Clima deixa de ser exceção e passa a redesenhar a cafeicultura: Fórum da Cooxupé aponta os desafios para preservar a safra 2027
A cafeicultura brasileira convive há décadas com a influência do clima, mas os eventos registrados nos últimos anos indicam uma mudança de cenário. Geadas severas, secas prolongadas, ondas de calor, veranicos, excesso de chuvas e grandes oscilações de temperatura deixaram de ser acontecimentos isolados e passaram a ocorrer em sequência, exigindo uma nova forma de produzir café.
Mais do que discutir a possibilidade de um El Niño forte nos próximos meses, o 8º Fórum Café e Clima da Cooxupé trouxe uma reflexão sobre como a atividade precisa evoluir para enfrentar uma realidade cada vez mais instável. Ao longo do encontro, especialistas em meteorologia, fisiologia vegetal e geoprocessamento mostraram que a construção da safra começa muito antes da florada e que a capacidade da planta de suportar os estresses climáticos dependerá diretamente do manejo realizado pelo produtor.
As análises apresentadas convergem para uma mesma conclusão: o clima continuará impondo desafios, mas as perdas podem ser reduzidas quando o produtor entende como a planta responde aos diferentes tipos de estresse e utiliza informações climáticas para antecipar decisões dentro da propriedade.
Segundo o coordenador de Geoprocessamento da Cooxupé, Guilherme Vinícius Teixeira, essa mudança de comportamento tornou-se indispensável porque a única constante hoje é a própria variabilidade climática. O especialista destacou que compreender o ambiente em que a lavoura está inserida é tão importante quanto acompanhar preços ou realizar os tratos culturais tradicionais.
A explicação começa pela própria fisiologia do cafeeiro.
Embora seja uma das culturas agrícolas mais importantes do país, o café apresenta uma capacidade fotossintética relativamente baixa quando comparado a culturas como milho e soja. Isso significa que praticamente toda a energia produzida pela planta é destinada ao crescimento, formação dos frutos, desenvolvimento dos ramos e manutenção de seus tecidos. Quando surgem situações de estresse, seja por falta de água, excesso de chuvas ou temperaturas extremas, parte dessa energia deixa de ser utilizada para produzir café e passa a ser consumida pelos mecanismos naturais de defesa da planta.
É justamente esse desequilíbrio que explica boa parte das perdas observadas nas últimas safras.
Quando o solo permanece encharcado por longos períodos, por exemplo, as raízes passam a receber menos oxigênio. Como consequência, ocorre a produção de compostos que estimulam a formação do etileno, hormônio responsável pela queda de folhas, flores e frutos. O resultado aparece na lavoura em forma de desfolha, abortamento de chumbinhos e redução do potencial produtivo, muitas vezes antes mesmo de o produtor perceber visualmente os danos.
Esse comportamento ajuda a explicar por que a safra 2026 foi construída sob condições consideradas desafiadoras.
Desde o início do ciclo produtivo, ainda em agosto de 2024, o atraso na regularização das chuvas comprometeu o crescimento vegetativo das plantas. Com menos água disponível nos momentos decisivos, os cafeeiros emitiram menor número de internódios, estruturas diretamente ligadas ao potencial produtivo dos ramos.
Enquanto uma safra considerada excepcional costuma apresentar entre 15 e 16 internódios, a média observada nas áreas acompanhadas pela Cooxupé ficou entre 12 e 14, indicando que parte da capacidade produtiva foi limitada ainda nas primeiras fases de desenvolvimento da cultura.
Mesmo assim, a colheita evoluiu dentro da média histórica da cooperativa. Até a realização do fórum, aproximadamente 58,3% da área monitorada já havia sido colhida, com rendimento estimado em 507 litros de café em coco para cada saca beneficiada. O desempenho superou o registrado no ciclo anterior, fortemente impactado pelas adversidades climáticas, mas ainda refletiu os efeitos acumulados das oscilações meteorológicas ao longo do desenvolvimento da lavoura.
Se por um lado a produtividade conseguiu se manter relativamente estável, a qualidade passou a concentrar as maiores preocupações.
O excesso de umidade durante a colheita elevou o risco de fermentações indesejáveis em cafés que permaneceram por mais tempo no chão ou foram submetidos à secagem inadequada. Ao mesmo tempo, temperaturas mais amenas associadas à elevada umidade favoreceram a incidência de doenças importantes, como ferrugem, phoma e cercóspora, aumentando a necessidade de monitoramento fitossanitário nas propriedades.
Diante desse cenário, a Cooxupé também apresentou avanços em sua estrutura de monitoramento climático.
