Segundo turno: agro chega às urnas cobrando crédito, infraestrutura, competitividade e previsibilidade
O Brasil volta às urnas neste domingo (25) para escolher, entre Flávio Bolsonaro (PL) e Luiz Inácio Lula da Silva (PT), quem comandará o país pelos próximos quatro anos. A votação ocorre das 8h às 17h, pelo horário de Brasília, e a divulgação dos resultados começa após o encerramento das urnas.
Para o agronegócio, porém, a discussão que chega ao segundo turno começou muito antes da abertura das seções eleitorais.
Ao longo da campanha, o Notícias Agrícolas ouviu representantes de diferentes cadeias produtivas, da indústria e especialistas na série especial “E Agora, Presidente?”, buscando identificar quais problemas e prioridades deveriam entrar na agenda de quem assumir o Palácio do Planalto em 2027.
Foram 13 reportagens publicadas entre setembro e o período eleitoral, passando por milho, feijão, algodão, cana-de-açúcar, máquinas agrícolas, frutas, legumes e verduras (FLVs), etanol, cacau, arroz e insumos, além de discussões sobre ambiente econômico e político, diplomacia comercial e educação.
As demandas não são iguais — e em alguns casos partem de diagnósticos bastante diferentes. Quando analisadas em conjunto, porém, as reportagens mostram alguns temas recorrentes: custo e acesso ao capital, instrumentos de gestão de risco, infraestrutura, competitividade, previsibilidade das regras, comércio exterior e a necessidade de políticas que reconheçam as particularidades de cada cadeia.
No dia em que o país escolhe seu próximo presidente, o Notícias Agrícolas reúne os principais pontos dessa agenda.
Crédito aparece em diferentes cadeias, mas o problema não é igual para todos
O custo do dinheiro atravessa boa parte das demandas levantadas pela série.
No milho, representantes ouvidos pelo Notícias Agrícolas apontaram crédito, planejamento de longo prazo e infraestrutura entre os temas que precisam avançar. A discussão ganha ainda contornos regionais: no Sealba, por exemplo, seguro rural e Proagro apareceram à frente de outros gargalos para a continuidade da produção.
No arroz, produtores e indústria colocaram juros elevados, custos de produção e margens pressionadas entre os fatores que reduziram a competitividade da cadeia. Entre as demandas estão crédito mais barato, fortalecimento do seguro agrícola, melhorias logísticas, abertura de mercados e maior previsibilidade tributária e jurídica.
A pressão financeira também aparece no algodão, uma atividade intensiva em capital. A cadeia chama atenção para o peso dos juros, do endividamento acumulado e para a necessidade de preservar a competitividade durante a transição do sistema tributário.
Mas a série também mostrou por que “mais crédito” não funciona como resposta automática para todos.
Na indústria de máquinas agrícolas, a leitura apresentada pela Câmara Setorial de Máquinas Agrícolas da Abimaq foi diferente: havia recursos disponíveis em linhas oficiais, enquanto baixa rentabilidade do produtor e inadimplência aumentavam a seletividade dos bancos e dificultavam a renovação da frota.
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Seguro rural e gestão de risco entram na discussão antes mesmo de a safra chegar ao mercado
Se o crédito define parte da capacidade de produzir, o risco determina quanto dessa exposição o produtor consegue carregar.
No feijão, a demanda apresentada pela cadeia foi por uma política de longo prazo que articule crédito, seguro rural, pesquisa, assistência técnica, armazenagem, inteligência de mercado e instrumentos de comercialização. O diagnóstico é de que essas políticas ainda funcionam com pouca coordenação diante de uma cultura exposta simultaneamente à volatilidade dos preços e aos riscos climáticos.
No milho, o tema apareceu de maneira particularmente forte no Sealba, onde produtores colocaram seguro rural e Proagro entre as prioridades para o próximo governo.
Também na cana-de-açúcar, a proteção diante dos riscos climáticos aparece combinada à demanda por fortalecimento do seguro rural e mecanismos de financiamento para irrigação. A cadeia também aponta a renovação dos canaviais como uma necessidade para sustentar produtividade e ampliar investimentos no campo.
