Entre guerra e custos altos, milho deve perder espaço nos EUA e provocar reação nos preços

Publicado em 27/03/2026 05:00 e atualizado em 27/03/2026 06:14
No Brasil, clima para safrinha permanece em evidência, mas mercado monitora comportamento em Chicago

O mercado global de grãos está bastante ansioso pela chegada dos números que o USDA (Departamento de Agricultura dos Estados Unidos) traz no final deste mês de março. O relatório Prospective Plantings chega com as primeiras projeções oficiais de área da safra 2026/27 do país e o que os especialistas esperam encontrar é uma confirmação dos sinais trazidos pelos Outlook Forum do USDA, realizado no fim de fevereiro: uma redução na área de milho e um aumento para a soja. As expectativas são grandes porque estes números vão dizer muito também sobre como ambos os mercados reagirão no Brasil, em especial o de milho. 

Com o que os especialistas não contavam, no entanto, é que uma guerra no Oriente Médio seria deflagrada entre o fórum do departamento norte-americano e a chegada deste boletim. E mais do que isso, que os conflitos fossem severos o bastante para elevar de forma muito rápida e agressiva os preços dos fertilizantes - em especial os nitrogenados -, além de promover uma disrupção forte na logística destes insumos. As altas não são só intensas, como contínuas desde o último dia 28 de fevereiro, quando os ataques foram iniciados. 

"Já víamos, desde o Outlook, uma pequena redução de área, e depois veio este agravante da guerra, todo esse custo com os fertilizantes esse incômodo que está se passando e preços nada atrativos para o produtor (...) Então, sabemos que algo (de área menor de milho nos EUA) já está previsto e fica a parte da surpresa. Eu até acredito que teremos uma área ainda menor do que o previsto no Outlook, mas agora é difícil estimar, até porque temos outras medidas que podem também melhorar o consumo de biocombustíveis", explica o diretor da Germinar Corretora, Roberto Carlos Rafael.

Para o consultor da Brandalizze Consulting, Vlamir Brandalizze, os custos de produção mais baixos da soja do que os do milho nos EUA serão muito considerados pelo produtor norte-americano no atual ambiente, com total influência do comportamento dos preços da ureia. "mesmo que o milho mostre cotações futuras muito atrativas". Caso a área destinada ao cereal seja significativamente menor no país, os preços em Chicago poderiam testar níveis acima dos US$ 5,10, US$ 5,20 por bushel no ano que vem, "para haver um equilíbrio em cima dessa nova fase de custos majorados". 

Ele lembra ainda que diante dos atuais preços do fertilizante nitrogenado, a China também começou a regular suas exportações para buscar garantir valores mais adequeados a seus produtores. "Mas, se o nitrogenado estiver alto na China, existe uma tendência, talvez, do produtor chinês de plantar um pouco mais de soja e menos de milho".  

Roberto Carlos Rafael pondera que, considerando a "fotografia atual" do mercado norte-americano de milho, são ainda estoques confortáveis no radar dos traders, e que, os "próximos retratos" vão incluir outros elementos além da área da nova safra norte-americana, como o clima para a safrinha do Brasil e a próxima safra de verão. 

"A possibilidade de um El Niño está presente com uma força de mais de 80% ao final deste ano. Isso pode, às vezes, mudar o jogo, mas ainda é cedo para afirmar. Do ponto de vista da safrinha, me parece que o sistema será neutro, parecido com o do ano passado, e devemos ter um clima muito parecido, mas atentos aos meses de abril e maio, que são dois meses importantíssimos", complementa Rafael. "Mas, esse ainda é um jogo muito aberto". 

E o jogo está mais aberto do que estaria em condições normais, justamente, por conta da guerra EUA/Israel x Irã. Daqui em diante, além da área e do clima nos EUA, do clima no Brasil para a segunda safra e de como será finalizado o plantio para que também se tenha uma estimativa mais precisa de área, o comportamento da demanda pode também surpreender. 

COMO PODEM SENTIR OS PREÇOS DO MILHO NO BRASIL?

Os impactos do comportamento dos preços em Chicago no mercado brasileiro são mais intensos no segundo semestre por conta da janela de exportação mais forte do milho e é ali onde devem estar as atenções dos produtores, como explica o diretor da Pátria Agronegócios, Cristiano Palavro. "Mas, esse impacto de Chicago chega também ao sentimento do produtor, do especulador, do operador da B3, então, se tivermos uma conversão de área importante e que leve o milho a escalar, a gente pode ver também oportunidades chegando também ao produtor brasileiro, oportunidades estas que coloquem preços melhores para ele vender estes estoques que ainda estão na mão" diz. 

