Volume x Qualidade: Safra 26/27 do Brasil atende demanda com tranquilidade, apesar de pressão nos preços

Publicado em 07/09/2026 09:39
Produtor já está atento ao clima para safra 27/28 e liquidez é mais contida agora

O Brasil já está com a colheita da safra 2026/27 de café praticamente concluída. No entanto, o mercado se depara com um um oceano de sacas, mas encontrando uma seca quando o assunto é qualidade. Dizer que as chuvas prejudicaram a safra já virou lugar comum. A novidade que começa a ser quantificada pelos grandes exportadores é uma escassez significativa de qualidade que vem acompanhada, infelizmente, por um volume expressivo de grãos de padrão comercial, forçando compradores a reprecificar a qualidade no mercado físico.

OS EFEITOS DO CLIMA SOBRE O GRÃO

A explicação para esse déficit é estrutural e irreversível. O engenheiro agrônomo especialista em café e consultor na cadeia da cafeicultura, Jonas Ferraresso, relata que a safra apresentava um potencial de maturação altíssimo, mas foi surpreendida por um período de 15 a 20 dias de chuvas quase ininterruptas, muitas delas fora de época e o resultado foi um dano severo na física e na xícara. 

Um destes processos foi o da maturação acelerada. Os frutos que estavam maduros passaram rapidamente para o estágio "passa" no próprio pé, perdendo os atributos sensoriais mais finos. Além disso, perdão parte dos bons padrões de cor e nível de fermentação. Muitos grãos tornaram-se "chumbados" (acinzentados) ou "ardidos" (amarronzados devido à fermentação no solo).

Neste ambiente, com chuvas sequentes e alta umidade do ar, os cafeicultores foram forçados ao uso prolongado de secadores mecânicos, que embora mitiguem perdas, prolongaram muito o tempo de processamento em comparação com os anos secos.

Embora as perdas de qualidade por este cenário tenham sido bastante agressivas, a peneira não foi tão afetada pela queda dos frutos, mas já pela formação dos frutos ainda nos pés. 

“A peneira foi afetada neste ano porque tivemos um período, durante a formação deste café, com variações de temperaturas um pouco mais altas e pequenos períodos de falta de chuva, mas não foi tão intenso. A peneira ficou um pouco baixa, mas não tão baixa quanto a da safra 2023/24, quando o calor e a temperatura foram mais intensos. Então, a média da peneira está um pouco aquém do esperado, mas não é um defeito gravíssimo como aconteceu em 23/24, quando basicamente não se encontrava cafés acima de 16, 17”, detalha Ferraresso. 

O especialista reforça ainda que o máximo potencial está no campo e que muitos produtores que tiveram, forçosamente, que mudar parte do seu manejo para mitigar os efeitos da perda, infelizmente registraram irreversíveis baixas de qualidade nesta temporada. Ainda assim, muitos cafeicultores ainda conseguiram preservar boa parte da qualidade dos seus grãos e para este o alerta também está aceso. 

“É importante que ele encontre bons pontos de comercialização deste café, pensando que na maior parte das regiões teve sua qualidade afetada, quem conseguiu uma janela melhor vai ter um café diferenciado em relação à média da maior parte das regiões. Então, esse mercado de cafés mais finos tende a aparecer e com preços melhores diante do fato de que cafés de maior qualidade serão mais raros nesta safra”, explica o agrônomo. 

O ALARGAMENTO DOS DIFERENCIAIS

E esse diferencial e o peso do estrago agronômico já são realidades nas negociações.  Márcio Ferreira, presidente do Cecafé (Conselho  dos Exportadores de Café), confirma que os episódios chuvosos elevaram o volume de café de varrição e deterioraram os padrões de bebida, o que já vinha gerando - desde as etapas finais da colheita - um "alargamento dos diferenciais", entre os preços. 

“Os cafés cerejas foram afetados, os fine cups também foram afetados. Os good cups, embora também tenham sido afetados de forma substancial, ainda há uma disponibilidade muito grande para todo o decorrer da safra. Então, teremos cafés com bebidas inferiores, com bebida rio e também cafés com maior intensidade de defeitos. E este cenário faz com que haja um alargamento entre esses diversos cafés", explica Ferreira. 

Assim, com uma oferta maior destes cafés de menor qualidade sendo maior nesta safra, há uma pressão também mais agressiva na base do mercado, em especial na Bolsa de Nova York, que precifica e reflete o atual momento. "Ou seja, maior desconto para os cafés mais fracos", diz. 

Com este quadro para o arábica, o mercado para o conilon também sente. "O conilon vem sendo também pressionado e a arbitragem tem se mantido (...) E o conilon é hoje a matéria-prima, majoritariamente, mais utilizada para o consumo interno, talvez algo próximo de 85%. E o apetite dos torradores no mercado interno continuará existindo", complementa o presidente do Cecafé. 

