Controvérsia sobre dado de inflação na Argentina alimenta temor de interferência política

Publicado em 06/02/2026 10:34 e atualizado em 06/02/2026 11:27

Por Leila Miller

BUENOS AIRES, 6 Fev (Reuters) - Os dados da inflação na Argentina se tornaram um ponto de conflito político após a renúncia abrupta, nesta semana, do chefe da agência nacional de estatísticas, que expôs tensões no cerne da estratégia econômica do presidente Javier Milei.

O ministro da Economia, Luis Caputo, reconheceu que a saída do chefe do Indec, Marco Lavagna, resultou de uma divergência sobre a decisão do governo Milei de adiar uma atualização da metodologia utilizada para calcular a inflação -- uma medida delicada em um país marcado por escândalos de manipulação de dados no passado.

A Argentina foi repreendida pelo Fundo Monetário Internacional (FMI) em 2013 por subnotificar seus números.

Parlamentares da oposição aproveitaram a renúncia de Lavagna para acusar o governo de tentar proteger a posição política de Milei.

"É um truque", disse a parlamentar Julia Strada à Reuters, afirmando que reduzir a inflação tem sido a "principal ferramenta" de Milei para aumentar sua popularidade.

A renúncia de Lavagna desencadeou um debate mais amplo sobre confiança e transparência, justamente quando Milei anuncia uma redução drástica da inflação mensal -- que antes chegava a dois dígitos -- para abaixo de 3%.

Embora o chefe do Indec seja nomeado pelo Poder Executivo, o cargo tradicionalmente opera sem interferência política, o que torna o incidente um sinal de alerta, de acordo com Marcelo Garcia, da consultoria Horizon Engage.

“O que me surpreendeu foi a veemência com que o governo afirmou que ele renunciou porque o presidente não concordava com uma política que este instituto, que deveria ser autônomo para tomar essas decisões profissionais, estava implementando”, disse Garcia.

Milei prometeu reduzir a inflação mensal para menos de 1% até agosto.

O Indec havia afirmado anteriormente que a nova metodologia seria implementada para os dados de janeiro. A metodologia atual baseia-se em uma pesquisa de gastos familiares de 2004.

Caputo declarou a uma estação de rádio local que a visão de Milei era a de não implementar a mudança "até que o processo de desinflação esteja consolidado". Ele não forneceu um novo cronograma.

Cinco fontes de mercado disseram à Reuters que a fórmula atualizada provavelmente teria mostrado uma taxa de inflação pelo menos ligeiramente superior.

O Ministério da Economia da Argentina recusou-se a comentar.

HISTÓRIA DA DÚVIDA

A credibilidade dos dados oficiais de inflação da Argentina foi abalada durante o governo peronista de esquerda do ex-presidente Néstor Kirchner e de sua esposa, a ex-presidente Cristina Kirchner, quando as autoridades foram acusadas de subestimar sistematicamente o crescimento dos preços.

A controvérsia começou em 2007, depois que Néstor Kirchner substituiu a equipe do Indec. Nos anos seguintes, os índices oficiais de inflação frequentemente ficavam abaixo da metade das estimativas de economistas do setor privado. Isso significava que a Argentina estava pagando menos juros em títulos indexados à inflação.

Os dados distorcidos afastaram os investidores estrangeiros e complicaram o retorno da Argentina aos mercados de crédito internacionais após o calote de 2001.

“Os investidores não só perderam a noção do que estava acontecendo na Argentina, como também foram enganados”, disse Aldo Abram, do think tank local Fundação Liberdade e Progresso.

Atualmente, os números da inflação divulgados pelo governo geralmente coincidem com as previsões de economistas independentes.

CICLOS DE INFLAÇÃO

A Argentina é conhecida por seus ciclos de alta inflação, que no passado levavam as pessoas a gastar seus pesos antes que perdessem valor em meio a flutuações de preços, muitas vezes diárias.

Embora Milei tenha sido elogiado por investidores e pelo FMI por controlar a inflação, o verdadeiro indicador econômico para alguns argentinos é o quanto seus pesos rendem.

Ailen Menta, de 31 anos, que trabalha em uma corretora de seguros, disse que seu poder de compra diminuiu sob a gestão de Milei.

Metade da renda dela agora é destinada ao aluguel, um aumento em relação aos cerca de 30% anteriores, desde que o governo reduziu drasticamente o controle de aluguéis.

Muitos outros inquilinos, no entanto, viram os preços caírem, já que os proprietários não precisaram mais estipular aluguéis iniciais altos para compensar o risco da inflação.

A renúncia de Lavagna reduziu a confiança que ela tinha na agência de estatísticas a "zero".

“Há algo que o governo não quer que saibamos”, disse Menta.

De acordo com a economista Laura Caullo, muitas pessoas ainda sentem os efeitos da forte alta da inflação, impulsionada pela desvalorização do peso e pelos cortes nos subsídios de gás e eletricidade anunciados por Milei em 2024.

A situação se estabilizou em 2025, "mas ninguém te devolve o que você perdeu antes", disse Caullo.

A reestruturação no Indec, no entanto, não abalou os apoiadores fiéis de Milei, que o elogiaram por estabilizar a economia.

"Estou tranquilo", disse Roberto Colliard, de 58 anos, funcionário de uma farmácia. "Em poucos dias os mercados se recuperarão, tudo voltará ao normal e vamos esquecer isso."

(Reportagem de Leila Miller; reportagem adicional de Jorge Otaola)

Fonte: Reuters

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