Chuvas elevaram preços de hortaliças em setembro, mas mercado apresenta mudanças em outubro

Publicado em 29/10/2026 07:05
Conab aponta altas de até 48,90% no atacado, enquanto análises do Cepea revelam problemas de qualidade, doenças e atrasos nas lavouras; cenoura foi exceção entre as culturas monitoradas

As chuvas registradas em regiões produtoras de hortaliças contribuíram para restringir a oferta e elevar os preços de quatro das cinco culturas acompanhadas pela Companhia Nacional de Abastecimento (Conab) em setembro. Além das valorizações no atacado, o excesso de umidade também provocou problemas de qualidade, doenças e atrasos nas atividades de campo. Em outubro, porém, a retomada das colheitas começou a modificar o comportamento de alguns mercados, embora os impactos sobre as lavouras ainda persistam em determinadas regiões.

De acordo com o 10º Boletim do Programa Brasileiro de Modernização do Mercado Hortigranjeiro (Prohort), divulgado pela Conab na terça-feira (27), o tomate apresentou a maior valorização na média ponderada dos mercados atacadistas analisados, com avanço de 48,90% em setembro em relação a agosto. Na sequência apareceram a batata, com alta de 32,88%, a cebola, com 29,31%, e a alface, com 15,69%. A cenoura foi a única entre as cinco hortaliças a registrar queda, de 16,00%.

O movimento representou uma reversão para algumas culturas. Em agosto, a Conab havia identificado reduções nos preços da batata, da cebola e da alface, que passaram a subir no mês seguinte. As chuvas dificultaram as colheitas e limitaram a disponibilidade de batata e cebola, enquanto também prejudicaram o plantio e o desenvolvimento de folhosas em regiões do Sudeste. No caso da alface, a alta da média ponderada foi influenciada principalmente pelas cotações da Ceagesp, em São Paulo, que avançaram 48,3%.

A cenoura, por outro lado, apresentou comportamento diferente. Embora as precipitações tenham limitado a expansão da oferta em algumas regiões e prejudicado a qualidade das raízes, os preços recuaram, mesmo com menor volume comercializado nas Ceasas monitoradas.

Impactos das chuvas vão além dos preços

As consequências do excesso de umidade para os produtores não ficaram restritas às oscilações de preços. Levantamentos do Hortifrúti/Cepea identificaram problemas sanitários, perdas de qualidade e aumento dos descartes em diferentes regiões produtoras, mostrando que a valorização no atacado não significa necessariamente melhores condições de comercialização no campo.

Em Araguari (MG), as chuvas registradas desde agosto favoreceram o avanço de doenças bacterianas nas lavouras de tomate, especialmente a mancha-bacteriana e a pinta-bacteriana. Segundo o Cepea, as precipitações acima da média em setembro agravaram a situação, provocando manchas nos frutos colhidos e dificultando as aplicações de defensivos para o controle fitossanitário.

A continuidade das chuvas em outubro manteve elevada a pressão das doenças. O problema também preocupa as áreas transplantadas em agosto, cuja colheita está prevista para começar entre novembro e dezembro, indicando que parte dos efeitos pode se estender aos próximos meses.

Na produção de cebola do Triângulo Mineiro, a umidade favoreceu problemas fitossanitários, incluindo a chamada camisa d'água, que compromete a qualidade dos bulbos. Mesmo depois da melhora do tempo e da retomada das colheitas, parte da mercadoria continuou enfrentando dificuldades de comercialização a preços mais elevados.

A batata também apresentou problemas de qualidade associados ao atraso na retirada dos tubérculos do campo. O Cepea identificou a presença de mercadorias depreciadas no mercado, enquanto em Vargem Grande do Sul (SP) foram relatados lotes com escurecimento rápido da pele, negociados a valores inferiores aos dos produtos de melhor padrão comercial.