A colheita do milho verão já está bem adiantada no Brasil, com os preços sentindo uma pressão um pouco maior onde há a chegada desta oferta, por isso, uma melhora das referências na CBOT chegariam em boa hora para o mercado nacional. "E essas oportunidades seriam importantes de serem aproveitadas, porque sem um problema climático daqui para frente, ainda teremos uma oferta importante de milho. É claro que a demanda é muito boa e vale salientar que a demanda este ano foi surpreendentemente boa, não só no Brasil, mas no mundo", afirma o analista de mercado. 

BRASIL PODE SE APROXIMAR DE 100 MILHÕES DE T CONSUMIDAS

Essa demanda forte pelo milho - no Brasil e no mundo - tem trazido um respiro importante para o fluxo de caixa do produtor brasileiro na última temporada, em que as margens da soja estão muito ajustadas, ficando até mesmo negativas em algumas regiões. 

"Para 2026, podemos nos aproximar das 100 milhões de toneladas consumidas em nosso mercado interno. Temos uma demanda crescente, com uma oferta que tem dificuldade de crescer. O clima do ano passado para a safrinha foi muito bom e a produtividade foi muito alta. Neste ano, nosso levantamento mostra que a área plantada está muito próxima do ano passado na safrinha e eu acredito que será muito difícil repetirmos uma produtividade tão boa", detalha Palavro. 

Com isso, a expectativa é de que a demanda interna cresça, mesmo que o Brasil siga exportando bons volumes, acima de 40 milhões de toneladas em 2026. 

DEMANDA CRESCENTE DE UMA OFERTA ABUNDANTE

O consumo intenso de milho que se deu mundo afora veio em um cenário de recorde de produção nos principais países produtores globais do cereal, entre eles EUA, China, Brasil. "Mesmo assim, a demanda superou a oferta. Então, vemos que o milho é um mercado incentivado. Por mais que possamos ter pressão com a proximidade do desenvolvimento em boas condições da safrinha, eu não acredito em preços muito baixos do milho porque a demanda surpreende", acredita o diretor da Pátria.

Com o conflito em andamento, o consumo iraniano de milho - que é suprido majoritariamente pelo Brasil - está em xeque. "No ano passado, exportamos 9,5 milhões de toneladas para o Irã. Se essa guerra continuar, quanto vai sobrar para o Brasil?", questiona o Roberto Carlos Rafael. E mais do que isso, ele lembra ainda que caso o governo do país seja mesmo derrubado pelos EUA, sanções podem ser retiradas e os norte-americanos poderiam, inclusive, passar a vender milho para o Irã. "Tudo vai depender da escalada dessa guerra". 

FUNDAMENTOS PRÓPRIOS CRIAM UM AMBIENTE POSITIVO

Vlamir Brandalizze explica que a demanda crescente do milho é constante. 

"O milho, com certeza, vai estar mais valorizado com o passar do tempo. Estamos entrando em uma nova era mostrando um aumento no uso de biocombustíveis, pode haver um aumento dos biocombustíveis nos EUA, aumentando a demanda local por milho para a produção de etanol e isso traz os EUA para um potencial de exportação menor, deixa o mercado mais carente. Tudo indica que se confirmados esses dois milhões de hectares a menos de milho nos EUA haverá uma queda na safra americana na ordem de 20 milhões de toneladas e isso traz o mercado para uma oferta mundial muito menor do que o consumo e isso é benéfico para as cotações internacionais", diz. 

E todas estas relações, até este ponto, criam um ambiente positivo para o mercado do milho por seus próprios fundamentos. "Tudo indica que teremos uma safra global menor do que o consumo e isso traz um apelo positivo para a cotação, mantém as cotações firmes. O próprio trigo está ajudando, com a maioria dos meses acima dos US$ 6,00 por bushel. O trigo também está valorizado e não haverá tanto produto assim para entrar em ração e disputar o espaço", afirma o especialista da Brandalizze Conslting. 

Por: Carla Mendes | Instagram @jornalistacarlamendes
Fonte: Notícias Agrícolas

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