A discussão ganha peso num momento em que decisões políticas e econômicas já se misturam às da própria safra. Reportagem da série mostrou produtores tomando decisões sobre comercialização, câmbio, tecnologia e novos investimentos enquanto administram simultaneamente juros elevados, crédito mais restrito, margens apertadas e riscos climáticos.
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Da armazenagem à cadeia fria, infraestrutura muda de significado conforme o produto
Infraestrutura é outra cobrança recorrente, mas também não pode ser tratada como uma agenda única.
Para o milho, aparecem armazenagem, irrigação, rodovias, ferrovias e portos, com a avaliação de que a expansão da produção precisa ser acompanhada por investimentos que permitam armazenar e movimentar o volume colhido.
Para frutas, legumes e verduras, a corrida é também contra o relógio.
A série mostrou que a realidade dos perecíveis exige instrumentos específicos que passam por irrigação, crédito, seguro rural, cadeia fria, fiscalização, defesa fitossanitária, logística e inteligência de mercado.
A infraestrutura envolve não apenas estradas, portos e aeroportos, mas também packing houses, câmaras frias, áreas refrigeradas, disponibilidade de tomadas para contêineres e fiscalização capaz de evitar atrasos que comprometam qualidade e valor do produto.
Nesse caso, a produtividade não termina na lavoura: conservar aquilo que foi produzido até a chegada ao comprador faz parte da própria rentabilidade da atividade.
No arroz, custos logísticos também aparecem entre os fatores que pesam sobre a competitividade da cadeia, especialmente diante da concorrência de países vizinhos.
Competitividade depende também das regras fora da porteira
Outro ponto que atravessa diferentes reportagens é a busca por maior previsibilidade para investir e competir.
No algodão, a transição tributária entrou no centro da discussão pela necessidade de evitar acúmulo de créditos ou custos residuais em uma cadeia fortemente exportadora, que disputa mercado internacional e não consegue transferir ineficiências domésticas ao comprador estrangeiro.
Na indústria de máquinas agrícolas, a avaliação apresentada à série foi de que a reforma tributária pode melhorar a competitividade ao reduzir a cumulatividade de impostos e permitir aproveitamento mais rápido de créditos sobre investimentos. Paralelamente, o setor também se prepara para exigências de redução de emissões e desenvolve alternativas ao diesel, como motores a etanol, biodiesel, baterias e gás metano.
Na cana-de-açúcar, as demandas incluem juros menores, regras claras para novos investimentos e um ambiente que não provoque distorções na concorrência entre combustíveis. A cadeia também cobra condições para ampliar o mercado consumidor do etanol à medida que cresce a capacidade de produção brasileira.
O etanol levou ao debate a segurança jurídica e a previsibilidade das políticas para biocombustíveis. O setor cobra condições para ampliar a demanda para outras regiões do país, reduzir custos logísticos, avançar na equalização tributária entre estados e sustentar investimentos, além de maior equilíbrio entre políticas direcionadas a combustíveis fósseis e renováveis.
No arroz, a previsibilidade volta a aparecer tanto pelo lado tributário quanto jurídico, combinada à necessidade de recuperar competitividade da produção e da indústria.
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Fertilizantes e defensivos colocam dependência externa no radar
A relação do Brasil com os insumos utilizados na produção também entrou na lista de cobranças.
Na reportagem dedicada ao tema, fertilizantes e defensivos aparecem sob desafios diferentes.
No primeiro caso, a elevada participação de produtos importados aumenta a exposição do país a choques internacionais de preços, oferta e logística. Entre os caminhos apontados estão estímulos à produção doméstica, diversificação de fornecedores e condições mais competitivas para matérias-primas utilizadas pela indústria brasileira, incluindo gás natural e enxofre.
A infraestrutura portuária, ferroviária e rodoviária também entra nessa agenda, já que gargalos logísticos podem dificultar a chegada dos fertilizantes ao campo justamente nos períodos de maior demanda.
Na proteção de cultivos, a discussão passa por ambiente regulatório, inovação e acesso do produtor às tecnologias disponíveis. O setor cobra processos mais previsíveis para avaliação e registro, avanço na regulamentação dos marcos de defensivos e bioinsumos e maior integração entre os órgãos envolvidos.
Também aparecem entre as prioridades o combate ao mercado ilegal, a rastreabilidade dos produtos, crédito e segurança jurídica.