Entre as folhosas, os efeitos incluíram perdas nas lavouras e mudanças no planejamento dos produtores. Em Mogi das Cruzes (SP), o encharcamento do solo dificultou o manejo, prejudicou a absorção de nutrientes e favoreceu problemas fisiológicos, sobretudo na alface americana. A má formação das plantas e os descartes reduziram a disponibilidade regional, levando alguns produtores a diminuir os plantios de variedades mais sensíveis.

Mesmo a cenoura, que registrou desvalorização no levantamento da Conab, enfrentou problemas produtivos. Em São Gotardo (MG), produtores relataram aumento da incidência de problemas fitossanitários, como pinta, e dos descartes no campo após as chuvas de outubro. Segundo o Cepea, entretanto, essas perdas ainda não haviam comprometido significativamente o volume produzido na região, que permanecia elevado durante o avanço da colheita.

Retomada das colheitas modifica cenário em outubro

Embora setembro tenha sido marcado pela valorização predominante das hortaliças, os levantamentos mais recentes do Cepea mostram que a melhora das condições de colheita começou a pressionar os preços de alguns produtos em outubro.

A batata foi um dos exemplos mais expressivos. Na semana de 17 a 23 de outubro, as cotações recuaram pela sexta semana consecutiva nos mercados atacadistas acompanhados pelo Hortifrúti/Cepea, com quedas de 12,0% em São Paulo, 20,8% no Rio de Janeiro e 13,72% em Belo Horizonte.

Segundo os pesquisadores, a trégua nas chuvas permitiu normalizar as colheitas, enquanto parte da produção que deveria ter sido comercializada em setembro chegou ao mercado em outubro. A oferta também foi reforçada por áreas plantadas em maio e junho, período em que os preços elevados haviam estimulado a ampliação do cultivo.

Na cebola, a retomada das atividades no Triângulo Mineiro e em Cristalina (GO) ampliou a disponibilidade e provocou quedas semanais de 14,50% e 15,50%, respectivamente, entre 19 e 23 de outubro. Apesar disso, os problemas de qualidade decorrentes da umidade continuaram dificultando a comercialização de parte da produção.

O comportamento do tomate foi menos uniforme. Entre 17 e 23 de outubro, os preços recuaram nos atacados de São Paulo, Belo Horizonte e Campinas, apesar da oferta ainda restrita. Conforme o Cepea, o patamar elevado das cotações limitou a demanda. No Rio de Janeiro, entretanto, houve valorização de 11,10%, associada à maturação mais lenta dos frutos nas regiões fornecedoras, diante das temperaturas mais baixas.

Para a alface, as chuvas continuaram sustentando os preços em determinadas regiões. Em Teresópolis (RJ), o Cepea identificou redução dos plantios e restrição da oferta ao longo de outubro. Até o dia 27, o município havia acumulado 364 milímetros de precipitação, volume 128% superior à média histórica mensal.

Na parcial de outubro até o dia 28, os preços médios da alface americana estavam quase 100% acima dos registrados no mesmo período de 2025, enquanto a crespa apresentava valorização de 256%. Os percentuais se referem ao mercado regional e à comparação anual, diferentemente das variações mensais apuradas pela Conab.

Já a cenoura permaneceu pressionada pela oferta elevada. Em São Gotardo, o avanço da colheita e o acúmulo de estoques contribuíram para a redução das cotações, mesmo diante dos problemas de qualidade e descartes relatados por produtores.

Os levantamentos mostram que a normalização das condições climáticas não encerra imediatamente os efeitos das chuvas sobre a horticultura. Enquanto a retomada das colheitas amplia a oferta e pode reduzir os preços, problemas sanitários, perdas de qualidade e mudanças no calendário de plantio continuam influenciando as condições de produção.

Para o produtor, o comportamento das cotações no atacado representa apenas uma parte desse cenário. O resultado da atividade também depende do volume efetivamente colhido, da qualidade comercial dos produtos e das condições para recuperar as lavouras e manter a produção nos próximos meses.

Fonte: Notícias Agrícolas

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