O Sistema de Monitoramento Meteorológico, conhecido como SISMET, passa por uma reformulação que permitirá ampliar significativamente a precisão das informações disponibilizadas aos cooperados. Com cerca de 100 estações meteorológicas e mais de 600 pluviômetros distribuídos na área de atuação da cooperativa, a nova plataforma deverá fornecer dados interpolados em escala de um quilômetro, permitindo que o produtor acompanhe as condições climáticas praticamente em tempo real por meio de aplicativos.
Outra novidade apresentada foi o projeto de Prognóstico de Safra, desenvolvido em parceria com instituições de pesquisa. A ferramenta pretende antecipar estimativas de produtividade e rendimento antes mesmo da etapa de beneficiamento do café, permitindo maior planejamento logístico, comercial e operacional dentro das propriedades.
Toda essa estrutura ganha importância justamente porque os modelos climáticos indicam a consolidação de um El Niño de forte intensidade durante o ciclo 2026/27.
O assunto, que tem gerado preocupação entre produtores e ampla repercussão nas redes sociais, foi abordado pelo meteorologista Marco Antônio dos Santos, sócio-fundador da Rural Clima. Segundo ele, apesar das manchetes alarmistas, não existe respaldo científico para expressões como "Godzilla dos El Niños" ou afirmações de que o evento atual seria o mais intenso dos últimos 150 anos.
O especialista explicou que os registros oficiais utilizados internacionalmente para monitorar o Oceano Pacífico começaram apenas em 1950, impossibilitando comparações precisas com períodos muito anteriores. Para ele, o excesso de informações falsas acaba desviando o foco do produtor daquilo que realmente importa: compreender os impactos prováveis do fenômeno e preparar a propriedade para enfrentá-los.
Apesar de rejeitar previsões catastróficas, Santos confirmou que o El Niño deverá apresentar intensidade forte, com aquecimento das águas superficiais do Oceano Pacífico entre 2,5°C e 3°C. Os modelos analisados mostram comportamento semelhante ao observado durante os eventos de 1997/98 e 2023/24, embora o meteorologista ressalte que nenhum episódio é exatamente igual ao outro.
Para a cafeicultura, os principais efeitos esperados incluem antecipação das chuvas entre agosto e setembro, temperaturas acima da média, noites mais quentes, maior ocorrência de ondas de calor e redução do risco de geadas severas. Ao mesmo tempo, chuvas precoces podem estimular floradas antecipadas e desuniformes, dificultando o manejo da lavoura e comprometendo a uniformidade da maturação dos frutos.
Mas o impacto do clima não depende apenas da atmosfera.
Segundo o professor José Donizeti Alves, da Universidade Federal de Lavras (UFLA), compreender o funcionamento fisiológico do cafeeiro tornou-se tão importante quanto acompanhar as previsões meteorológicas.
O pesquisador explicou que, apesar da baixa taxa fotossintética por unidade de folha, o cafeeiro consegue manter elevada capacidade produtiva graças à grande área foliar que desenvolve ao longo do ciclo. Essa característica, entretanto, transforma a preservação das folhas em um dos fatores mais importantes para garantir produtividade. Sempre que a planta sofre desfolha causada por estresses climáticos, parte importante da sua capacidade de produzir energia também é perdida.
Além do encharcamento, Alves destacou que temperaturas elevadas durante a noite representam outro fator de preocupação. Quando as mínimas permanecem acima de 20°C, a planta aumenta sua respiração durante o período noturno e consome reservas energéticas que deveriam ser utilizadas para crescimento e enchimento dos frutos. Associado à forte radiação solar e aos períodos de estiagem, esse processo favorece o estresse oxidativo, acelera o desgaste fisiológico e reduz o potencial produtivo da lavoura.
Na avaliação do pesquisador, a safra 2027 começa imediatamente após a conclusão da colheita atual.
Por isso, ele recomenda que os produtores priorizem a recuperação rápida das plantas, protegendo ferimentos provocados pela colheita ou por granizo, reforçando o controle das doenças de inverno, mantendo equilíbrio nutricional e estimulando o desenvolvimento de sistemas radiculares profundos, capazes de buscar água em camadas inferiores do solo durante períodos de estiagem.
O fortalecimento das raízes, aliado à irrigação quando disponível, ao uso criterioso de bioestimulantes, à adubação equilibrada e ao acompanhamento técnico constante, forma um conjunto de estratégias que aumenta a resiliência das lavouras diante de um ambiente climático cada vez mais imprevisível.
Ao final do Fórum, uma mensagem ficou clara entre todos os especialistas: o sucesso da cafeicultura nos próximos anos dependerá cada vez menos da expectativa de um clima ideal e cada vez mais da capacidade de adaptação do produtor. Informação climática, monitoramento das lavouras, manejo fisiológico e planejamento deixam de ser ferramentas complementares para se tornar elementos centrais na construção de safras mais produtivas, sustentáveis e resilientes diante dos novos desafios impostos pelo clima.