Crise e transição: Mercado global do cacau oscila entre projeção de superávit, estoques parados e preços em queda
O mercado do cacau atravessa um momento de reorganização. De um lado temos um cenário imediato de crise para os agricultores da África Ocidental, que lidam com queda nos preços internacionais e estoques parados, e do outro consultorias apontam para um alívio na oferta global nos próximos dois anos.
Segundo informações da Reuters, a queda acentuada dos preços globais do cacau - de quase 50% no acumulado dos últimos meses - , tem pressionado a Costa do Marfim (maior produtor mundial da fruta) a considerar uma redução do preço garantido pago aos seus produtores para se alinhar com o de Gana, que já reduziu o valor em 28,6% para o restante da safra principal de 2025/2026 em uma tentativa de reativar as vendas e obter dinheiro para os agricultores.
O portal interncional Bloomberg destaca que essa mudança no sistema de preços do Gana pode alterar o mercado global de cacau, ainda mais com a Costa do Marfim potencialmente seguindo o mesmo caminho. Até então, as vendas do produto nos dois países são controladas por órgãos reguladores governamentais, que fixam os pagamentos aos agricultores e comercializam os grão. Essa estrutura foi criada para proteger os produtores da volatilidade dos mercados agrícolas. Mas, com a subida recorde dos contratos futuros em 2024, seguida por uma queda de mais de 70%, este sistema está se tronando um grande desafio.
Além disso, há relatos que o armazém de Sekou Dagnogo, na cidade de Duekoue (oeste da Costa do Marfim), está com sacos de grãos de cacau não vendidos empilhados quase até o teto (cerca de 50.000 toneladas) uma vez que os exportadores têm se recusado a pagar o preço garantido de 2.800 francos CFA (US$ 5,09) por kg na porta da fazenda.
Sem compradores dispostos a arcar com o valor oficial, o órgão regulador marfinense, o Conselho do Café e do Cacau, iniciou no mês de janeiro um programa de emergência para comprar 100 mil toneladas de grãos estocados, visando evitar a perda de qualidade do produto. Mas, enquanto a intervenção não chega a todos, agricultores relatam ser forçados a aceitar ofertas clandestinas de até 1.500 francos CFA para garantir o sustento básico.
Ainda de acordo com informações da Reuters, Costa do Marfim e Gana, que juntos representam cerca de 60% da produção mundial, têm coordenado então esforços de perto desde o início da crise no setor, visando a sobrevivência do setor cacaueiro.
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+ Os estoques de cacau da safra principal se acumulam nos armazéns da Costa do Marfim.
AMPLA OFERTA E BAIXA DEMANDA: COMO FICA O MERCADO?
Consultorias apontam que, no curto prazo, diante deste cenário de ampla oferta e demanda mais frágil, a volatilidade deve seguir elevada no mercado.
De acordo com análise da Hedgepoint Global Markets, apesar do comportamento mais lateralizado nas bolsas de Nova York e Londres, as condições climáticas continuam sendo um dos principais fatores de atenção, com potencial de alterar rapidamente a dinâmica de preços.
“Estamos vendo um mercado guiado mais por ajustes técnicos no período recente, mas que permanece altamente sensível às atualizações climáticas nas regiões produtoras. Mesmo pequenas mudanças no padrão de chuva podem gerar movimentos significativos nas cotações,” pontuou Carolina França, analista de inteligência de mercado da Hedgepoint em relatório enviado pela empresa.
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Já o Relatório de Saldo Global de Cacau, organizado pela StoneX, indica um cenário de alívio gradual nos fundamentos de oferta e demanda ao longo das próximas duas safras. Para o ciclo 2025/26, a consultoria estima um superávit global de 287 mil toneladas, enquanto a primeira projeção para 2026/27 aponta um excedente de 267 mil, sinalizando a entrada do mercado em um novo ciclo superavitário.
“O mercado global de cacau passa por um processo de reorganização e caminha para uma nova normalidade de preços, definida pelo equilíbrio entre atratividade e destruição da demanda, bem como pelos incentivos e desestímulos aos investimentos no cultivo, não apenas na África, mas também em países como o Equador”, destacou o analista de Inteligência de Mercado da StoneX, Rafael Borges.