Soja e grãos despencam em Chicago nesta 5ª com realização de lucros e possível alívio no Mar Negro
Os mercados de soja e grãos despencam na Bolsa de Chicago nesta nesta quinta-feira (3), em uma sessão marcada por uma ampla liquidação de posições e realizações de lucros entre as principais commodities agrícolas. Além da oleaginosa, do milho e trigo também recuam com força os derivados de soja, especialmente o óleo - pressionando o complexo - e também as soft commodities na Bolsa de Nova York. Café, açúcar e algodão caem de forma expressiva na bolsa norte-americana.
O movimento ocorre após a forte valorização registrada recentemente por parte dos grãos e reflete uma combinação de realização de lucros, pressão técnica e mudança na percepção dos riscos de oferta no mercado internacional, segundo explicam analistas e consultores de mercado.
Os futuros da soja, por volta de 7h50 (horário de Brasília), perdiam de 11 a 14,75 pontos, levando o novembro a US$ 12,99 e o março a US$ 13,19 por bushel. No mesmo momento, o milho perdia mais de 11 pontos nas posições mais negociadas, enquanto o trigo, liderando o movimento de recuo, perdia quase 30 pontos nos principais contratos.
No caso da soja, a fraqueza dos derivados ampliava a pressão sobos contratos. O óleo de soja, que caia mais de 1,5% nesta manhã de quinta-feira, perdia forla em meio à redução das expectativas de suporte vindo do mercado de energia, apesar de ganhos de mais de 1% do petróleo hoje. O farelo também opera pressionado e vem devolvendo parte das altas acumuladas nos últimos dias.
Ao mesmo tempo, o mercado passa a observar com maior atenção a possibilidade de uma redução das tensões no Mar Negro, especialmente depois de novas sinalizações relacionadas às negociações entre Rússia e Ucrânia.
RÚSSIA VOLTA A FALAR EM ACORDO DE PAZ
Um dos principais pontos de atenção nesta quinta-feira vem diretamente de Moscou. O presidente russo, Vladimir Putin, afirmou nesta quinta-feira que existe uma possibilidade de um acordo de paz para encerrar a guerra na Ucrânia. A declaração representa uma sinalização relevante para os mercados, embora Putin também tenha ressaltado que a retomada das negociações está mais difícil diante das recentes ações ucranianas.
Segundo a Reuters, Putin afirmou que Estados Unidos e China apoiam uma solução negociada e que a definição de um acordo dependerá de Rússia e Ucrânia. Ao mesmo tempo, o líder russo criticou ataques ucranianos contra embarcações e a recomendação de Kiev para que aeronaves civis evitem o espaço aéreo russo.
A declaração ocorre em um momento em que as conversas diretas entre Moscou e Kiev permanecem paralisadas desde fevereiro, apesar da manutenção de contatos por meio de intermediários e de esforços diplomáticos liderados pelos Estados Unidos. Além disso, ainda neste mês de setembro, a Rússia vive eleições legislativas, movimento que também é acompanhando bastante de perto pelos mercados.
Na última semana, autoridades ucranianas também haviam indicado a possibilidade de retomada de conversas técnicas, mas alertaram que não havia expectativa de uma solução rápida. Um dos principais obstáculos continua sendo a questão territorial: a Rússia mantém exigências envolvendo o Donbas, enquanto a Ucrânia rejeita abrir mão de territórios sob seu controle.
EFEITO DIRETO SOBRE O TRIGO E DEMAIS GRÃOS
A possibilidade de avanço diplomático é especialmente importante para o trigo, commodity que possui exposição muito maior à região do Mar Negro. Nas últimas sessões, o trigo em Chicago chegou a renovar máximas em muitos anos, diante das preocupações com ataques contra infraestrutura e embarcações ligadas ao comércio de grãos na região. A escalada das tensões vinha aumentando o risco sobre os embarques russos e ucranianos.
O movimento também ocorre enquanto compradores asiáticos procuram fornecedores alternativos para substituir cargas russas e ucranianas afetadas pelas incertezas no Mar Negro. A Reuters informou nesta quinta-feira que pelo menos 500 mil toneladas de trigo foram adquiridas recentemente de Austrália e Argentina para compensar atrasos nos embarques da região.
Isso mostra que, apesar da possibilidade de uma distensão diplomática, o risco logístico ainda não desapareceu e, para alguns analistas, nem ao menos foi completamente precificado ainda.
É justamente essa diferença que o mercado precisa considerar. A fala de Putin, como explicaram analistas e consultores de mercado internacionais, é positiva do ponto de vista diplomático e pode contribuir para a retirada de parte do prêmio de risco incorporado às commodities. Porém, não há um acordo de paz firmado entre as duas nações e nem um cessar-fogo amplo em vigor, os ataques continuam e a segurança da navegação no Mar Negro permanece uma preocupação.
Além disso, a Rússia também rejeitou, até agora, a retomada do antigo acordo de exportação de grãos pelo Mar Negro mediado por Turquia e ONU.
Nos Estados Unidos, Donald Trump também afirmou nesta quinta-feira estar disposto a realizar uma nova reunião com Putin, desde que Moscou esteja preparada para avançar em direção a um acordo de paz.
Assim, o cenário atual pode ser resumido como maior atividade diplomática, mas ainda sem solução concreta para a guerra. O mercado, portanto, passa a acompanhar dois movimentos simultaneamente, havendo, de um lado, a possibilidade de uma solução diplomática para a guerra entre Rússia e Ucrânia e, de outro, a capacidade de Rússia e Ucrânia efetivamente transformarem as atuais sinalizações em cessar-fogo e retomada segura dos fluxos de grãos pelo Mar Negro. Por enquanto, a primeira sinalização apareceu, mas o acordo ainda não.