Produzir não basta: agro cobra mercados e diplomacia comercial
As demandas levantadas pela série não terminam na porteira nem nos portos brasileiros.
No algodão, preservar uma política comercial aberta e previsível e continuar diversificando destinos é considerado importante para manter a posição conquistada pelo Brasil no mercado internacional.
Arroz e etanol também colocaram a abertura de mercados entre as pautas para os próximos anos.
Em uma discussão mais ampla sobre o papel brasileiro no comércio mundial de alimentos, o ex-ministro da Agricultura Antônio Cabrera defendeu ao Notícias Agrícolas uma atuação mais ativa da diplomacia comercial brasileira, tanto para conquistar acesso em condições competitivas quanto para participar da construção das regras que afetam o comércio agrícola.
A cobrança também passa por agregar mais valor à produção dentro do Brasil, ampliando a transformação industrial das matérias-primas antes da exportação.
Uma política agrícola não cabe em todas as cadeias
Talvez uma das mensagens mais claras do conjunto de reportagens seja justamente a dificuldade de tratar o agronegócio brasileiro como uma atividade homogênea.
No milho, as prioridades mudam conforme a região produtora. Enquanto representação nacional aponta problemas estruturais de armazenagem, irrigação e logística, produtores do Sealba colocam seguro e Proagro no topo da lista.
Nos FLVs, as especificidades são ainda mais evidentes. Perecibilidade, temperatura, aparência, tempo entre colheita e consumo, irrigação, cultivo protegido e estrutura de pós-colheita exigem instrumentos diferentes daqueles desenhados para grandes commodities.
No cacau, a agenda apresentada pela indústria passa pelo aumento sustentável da produção com produtividade, assistência técnica, sanidade vegetal, resiliência climática e financiamento, mas também por condições que preservem a competitividade da indústria processadora.
Entre as demandas estão acompanhar a transição da reforma tributária para preservar neutralidade fiscal e capital de giro, fortalecer a defesa fitossanitária baseada em critérios técnicos e manter mecanismos como o drawback para complementar o abastecimento de amêndoas sem desestimular a produção nacional.
A própria cadeia do feijão argumenta que políticas existentes precisam funcionar de maneira mais coordenada para uma cultura marcada por forte volatilidade de preços e riscos produtivos.
O desafio que emerge dessas diferentes experiências é construir políticas nacionais sem ignorar ciclos produtivos, riscos, estruturas de mercado e necessidades regionais distintas.
A agenda chega também às escolas e à relação entre campo e sociedade
A série “E Agora, Presidente?” ampliou a discussão para além das políticas diretamente ligadas à produção e ao mercado.
A associação De Olho no Material Escolar defendeu atualização mais rápida dos conteúdos didáticos relacionados ao agronegócio, formação continuada de professores e maior aproximação entre estudantes, ciência e realidade produtiva do campo.
A cobrança parte da avaliação de que as mudanças tecnológicas e científicas da agropecuária avançam em velocidade maior do que a atualização de parte dos materiais utilizados em sala de aula.
Da cobrança à escolha
Neste domingo, essas demandas chegam a uma nova etapa. O Notícias Agrícolas já comparou as propostas dos dois candidatos para crédito rural, seguro, fertilizantes, infraestrutura, tributação, comércio exterior, tecnologia, meio ambiente, política fundiária e outras áreas diretamente relacionadas ao setor.
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A série “E Agora, Presidente?” oferece o outro lado dessa equação: aquilo que diferentes setores disseram precisar do poder público antes de saber quem ocuparia o Palácio do Planalto.
Crédito aparece, mas não da mesma forma para todos. Infraestrutura pode significar ferrovia para uma cadeia e câmara fria para outra. Seguro rural pode ser um instrumento complementar em uma região e condição para continuar produzindo em outra. Comércio exterior envolve abrir mercados, mas também competir em condições semelhantes às de outras origens.
O resultado das urnas definirá quem assumirá a Presidência da República em janeiro de 2027. A partir daí, muda a pergunta. Depois de semanas perguntando “E agora, presidente?”, o setor passará a acompanhar quais dessas cobranças chegarão, de fato, à agenda do próximo governo.