Janela de exportação da uva começa com esperança do acordo Mercosul-União Europeia, mas apreensão sobre a qualidade

Publicado em 31/03/2026 06:30 e atualizado em 31/03/2026 07:45
Setor se anima com a possibilidade de exportar para a Europa com taxa zero, mas excesso de chuvas em 2026 deixou frutas com qualidade inferior aos padrões de embarque

A primeira janela para exportação de uvas do Brasil começa com sentimentos distintos dentro do setor. Por um lado, a assinatura do acordo Mercosul-União Europeia anima e pode estimular as vendas, já que as tarifas da fruta serão reduzidas de 14% para zero logo que o acordo passar a valer. Por outro, há preocupação com a qualidade das frutas, pelo menos neste primeiro momento. 

“O microclima predominante na região, marcado por alta umidade relativa e temperaturas elevadas, favoreceu o aparecimento de diversas doenças, como glomerella, podridão e míldio, que comprometeram a qualidade e reduziram a oferta disponível”, explicam os analistas do Cepea. 

Agentes de mercado consultados pelo Hortifrúti/Cepea relataram “incertezas quanto ao volume inicial destinado a esta janela, já que ainda são encontrados lotes com qualidade inferior aos padrões exigidos para embarque, reflexo das oscilações climáticas e do excesso de chuvas anteriores, o que pode dificultar a liberação durante as inspeções”. 

Sendo assim, a expectativa dos técnicos do Cepea é de haja aumento gradual nos embarques de uva ao longo de abril, mas ainda em volumes que podem permanecer inferiores aos registrados no mesmo período do ano anterior. 

De acordo com dados da Abrafrutas (Associação Brasileira dos Produtores e Exportadores de Frutas e Derivados), no primeiro semestre de 2025, o Brasil embarcou 10.381,58 toneladas da fruta, sendo 2.385,7 somente nos dois primeiros meses do ano. Já em 2026, o acumulado de janeiro e fevereiro registra exportações de 1.706,8 toneladas. 

Os mesmos dados da Associação indicam que, das 62.251,88 toneladas de uva exportadas pelo Brasil em todo 2025, 44,9% tiveram como destino os Países Baixos (Holanda), principal porto de entrada da União Europeia, com mais 1,5% para a Irlanda e 1% para a Espanha. 

A expectativa do setor agora é que a ratificação do acordo comercial entre Mercosul e União Europeia possa impulsionar ainda mais este mercado, uma vez que as tarifas para a uva brasileira devem cair dos atuais 14% para 0% logo que o acordo começar a valer. 

“As informações são de que esse acordo começar a vigorar dia primeiro de maio e vai ser muito positivo. Hoje nós pagamos de 8 a 14% na uva e vamos pagar zero. Isso vai nos dar condições de concorrer igualmente com a África do Sul, com a Califórnia e com o Peru, que hoje já mandam para a União Europeia e não pagam nada”, afirma Guilherme Coelho, presidente da Abrafrutas. 

“A expectativa é grande, a gente sabe que vai começar a vigorar, então para algumas frutas que fazem a Europa nesse primeiro semestre pode ser bastante relevante, porque a gente vai crescer muito em competitividade. Isso significa saúde para o setor e é o momento de a gente colocar essas discussões em linha, já programar embarques pensando com esse tipo de colocação. A uva tem safra agora abril e maio, geralmente tem uma safrinha pra Europa. Se o clima permitir, a gente vai fazer. Dentro do conjunto de frutas que estão elencados no acordo, a uva é a zero a partir do primeiro dia que o acordo passa a vigorar. Então a gente está falando em já poder aproveitar totalmente o benefício do acordo, 100% da isenção já a partir de maio, o que é decisivo para a uva”, avalia Júnior Silveira, sócio-diretor da Xportare. 

A região do Vale do São Francisco entra Bahia e Pernambuco concentra grande parte da produção de uvas do Brasil e deve ser a grande beneficiada neste sentido. Em Petrolina/PE, grupos de produtores já começam a se movimentar para poder aproveitar essas novas oportunidades de comercialização. 

“É um pleito que há muito tempo o produtor esperava, porque a uva brasileira sofre uma tarifação muito pesada no continente europeu. Agora com esse acordo com a União Europeia, a gente vai ter uma isenção dos impostos. Vai aumentar bastante a questão da rentabilidade do produtor brasileiro, o que é uma coisa extremamente importante”, avalia Marcelo Faria, diretor da Coopa (Cooperativa Agrícola de Petrolina). 

“Em forma geral, o Vale do São Francisco destina entre 75 e 85% da uva para o mercado interno e os 15% restantes para exportação. Mesmo assim somos o principal polo de exportação de uva de mesa, assim como de manga, e essa redução de praticamente 14% para 0% vai ser um grande benefício para a gente. Vamos entrar na mesma concorrência que outros países como Peru, Chile e África do Sul, vai ser de igual para igual. Tem um grande potencial de a gente aumentar os nossos nossos envios para lá porque claramente vão ter um benefício financeiro. Sem dúvida é um ganho muito bom para o Brasil e para o nosso Vale São Francisco. Esse balanço de exportação e mercado interno pode também ser alterado, já que vamos ter um grande incentivo financeiro para aumentar esse volume”, relata Cristhian Diaz, gerente técnico comercial da Coopexvale (Cooperativa de Produtores e Exportadores do Vale do São Francisco).

Por: Guilherme Dorigatti
Fonte: Notícias Agrícolas

NOTÍCIAS RELACIONADAS

Batata/cepea: Cotações permanecem estáveis
Janela de exportação da uva começa com esperança do acordo Mercosul-União Europeia, mas apreensão sobre a qualidade
Frutas exóticas ganham mercado com demanda crescente no Brasil
Produtores de uva de Petrolina/PE comemoram assinatura do acordo Mercosul-União Europeia
Produtora de melancia investe em rastreabilidade e infraestrutura de distribuição
Mandioca/Cepea: Oferta restrita mantém preço em alta; média avança pela 8ª semana consecutiva