Newcastle pode pressionar preços do frango em 2027, mas maior risco econômico está concentrado em Santa Catarina, avalia Itaú BBA
As restrições comerciais provocadas pelo foco da doença de Newcastle em Santa Catarina podem ter consequências econômicas mais expressivas para a avicultura catarinense do que para o conjunto do setor brasileiro. A avaliação é do Itaú BBA, que aponta a elevada dependência estadual das exportações e o tempo necessário para a reabertura dos mercados como fatores decisivos para os possíveis impactos sobre frigoríficos, cooperativas e produtores integrados.
O banco também considera que, caso os embargos se prolonguem e parte da carne de frango destinada ao exterior precise ser redirecionada ao mercado brasileiro, poderá haver pressão sobre os preços da proteína no primeiro trimestre de 2027. O cenário depende da duração das restrições, da capacidade de reorganização das vendas e do comportamento da demanda doméstica.
O foco da doença de Newcastle foi confirmado em 18 de outubro em um estabelecimento comercial de criação de perus de corte no município de Nova Itaberaba, no Oeste catarinense. Desde então, o Ministério da Agricultura e Pecuária (Mapa) adotou medidas sanitárias e comunicou a ocorrência aos parceiros comerciais.
Segundo atualização oficial de quinta-feira (22), o despovoamento sanitário da propriedade foi concluído no dia 20, enquanto permanecem em andamento os procedimentos de limpeza, desinfecção e vigilância epidemiológica.
O avanço das medidas de contenção, entretanto, não garante a retomada imediata das exportações. Cada país importador precisa avaliar as informações sanitárias e os protocolos aplicáveis antes de autorizar novamente as compras.
Dependência das exportações amplia risco para Santa Catarina
A exposição comercial catarinense é um dos principais pontos destacados pelo Itaú BBA. Segundo o levantamento, Santa Catarina produziu aproximadamente 1,915 milhão de toneladas de carne de frango em 2025, das quais cerca de 1,2 milhão de toneladas foram destinadas ao mercado externo.
Isso significa que as exportações corresponderam a aproximadamente 63% da produção estadual, proporção superior à média brasileira, próxima de 37%.
No conjunto do país, a produção de carne de frango alcançou 14,291 milhões de toneladas em 2025, com exportações de 5,324 milhões de toneladas. Santa Catarina respondeu por aproximadamente 13,4% da produção nacional, mas concentrou 22,5% do volume exportado e 25% da receita cambial gerada pelo setor.
As vendas externas catarinenses movimentaram US$ 2,45 bilhões naquele ano, de um total brasileiro de aproximadamente US$ 9,8 bilhões.
Esses indicadores mostram por que o estado é proporcionalmente mais vulnerável às restrições comerciais. Embora nem toda a produção catarinense destinada ao exterior esteja impedida de ser exportada, a suspensão das compras por determinados mercados pode exigir mudanças importantes na programação das empresas que atendem esses destinos.
Conforme a atualização do Mapa de 21 de outubro, China e Arábia Saudita suspenderam a importação de carne e produtos cárneos de aves provenientes de Santa Catarina. O Chile também adotou restrições estaduais, abrangendo diferentes produtos avícolas.
Já México e Malásia estabeleceram suspensões com alcance nacional, embora os produtos abrangidos pelas medidas sejam diferentes em cada mercado.
A regionalização da restrição chinesa permitiu preservar a possibilidade de exportações de outros estados brasileiros para aquele destino. Para as unidades catarinenses afetadas, porém, permanece a necessidade de buscar alternativas comerciais.
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O Itaú BBA considera que empresas com instalações industriais em outros estados podem ter maior capacidade de reorganizar a origem dos embarques. Para frigoríficos e cooperativas concentrados em Santa Catarina, o redirecionamento das vendas tende a exigir ajustes mais complexos.
Entre os riscos identificados pelo banco estão o acúmulo de estoques refrigerados, o aumento das despesas de armazenagem, a renegociação de contratos e a necessidade de direcionar produtos para mercados que eventualmente ofereçam preços inferiores.
