act.
Também deverão ser revistas as regras de indenização por perdas de animais e os critérios para autorização de remoção letal de predadores quando houver ameaça ao gado ou à segurança humana.
Embora essa questão tenha pouco efeito direto sobre o Brasil, ela mostra a amplitude do pacote americano: a administração pretende atuar desde os custos e riscos dentro da propriedade até a estrutura de processamento e comercialização da carne.
Efeito das medidas não será imediato
Outro ponto destacado pela análise da Terra é que boa parte das determinações não produz efeitos imediatos.
A primeira ordem estabelece prazo de 90 dias para que USDA, Departamento do Interior, USTR, FDA e Small Business Administration apresentem avaliações sobre normas e políticas que atingem os pecuaristas e proponham medidas para melhorar sua viabilidade econômica e acesso aos mercados.
Isso significa que parte importante do pacote ainda dependerá de regulamentações, estudos e, em alguns casos, mudanças legislativas.
Para o Brasil, oportunidade agora e atenção mais adiante
Do ponto de vista da pecuária brasileira, as decisões de Trump produzem dois sinais diferentes.
No curto prazo, a oferta limitada de gado nos Estados Unidos, os preços elevados da carne e a cota adicional de 300 mil toneladas representam uma oportunidade concreta para ampliar os embarques brasileiros ao mercado americano.
No médio e longo prazos, entretanto, o fortalecimento dos pecuaristas locais, a expansão da capacidade regional de processamento, a tentativa de reconstrução do rebanho e principalmente uma eventual mudança nas regras de rotulagem de origem podem aumentar a competição enfrentada pelo produto importado.
Essa é também a leitura central apresentada por Geraldo Isoldi: as medidas são direcionais e boa parte ainda depende de regulamentação, enquanto a cota adicional de importação já está valendo. Assim, Trump tenta equilibrar duas necessidades que nem sempre caminham juntas: aliviar o preço da carne para o consumidor e, simultaneamente, criar condições para que o pecuarista americano volte a expandir sua produção.
Para o Brasil, enquanto esse equilíbrio não chega, a escassez americana continua abrindo uma janela importante para a carne bovina nacional.
* Com auxílio de IA