Carne Bovina: Cota imposta pela China pode reduzir ritmo da demanda externa e conter alta da arroba

Publicado em 04/03/2026 06:35 e atualizado em 04/03/2026 09:59
Limite, válido até 2028, pode reduzir ritmo da demanda externa, conter alta da arroba e manter atual estrutura de mercado entre frigoríficos.

A decisão da China de impor cotas à importação de carne bovina para os principais países fornecedores inaugura um novo capítulo para a pecuária brasileira. O Brasil terá limite de 1,106 milhão de toneladas em 2026, com aumento de cerca de 2% nos dois anos seguintes. O volume que ultrapassar esse teto enfrentará sobretaxa de 55%, o que, na prática, inviabiliza embarques acima da quota.

Do ponto de vista econômico, trata-se de uma salvaguarda comercial. “É uma medida de salvaguarda, ou seja, quando o país impõe alguma restrição nas importações com a justificativa de proteção do mercado e da indústria local. O governo Chinês estipulou essas cotas para limitar volumes e preservar preços internos. Acima da cota, há o pagamento de sobretaxa de 55%, o que prejudica a competitividade”, explica Leandro Gilio, pesquisador do Insper Agro Global.

A medida atinge o principal destino da carne bovina nacional. Segundo a ABIEC, em 2025, foram exportadas 3,50 milhões de toneladas de carne bovina brasileira, aumento de 20,9% em relação a 2024. O volume gerou US$ 18,03 bilhões, cerca de 40,1% acima do ano anterior.

Ainda de acordo com a entidade que representa os frigoríficos exportadores, a China respondeu por 48% desse total, com 1,68 milhão de toneladas e US$ 8,90 bilhões. Na sequência vieram Estados Unidos (271.800 t; US$ 1,64 bilhão), Chile (136.300 t; US$ 754,5 milhões), União Europeia (128.900 t; US$ 1,06 bilhão), Rússia (126.400 t; US$ 537,1 milhões) e México (118.000 t; US$ 645,4 milhões).

A ABRAFRIGO manifestou “profunda preocupação” com a decisão chinesa, classificando a medida como um risco “material e imediato” ao desempenho das exportações brasileiras e ao equilíbrio da cadeia produtiva nacional. A entidade alerta que o impacto potencial pode significar perda de até US$ 3 bilhões em receita para o Brasil em 2026.

O que muda no preço da arroba?

A principal dúvida do produtor é direta: isso derruba o preço do boi? Segundo Gilio, a restrição tende a limitar a demanda externa e, consequentemente, reduzir parte da pressão altista.

“Ocorre uma redução de demanda externa, o que tende a limitar os preços internamente. O mercado estava vivenciando um momento de boa demanda externa devido às limitações produtivas de outras regiões do mundo. No entanto, essas cotas limitam esse movimento, podendo gerar redução nos preços observados”, explica.

A médica veterinária e economista Lygia Pimentel, CEO da Agrifatto, pondera que não há motivo para pânico imediato. “Não, mas requer a necessidade de o Brasil buscar estar mais ativo junto a outros compradores, já que hoje 600 mil toneladas estão em jogo dentro do contrato com os chineses.” Ela lembra que o ciclo pecuário também influencia. A recente liquidação de fêmeas sinaliza menor oferta futura, o que pode sustentar a arroba mesmo com o teto chinês.

Gilio reforça que o impacto não é automático nem linear. “Atualmente estamos em um ciclo de menor produção global e tendência interna também nesse sentido. Os preços devem se manter pelo próximo período e dificilmente vamos ter uma redução significativa no curto prazo. A pressão baixista vai depender da continuidade da imposição de restrições”, disse.

Divisão das cotas mantém concentração

Outro ponto sensível é a forma como o Brasil distribuirá o volume autorizado entre frigoríficos. A proposta em análise considera o market share de exportação registrado em 2025.