No entanto, ele explica ainda que os arábicas de bebida mais fraca são cafés que ainda têm prêmios sobre o conilon, mas uma vez que a arbitragem entre conilon e arábica ainda é muito larga, estes cafés também são atreladas ao conilon. Não no sentido de que valem o mesmo, mas os prêmios se mantendo distante dos melhores dada a disponibilidade maior de cafés afetados pelas condições climáticas". 

"E asseguro que o Brasil terá plenas condições de atender às demandas de fine cup, good cup, porque o tamanho da safra é expressivo. Agora, obviamente, não fossem as chuvas o volume seria maior. O Brasil não perderá market share em função deste problema, aliás, pode ganhar mais porque cafés que, eventualmente, têm uma xícara riada, também têm mercado, principalmente a depender do diferencial de preço", complementa Márcio Ferreira. 

MAS, E A LIQUIDEZ DO MERCADO?

Apesar dos prêmios atraentes para quem tem café fino, o balcão de negócios vive uma lentidão incomum para o período. Eduardo Carvalhaes, analista de mercado e diretor do Escritório Carvalhaes, explica que o produtor está segurando as vendas como uma estratégia de defesa. 

“Negócios saem todos os dias, e a tendência é de que o mercado vá se adaptando à qualidade da safra”, explica. “Por enquanto, os prêmios ainda estão muito ruins ainda. Nesta época do ano ainda estão acostumados a pagar abaixo de Nova York. Mas, temos que lembrar que boa parte dos embarques que estão sendo feitos agora foram vendidos antes", diz. 

Temendo o retorno da inflação, a volatilidade do dólar e as incertezas climáticas para a safra do ano que vem, o cafeicultor enxerga o produto estocado como uma moeda forte e um "seguro" para sua propriedade. Além disso, reforça que o mercado está muito aflito com a forte irregularidade que o clima continua mostrando. E não só no Brasil, mas também nas demais origens produtoras, como Colômbia e países produtores na América Central e Ásia. 

"Todos estão relatando problemas. Mas, no final, o mercado é sempre oferta e procura. Se eu acho que está caro no Brasil, vou buscar outras origens, mas o grande produtor mundial é o Brasil. Mesmo com perdas nesta safra, nossa safra é longe maior do que da Colômbia, América Central, ou mesmo o Vietnã, sobre o robusta", detalha o analista. 

Assim, os cafeicultores vão buscando fazer negócios ao longo de todo o ano safra, a depender de suas necessidades particulares de caixa, o que deixa as decisões de negócios também muito particulares. “Mas algo que também atrapalha muito é a situação política e econômica do Brasil neste momento. O cafeicultor que é, e sempre foi, uma pessoa tradicional conservadora no modo de mexer com o dinheiro, ele olha essa situação e sabe que tem um produto que é cotado em dólar e que tem uma liquidez enorme. Então, a tendência de alguns é ir vendendo seu café de acordo com sua necessidade de caixa, e ir fazendo suas reservas em café mesmo", traz ainda Carvalhaes. 

PREOCUPAÇÕES COM A SAFRA 2027/28

O clima e as condições que se apresentarão sobre a florada da safra 2027/28 são também um ponto de preocupação também para os cafeicultores neste momento. Algumas regiões já viram algumas floradas começarem, porém, parte das flores se perderam em função das irregularidades climáticas.

“Depois, quando é que vão chegar as chuvas agora no começo da primavera? Para a primeira florada, para a grande florada do ano. Depois, vai continuar chovendo para essas flores virarem frutos? E o calor no verão, como é que vai ser no Brasil?Nós vamos ter aqueles veranicos que derrubam uma parte dos cafés no chão no verão?”, questiona o diretor do Escritório Carvalhaes. 

Ele alerta sobre um dos grandes problemas com o tamanho de uma safra ou para que ele seja definido é a questão dos veranicos e as temperaturas que serão alcançadas para a consolidação da safra. 

“Todas essas dúvidas fazem com que o produtor resolva segurar o café. Se ele soubesse que a safra dele do ano que vem ia ser grande, ele estaria vendendo.

Estaria vendendo e fazendo caixa com esses preços que estão aí. Para mim, sempre é um grande termômetro. O produtor que está ali do lado do pé de café, que vê os vizinhos, que corre, que vai na cooperativa da região e olha os armazéns. Se ele achasse que essa safra é tão grande assim, que tem tanto café assim, ele estaria correndo para vender, o que não acontece em nenhuma das regiões produtoras de café”, conclui o especialista.

Por: Carla Mendes
Fonte: Notícias Agrícolas

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