Sociedade brasileira não tolera inflação e isso é positivo para o BC, diz Galípolo
6 Abr (Reuters) - O presidente do Banco Central, Gabriel Galípolo, disse nesta segunda-feira que a sociedade brasileira deixou de ser tolerante à inflação e isso é positivo para a atuação da autoridade monetária, ressaltando não ter "nada melhor" para um banqueiro central do que essa vigilância da população contra a alta de preços.
Em evento promovido pela FGV, no Rio de Janeiro, Galípolo disse que banqueiros centrais não "apanham" mais apenas na hipótese de contribuírem para queda de popularidade ou perda de eleição de presidentes ao subirem demais os juros, mas também são criticados se cortam demais a taxa, com impacto potencial para a inflação.
Galípolo citou que banqueiros e membros do governo já avaliaram, inclusive, que o ex-presidente Jair Bolsonaro pode ter perdido a reeleição em 2022 porque o BC colocou os juros em patamar "muito baixo" durante a pandemia -- a Selic chegou a ficar em 2%.
"Essa não é mais a sociedade dos anos 80, e as pesquisas, todos os tipos de informação que a gente tem mostram que esta é uma sociedade que não tolera mais inflação", disse.
O BC iniciou um ciclo de "calibração" da Selic em março, ao reduzir a taxa em 0,25 ponto percentual, a 14,75% ao ano, defendendo que os juros sigam em nível restritivo e apontando elevação de incertezas com a guerra no Irã.
Galípolo citou uma dissonância nas sociedades, que apresentam sensação de desconforto apesar de dados econômicos positivos. Para ele, isso pode estar relacionado ao fato de bancos centrais focarem no patamar da inflação em relação à meta, enquanto as pessoas avaliam os níveis de preços, que subiram, por causa de choques recentes, em ritmo mais forte do que os salários.
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva, que tentará reeleição neste ano, enfrenta dificuldades em pesquisas de popularidade apesar de um cenário com inflação e desemprego em níveis historicamente baixos.
Na apresentação, Galípolo afirmou que a cautela na condução da política monetária permitiu à autarquia enfrentar em condição mais favorável o choque recente causado pela guerra no Irã.
O presidente do BC afirmou que essa cautela permitiu que o país tivesse um crescimento econômico mais próximo de seu potencial e uma taxa de câmbio “mais bem comportada”.
Ele ponderou que, por outro lado, há preocupação pelo fato de o país ainda ter um mercado de trabalho “bastante apertado” e expectativas de inflação desancoradas.
Galípolo reforçou que a ideia de cautela do BC diz respeito à estratégia de tomar tempo para conhecer melhor os problemas colocados no ambiente para "dar passos mais seguros". A autoridade monetária, nesse sentido, não sinalizou claramente quais serão os passos futuros para a Selic.
(Por Bernardo Caram e Rodrigo Viga Gaier, edição de Isabel Versiani)