Piscicultura brasileira supera 1 milhão de toneladas e projeta liderança global após alívio tarifário nos EUA

Publicado em 25/02/2026 09:17 e atualizado em 25/02/2026 15:22
Produção recorde, mercado externo aquecido e desafios regulatórios colocam o setor em fase decisiva.

A piscicultura brasileira atingiu um marco histórico em 2025 ao superar 1 milhão de toneladas de peixes cultivados. Foram 1.011.540 toneladas produzidas, crescimento de 4,41% sobre o ano anterior, segundo a Associação Brasileira da Piscicultura, a Peixe BR. O número consolida o Brasil entre os grandes produtores mundiais de proteína aquícola.

Esse avanço ocorre em um momento estratégico no cenário internacional. A revisão das tarifas impostas pelos Estados Unidos e a decisão da Suprema Corte dos Estados Unidos, que derrubou medidas comerciais adotadas durante o governo Donald Trump, trouxeram novo ânimo às exportações brasileiras. O mercado americano continua sendo o principal destino do pescado nacional.

Em 2025, os Estados Unidos responderam por cerca de 87% das exportações brasileiras do setor. O faturamento externo alcançou US$ 60 milhões, mesmo com leve recuo no volume embarcado. Para o produtor de pescado, isso significa que o mercado internacional segue aberto, mas exige planejamento e gestão eficiente.

Tilápia puxa o crescimento e sustenta as exportações
A tilápia permanece como carro-chefe da piscicultura nacional, representando aproximadamente 70% da produção total. Foram 707.495 toneladas em 2025, alta de 6,83%. Desde 2015, o crescimento acumulado supera 148%, demonstrando consistência no avanço da atividade.

O Paraná lidera a produção com 273.100 toneladas, seguido por São Paulo, Minas Gerais, Santa Catarina e Mato Grosso do Sul. A Região Sul apresenta o maior ritmo de expansão, impulsionada por cooperativas organizadas e integração com frigoríficos.

Segundo Francisco Medeiros, presidente executivo da Peixe BR, o resultado é fruto de planejamento. “Esse objetivo será alcançado por meio de investimentos em genética, nutrição, manejo, equipamentos, sanidade, produção, processamento e comercialização”, afirma. Para ele, o Brasil reúne condições técnicas e empresariais para liderar a produção mundial de tilápia nos próximos anos.

Mercado externo reage, mas exige estratégia
Mesmo diante das turbulências comerciais recentes, as exportações cresceram 2% em valor. O filé fresco liderou as vendas, seguido pelo filé congelado, que apresentou forte crescimento. Isso mostra que agregar valor ao produto é caminho para melhorar a rentabilidade.

A redução das tarifas trouxe alívio, mas o ciclo produtivo da tilápia é de aproximadamente oito meses. Isso significa que as decisões tomadas hoje só aparecem no caixa meses depois. Por isso, contratos firmes e previsibilidade continuam sendo fundamentais.

Outro ponto de atenção é a concorrência internacional. A abertura para importação de tilápia do Vietnã acendeu alerta no setor. O Brasil importou cerca de US$ 1,5 milhão em pescado asiático em 2025, com preços médios inferiores aos praticados internamente.

Gargalos regulatórios e crédito travam expansão

Apesar dos números positivos, o maior desafio atual não está dentro da porteira. A burocracia ambiental e a insegurança jurídica são apontadas como entraves ao crescimento. O licenciamento ambiental ainda é demorado em muitos estados, dificultando novos investimentos.

Sem licença, o produtor não acessa crédito rural. E sem crédito, não há ampliação de tanques, modernização ou melhoria de tecnologia. Diferente de culturas sazonais, a piscicultura tem fluxo contínuo de entrada e saída de peixes, exigindo modelo de financiamento adequado.

Para Marilsa Patrício, secretária executiva da Peixe SP, o setor precisa de regras claras. “A aquicultura brasileira volta a sorrir. Foi uma vitória jurídica e econômica, mas precisamos de estabilidade para crescer”, afirma. Ela também destaca que o produtor preserva a água porque depende diretamente dela para manter a atividade.

Mercado interno ganha força e amplia consumo

Com maior oferta e melhor distribuição, a tilápia ganhou espaço no mercado doméstico. Em várias regiões, o peixe congelado já concorre diretamente com a carne bovina. O consumidor busca proteína saudável e preço acessível.

Em 2025, os preços ao produtor oscilaram bastante. No primeiro semestre, houve queda expressiva devido à maior oferta. No segundo semestre, os valores reagiram, trazendo algum equilíbrio ao setor.

A organização dos alojamentos e o acompanhamento da produção são apontados como ferramentas para reduzir volatilidade. Planejamento evita excesso de oferta e protege a renda do produtor.

Nutrição representa o maior custo da atividade

Se a comercialização é estratégica, a nutrição é decisiva dentro da fazenda. De acordo com César de Paula Moreira, consultor da BN ACQUA, o arraçoamento pode representar até 70% do custo total em sistemas intensivos.

A dependência de milho e soja torna o produtor sensível às oscilações internacionais. Quando o preço dessas commodities sobe, a margem aperta imediatamente. Por isso, eficiência alimentar é palavra-chave.

O consultor destaca avanços como automação no fornecimento de ração, balanceamento nutricional por fase de crescimento e uso de aditivos que melhoram desempenho. “A nutrição eficiente é aliada fundamental em momentos de volatilidade”, reforça.

Peixes nativos ainda buscam organização

Enquanto a tilápia cresce, os peixes nativos enfrentam retração leve, mas contínua. A produção somou 257.070 toneladas em 2025, com queda discreta. Estados da Região Norte e Centro-Oeste concentram a maior parte desse volume.

O segmento ainda precisa de maior industrialização, padronização e estratégia comercial. Espécies como tambaqui e pirarucu têm potencial, mas carecem de mercado estruturado e logística eficiente.

Mesmo assim, especialistas acreditam que o Brasil possui vantagens naturais únicas. Água abundante, clima favorável e produtores cada vez mais profissionalizados formam a base para expansão sustentável.

A piscicultura brasileira vive, portanto, uma fase de transição. A produção cresce, o mercado externo reage e o consumo interno avança. No entanto, superar gargalos regulatórios, melhorar acesso ao crédito e investir em eficiência produtiva serão decisivos para transformar potencial em liderança global.

Por: Michelle Jardim
Fonte: Notícias Agrícolas

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