Essas condições podem pressionar o capital de giro e o fluxo de caixa das empresas, mesmo quando parte da produção encontra compradores alternativos.
Os reflexos também podem alcançar os produtores integrados, caso as processadoras precisem alterar o ritmo dos abates ou reduzir temporariamente o alojamento de aves. O relatório, entretanto, não apresenta uma estimativa de prejuízos financeiros já concretizados nem quantifica eventuais efeitos sobre a remuneração dos produtores.
Embargos prolongados podem pressionar preços em 2027
A duração das restrições é considerada pelo Itaú BBA uma das principais variáveis para o comportamento do mercado nos próximos meses.
O banco utiliza como referência episódios sanitários anteriores, como o foco de doença de Newcastle registrado em Anta Gorda, no Rio Grande do Sul, em 2024, e a ocorrência de influenza aviária em Montenegro, também no estado gaúcho, em 2025.
No episódio de 2024, a China inicialmente suspendeu as importações brasileiras e posteriormente limitou a restrição ao Rio Grande do Sul. Já no caso de influenza aviária de 2025, o restabelecimento das compras chinesas levou aproximadamente seis meses, enquanto restrições específicas ao estado permaneceram por período adicional.
Os precedentes demonstram que a normalização sanitária e a reabertura comercial podem ocorrer em momentos diferentes, mas não permitem prever quanto tempo durarão as medidas adotadas agora em razão do foco catarinense.
O possível efeito sobre os preços também precisa ser analisado diante do crescimento da produção brasileira de carne de frango.
Segundo dados preliminares reunidos pelo Itaú BBA, a produção brasileira entre janeiro e setembro de 2026 aumentou aproximadamente 6,2% em relação ao mesmo intervalo de 2025. Para o acumulado do ano, a instituição trabalha com perspectiva de expansão próxima de 6%.
As exportações brasileiras também podem apresentar crescimento próximo de 10% em 2026, conforme a avaliação do banco, favorecidas em parte pela base comparativa do ano anterior.
Nesse contexto, caso as empresas catarinenses enfrentem dificuldades prolongadas para escoar a carne destinada ao exterior, uma parcela desses volumes poderá ser redirecionada ao mercado doméstico.
O risco ganha importância no primeiro trimestre de 2027, período em que o consumo interno costuma apresentar enfraquecimento sazonal. A combinação entre uma eventual oferta adicional de carne e uma demanda menos aquecida poderá pressionar as cotações da proteína.
Essa possibilidade não representa uma previsão de queda obrigatória dos preços. A intensidade do efeito dependerá da quantidade efetivamente redirecionada, das condições de armazenamento, da capacidade de reorganização comercial e da velocidade de retomada das exportações.
Além disso, a manutenção de embarques por empresas instaladas em outros estados poderá reduzir o impacto sobre o desempenho nacional, mesmo que determinadas operações catarinenses enfrentem dificuldades mais expressivas.
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O Itaú BBA também identifica uma possível consequência indireta para o mercado de grãos. Caso frigoríficos catarinenses reduzam o alojamento de aves ou modifiquem seus programas de produção, poderá haver reflexos sobre a demanda regional por milho e farelo de soja utilizados na alimentação animal.
O relatório não quantifica esse efeito, que dependerá de ajustes efetivos na produção avícola. Portanto, ainda não é possível afirmar que os embargos estejam provocando redução no consumo desses insumos.
Para os produtores integrados e as empresas catarinenses, a principal preocupação permanece relacionada à capacidade de preservar o ritmo de produção e comercialização enquanto as restrições estiverem em vigor.
Assim, embora o Itaú BBA avalie que os impactos agregados sobre a avicultura brasileira tendam a ser limitados, Santa Catarina apresenta exposição proporcionalmente maior. A duração dos embargos e a possibilidade de reorganizar os destinos da carne serão determinantes para medir os custos do episódio e seus eventuais reflexos sobre preços, margens e atividade produtiva em 2027.