Açúcar dispara nas bolsas com preocupações sobre a oferta global e o clima na Índia
Os preços do açúcar encerraram a sessão desta segunda-feira (3) em forte alta nas principais bolsas internacionais, sustentados pela perspectiva de um mercado global mais apertado nos próximos meses e pelas preocupações com a safra da Índia.
Na Bolsa de Nova Iorque (ICE Futures US), o contrato outubro fechou cotado a 15,01 cents de dólar por libra-peso, com alta de 35 pontos, alcançando o maior nível em três semanas. Em Londres (ICE Europe), o contrato outubro do açúcar branco encerrou o dia a US$ 469,50 por tonelada, avanço de 790 pontos e maior cotação em duas semanas.
O principal fator de sustentação do mercado continua sendo a revisão das projeções para o balanço global de açúcar. Nesta segunda-feira, a Covrig Analytics passou a estimar um déficit de 300 mil toneladas na safra 2026/27, revertendo a previsão divulgada em junho, que indicava um superávit de 100 mil toneladas.
A nova estimativa reforça um movimento observado nos últimos dias por outras consultorias. Na semana passada, a Green Pool Commodity Specialists elevou sua projeção de déficit global para 3,3 milhões de toneladas, ante 1,76 milhão estimado anteriormente. Já a StoneX revisou sua previsão para um déficit de 1,7 milhão de toneladas, acima dos 550 mil toneladas projetados em maio.
Clima na Índia segue no radar
Além das projeções para a oferta mundial, os investidores continuam atentos às condições climáticas na Índia. Na última sexta-feira, o Departamento Meteorológico do país informou que as chuvas de monção entre agosto e setembro devem ficar abaixo da média, aumentando as preocupações com o desenvolvimento da safra de cana-de-açúcar.
O Ministério de Ciências da Terra da Índia também mantém o alerta de que esta poderá ser a temporada de monções mais fraca dos últimos 11 anos. Embora o acumulado de chuvas tenha melhorado, passando de um déficit de 42% no fim de junho para 12% abaixo da média até 3 de agosto, o mercado segue monitorando o comportamento das precipitações durante o período mais importante para o desenvolvimento da cultura, que vai de junho a setembro.
El Niño reforça preocupação com oferta
Outro fator que continua oferecendo suporte às cotações é a possibilidade de impactos do fenômeno El Niño sobre a produção mundial de açúcar. O evento climático pode reduzir as chuvas em importantes regiões produtoras, como Brasil, Índia e Tailândia, comprometendo a produtividade dos canaviais.
No início de julho, o Centro de Previsão Climática dos Estados Unidos informou que o El Niño formado no Oceano Pacífico Equatorial poderá ser um dos mais intensos das últimas décadas. Paralelamente, o serviço meteorológico indiano reduziu sua previsão para as chuvas da temporada de monções para 90% da média histórica, abaixo dos 92% estimados anteriormente.
Mercado pode entrar em déficit em 2026/27
As perspectivas para o balanço mundial seguem indicando um cenário de menor disponibilidade da commodity. Pesquisa da Reuters com 11 operadores e analistas aponta que os contratos futuros do açúcar bruto na ICE devem encerrar o ano próximos de 15 cents de dólar por libra-peso, cerca de 4% acima dos níveis atuais.
Segundo a sondagem, o mercado deve passar de um superávit de 4,78 milhões de toneladas na safra 2025/26 para um déficit de aproximadamente 800 mil toneladas em 2026/27.
"Com as perdas relacionadas ao clima já evidentes e as condições adversas no Hemisfério Norte previstas para se intensificarem devido ao El Niño, projeta-se que o balanço global do açúcar passe a apresentar déficit em 2026/27", afirmou Livea Coda, analista da Hedgepoint.
Para o Centro-Sul do Brasil, os participantes da pesquisa estimam produção de 40 milhões de toneladas de açúcar na safra 2026/27, ligeiramente abaixo das 40,43 milhões de toneladas do ciclo anterior. Apesar da expectativa de aumento da moagem para 638 milhões de toneladas de cana, apenas 47% da matéria-prima deverá ser destinada à fabricação de açúcar, percentual inferior aos cerca de 50,3% da safra passada, refletindo a maior atratividade da produção de etanol.
Na Índia, a estimativa mediana aponta produção de 29,4 milhões de toneladas na próxima safra, acima das 28,1 milhões previstas para 2025/26. Já para o açúcar branco negociado em Londres, a expectativa é de encerramento do ano em torno de US$ 479 por tonelada, o que representa potencial de valorização de aproximadamente 12% em relação ao fechamento do ano anterior.