Para Gilio, esse modelo não altera a estrutura atual do setor. “Essa definição de cotas mantém o poder dos atuais frigoríficos exportadores, não propiciando concorrência ou mudando o quadro atual de concentração de mercado. É a manutenção da concentração, devido à divisão avaliada por eles.”

Lygia Pimentel também alerta para a necessidade de análise regulatória detalhada. “O que acontece se uma indústria tem a compra de gado mais eficiente do que a outra e, consequentemente, preços mais competitivos? O que acontece caso alguma indústria nova seja habilitada?”

A divisão trimestral das cotas, segundo Gilio, tende a trazer previsibilidade. “A divisão reduz um pouco a volatilidade, tornando o processo mais previsível, permitindo maior controle por parte dos frigoríficos.” Ele acrescenta que, com a cota compartilhada, o incentivo para corrida de compras diminui. “Com a cota compartilhada e maior previsibilidade, o frigorífico acaba não tendo mais esse incentivo.”

Risco estrutural até 2028

A salvaguarda chinesa está prevista para três anos. Se mantida até 2028, pode gerar impactos mais profundos. “A China é nosso principal destino de exportação de carne. Isso poderia reduzir investimentos produtivos na área e limitar preços e produção interna”, afirma Gilio.

A ABRAFRIGO também avalia que a decisão ocorre em um momento delicado do ciclo pecuário e pode desestimular novos aportes no campo. “É uma medida que pode funcionar como fator de desestímulo para o pecuarista investir mais na atividade, ampliando a produção”, afirma a entidade.

O especialista pondera, porém, que o cenário não é definitivo. “Não é certo que a China mantenha essa restrição até 2028, até porque o mercado internacional vive hoje uma restrição em termos de oferta e o Brasil tem grande capacidade de produção a baixo custo. É importante que o Brasil busque algum tipo de negociação que reduza esse bloqueio de mercado”, observa.

É possível redirecionar o excedente?

O Brasil poderia redirecionar parte da carne a outros destinos? Gilio explica que há limites estruturais. “Há limites com relação à possibilidade de mercados abertos. O segmento de carnes depende da habilitação de frigoríficos, abertura de mercados com relação a regras sanitárias, entre outros, o que limita um pouco a questão de redirecionamento produtivo”, comenta.

Ele lembra, no entanto, avanços recentes. “Recentemente o Brasil teve abertura e habilitação de frigoríficos para exportação ao Vietnã, outros mercados como Coreia do Sul têm sinalizado uma possibilidade de abertura para o Brasil. Isso pode amenizar essa redução de demanda momentânea por parte da China.”

Caio Penido, presidente do IMAC – Instituto Mato-Grossense da Carne, mantém visão semelhante. “O Brasil tem tudo para se sair bem diante desse novo desafio, pois tendo um produto competitivo e de qualidade, poderemos conseguir colocá-lo em outros países.”

Planejamento e cautela no campo

Diante desse cenário, Gilio recomenda prudência. “O pecuarista deve avaliar investimentos atuais, projetar a possibilidade de receber menores preços na @ em um momento próximo, o que indica a necessidade de contenção de investimentos e maior ponderação para pagar preços elevados na reposição em um momento de incerteza.”

Penido reforça a importância da gestão. “A melhor estratégia ao produtor é conhecer bem seus custos de produção, travar sua rentabilidade no mercado de derivativos, tentar distribuir melhor suas vendas de animais para as indústrias frigoríficas e buscar a produção de animais mais versáteis.”

A China seguirá estratégica, mas a diversificação de mercados e a gestão eficiente dentro da porteira passam a ser ainda mais decisivas. O cenário não é de ruptura, mas de ajuste. E, como mostra a análise econômica, a forma como o Brasil reagirá nos próximos meses será determinante para o comportamento da arroba, dos investimentos e da competitividade da carne bovina brasileira até 2028.

Por: Michelle Jardim
Fonte: Notícias Agrícolas

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