Taxas dos DIs sobem com temores sobre rumos da economia no novo governo Lula
Por Igor Sodre
SÃO PAULO, 3 Nov (Reuters) - As taxas dos DIs subiram nesta terça-feira, em meio a temores do mercado sobre a possível agenda econômica do novo governo de Luiz Inácio Lula da Silva, enquanto os agentes se preparam para o anúncio da decisão de juros do Banco Central nesta semana.
No fim da tarde, a taxa do DI (Depósito Interfinanceiro) para janeiro de 2028 estava em 14,57%, ante o ajuste de 14,48% da véspera. Já a taxa do DI para janeiro de 2035 estava em 15,4%, com elevação ante 15,332% da sessão anterior.
No fim de semana, uma notícia publicada na coluna de Lauro Jardim, do jornal O Globo, dizendo que o presidente Lula se encontraria com André Lara Resende, um dos criadores do Plano Real, gerou preocupações entre os investidores.
Recentemente, Lara Resende publicou um texto no qual defende uma mudança na condução das políticas fiscal e monetária que incluiria a redução programada e gradual da Selic a 7,5% ao ano em 12 meses para reduzir a dívida pública e ajustar as contas do governo sem grandes cortes de gastos. O plano também propõe o uso de parte das reservas internacionais para conter pressões sobre o real.
A informação não foi bem recebida pelo mercado, com analistas argumentando que as medidas poderiam gerar efeito oposto ao esperado, pressionando ainda mais a inflação e impondo risco às reservas internacionais.
Mais cedo nesta terça-feira o ministro da Fazenda, Dario Durigan, disse que a proposta de Lara Resende tem "deficiências" e não está na mesa de discussão do governo, reforçando a defesa de um ajuste fiscal gradual. Durigan também afirmou que ainda não teve a oportunidade de conversar com Lula sobre novas indicações para o BC, mas afirmou que as nomeações de novos diretores serão feitas com "rigor técnico" e com "diferentes perfis".
Em meio às incertezas, as taxas dos DIs operaram em alta consistente ao longo da sessão, principalmente na ponta longa da curva.
"Enquanto não houver clareza sobre a condução da economia e sobre a regra de gastos, o ajuste aparece primeiro no câmbio e nos juros longos", disse o CEO da Trade Arena, Gabriel Jardim.
Ao mesmo tempo, os agentes também se preparavam para a decisão de juros do Copom, na quarta-feira.
Relatório Focus divulgado mais cedo mostrou que os economistas consultados pelo Banco Central ainda esperam um corte de 0,25 ponto percentual da Selic na quarta-feira, mas elevaram a projeção para a taxa no final do ano para 13,50%, de 13,25% antes. Já pesquisa da Reuters apontou a expectativa de manutenção da Selic no nível atual de 13,75% esta semana, após forte reação negativa dos mercados à reeleição de Lula.
"Há uma diferença entre a possibilidade de um corte nesta reunião e as condições para a continuidade do ciclo. Mesmo com algum espaço na ponta curta para uma redução imediata, a forte alta dos juros longos sinaliza um cenário que pode interromper o processo de cortes", disse Marcos Praça, diretor de análise da Zero Markets Brasil.
No mercado externo, os rendimentos dos Treasuries operaram em alta ao longo da sessão, enquanto o mercado monitorava as eleições de meio de mandato dos Estados Unidos, que podem levar a uma mudança no controle do Congresso norte-americano.
Às 16h52, o rendimento do Treasury de dez anos US10YT=RR --referência global para decisões de investimento-- subia 5 pontos-base, a 4,946%.