Petróleo acima de US$ 105 acende alerta para fertilizantes com compras da safrinha 2027 ainda abertas

Publicado em 10/09/2026 14:05
Mais da metade das necessidades para o milho ainda estava por contratar no início de setembro; em MT, custeio da lavoura já sobe 13,8% e margem projetada começa apertada

A nova escalada dos preços do petróleo volta a colocar os custos dos fertilizantes no radar do produtor brasileiro justamente quando boa parte das compras para a segunda safra de milho de 2027 ainda não foi concluída.

Nesta quinta-feira (10), o petróleo Brent chegou a US$ 106,60 por barril diante do agravamento das tensões no Oriente Médio e de novas ameaças aos fluxos de energia. Levantamento da Reuters mostrou ainda que a produção efetiva da Opep caiu 640 mil barris por dia em agosto, principalmente em razão de interrupções envolvendo Arábia Saudita e Irã.

O movimento não significa, por si só, que os fertilizantes já tenham registrado uma nova rodada de altas no mercado brasileiro. Ele, porém, amplia a atenção sobre um mercado fortemente dependente de importações e que ainda tem uma parcela importante das necessidades da safrinha por contratar.

No início de setembro, levantamento apresentado ao Notícias Agrícolas por Jeferson Souza, analista de fertilizantes da Agrinvest, indicava que apenas 45% das necessidades para a segunda safra de milho de 2027 haviam sido compradas no Brasil, deixando 55% ainda em aberto.

O avanço também era bastante desigual entre as regiões. Mato Grosso aparecia próximo de 65% das compras realizadas, enquanto Paraná e Mato Grosso do Sul estavam ao redor de 40%, Goiás abaixo de 30% e Maranhão, Piauí e Tocantins ainda não chegavam a 20%.

Naquele momento, Souza avaliava que a relação de troca do milho com os fertilizantes permanecia dentro dos padrões históricos e que ainda havia tempo para novas aquisições em muitas regiões. O analista, porém, já apontava a instabilidade geopolítica e a dependência brasileira das importações como fatores capazes de alterar rapidamente esse cenário.

A atenção é maior sobre os nitrogenados. Segundo Souza, cerca de 40% da ureia importada pelo Brasil em 2025 teve origem no Oriente Médio, enquanto as importações provenientes da região recuaram aproximadamente 50% em 2026 na comparação anual.

Apesar disso, o analista não enxergava falta de produto no mercado brasileiro no início de setembro. A oferta estava mais ajustada do que no ano anterior, mas a menor demanda, algum avanço da produção doméstica e as compras já realizadas impediam uma leitura de escassez naquele momento.

A nova alta do petróleo também acontece poucos dias depois de o mercado ter encontrado algum alívio. Francisco Queiroz, especialista da Consultoria Agro do Itaú BBA, destacou ao Notícias Agrícolas que o recuo recente de nutrientes como nitrogenados e potássio, combinado à valorização da soja e do milho, havia melhorado a relação de troca do produtor.

Na ocasião, porém, a aproximação do petróleo dos US$ 100 por barril já aparecia como um dos riscos para a continuidade daquele cenário. Desde então, a commodity ultrapassou esse patamar e voltou a acelerar.

O impacto potencial ganha relevância diante de margens já estreitas projetadas para a próxima segunda safra. O novo relatório do Projeto Custo de Produção Agropecuário de Mato Grosso (CPA-MT), desenvolvido pelo Senar-MT em parceria com o Imea, estima o custeio do milho de alta tecnologia em R$ 3.778,76 por hectare na temporada 2026/27, aumento de 13,83% frente ao ciclo anterior.

Os fertilizantes apresentam alta estimada de 4,12%, percentual inferior ao de outros componentes, mas continuam representando a maior parcela do custeio da lavoura. As operações mecanizadas, influenciadas pelo custo do diesel, sobem 11,50%.

O próprio relatório relembra a sensibilidade do mercado de fertilizantes às tensões externas. Durante o período de maior instabilidade no Oriente Médio neste ano, os preços dos nitrogenados no mercado interno chegaram a registrar alta superior a 30%. Após recuarem nos meses seguintes, voltaram a avançar em julho.

A preocupação aumenta porque a projeção econômica para o milho 2026/27 já oferece pouca margem para absorver novos custos. Considerando os atuais parâmetros de preço e produtividade, o CPA-MT estima receita bruta de R$ 5.388,93 por hectare e custo total de R$ 7.376,08 por hectare.

O LAJIDA projetado para a cultura fica em apenas R$ 122,26 por hectare, queda de 88,16% em relação à temporada anterior. O resultado permanece positivo dentro dessa métrica graças à produtividade de 119,64 sacas por hectare considerada no cenário do Imea, deixando o resultado também bastante sensível ao desempenho das lavouras.

Ao mesmo tempo, o governo brasileiro anunciou nesta semana uma subvenção de R$ 1,00 por litro para o diesel em um primeiro período, numa tentativa de amortecer no mercado doméstico parte da disparada internacional dos combustíveis. O valor poderá ser alterado, prorrogado ou interrompido conforme as condições de mercado.

A medida cria uma proteção direta para parte do custo do combustível utilizado dentro das propriedades e no transporte, mas não elimina a exposição dos fertilizantes importados às oscilações internacionais de energia, oferta, fretes e logística.

Por enquanto, portanto, a alta do petróleo acima dos US$ 105 representa um aumento do risco para o planejamento da safrinha, e não uma confirmação de novo repasse aos preços dos fertilizantes no Brasil.

O próximo ponto de atenção será justamente verificar se a nova escalada internacional começa a aparecer nas cotações dos nitrogenados, nos custos de frete, nos prazos de entrega ou na própria estratégia de compra dos produtores que ainda precisam fechar os insumos para o milho de 2027.

Por: Guilherme Dorigatti
Fonte: Notícias Agrícolas

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