Açúcar fecha em forte alta pelo 2º dia e alcança maiores níveis em meses
Os preços do açúcar fecharam em forte alta pelo segundo dia consecutivo nesta quarta-feira (2), com o contrato de outubro em Nova Iorque atingindo o maior nível em quase 16 meses. Em Londres, a mesma referência avançou para a maior cotação em uma semana, em meio à crescente preocupação dos investidores com a oferta global para a safra 2026/27.
Em Nova Iorque o contrato outubro fechou com alta de 34 pontos, a 18,70 cents por libra-peso. Já em Londres, o vencimento outubro avançou 520 pontos, encerrando a sessão a US$ 539,20 por tonelada.
Déficit global dá suporte às cotações
O principal fator de sustentação do mercado continua sendo a mudança nas perspectivas para o balanço mundial de açúcar. Na terça-feira (1º), a Organização Internacional do Açúcar (ISO) projetou déficit global de 200 mil toneladas para a safra 2026/27, após estimar um superávit de 1,1 milhão de toneladas na temporada 2025/26.
Para a próxima safra, a entidade prevê produção mundial de 180,1 milhões de toneladas, queda de 1% em relação ao ciclo anterior. Entre os riscos considerados pela ISO estão os possíveis impactos do fenômeno El Niño sobre as lavouras de Índia e Tailândia.
A expectativa de uma oferta mais restrita também aparece nas projeções de outras consultorias. A Green Pool Commodity Specialists estima déficit de 3,2 milhões de toneladas em 2026/27 e reduziu sua projeção de superávit para 2025/26 de 4,93 milhões para 4,85 milhões de toneladas.
A Covrig Analytics, por sua vez, passou a projetar déficit de 300 mil toneladas para 2026/27, revertendo uma previsão anterior de superávit de 100 mil toneladas. Já a StoneX elevou sua estimativa de déficit de 550 mil para 1,7 milhão de toneladas.
A Czarnikow também revisou sua projeção, passando de um superávit de 1,4 milhão de toneladas para um déficit de 100 mil toneladas. Entre os fatores considerados está o maior direcionamento da cana brasileira para a produção de etanol.
Europa reduz expectativa de produção
A produção europeia também contribui para o cenário de oferta mais apertada. O Observatório do Mercado de Açúcar da União Europeia estima que a produção do bloco em 2026/27 caia 19%, para 13,4 milhões de toneladas.
A redução está relacionada às condições climáticas adversas enfrentadas pelas lavouras de beterraba, principalmente diante de períodos de seca e temperaturas elevadas.
Dados da S&P Global Energy indicam que a produção de açúcar da União Europeia e do Reino Unido pode recuar para 14,98 milhões de toneladas, o menor nível em 11 anos.
As perspectivas para as temporadas seguintes também são de atenção. A Czarnikow prevê déficit global de 2,9 milhões de toneladas em 2027/28, enquanto a produção mundial poderia cair 0,7%, para 177 milhões de toneladas, em meio principalmente aos impactos climáticos na Índia, União Europeia e Tailândia e à redução das áreas plantadas com cana e beterraba.
Índia permanece no radar
As condições de produção na Índia também seguem influenciando o mercado. O Departamento Meteorológico do país informou nesta quarta-feira que as chuvas acumuladas da temporada de monções estavam 13% abaixo da média até 2 de setembro.
Apesar de a diferença ter diminuído consideravelmente em relação ao déficit de 42% registrado em 30 de junho, o cenário ainda gera preocupação. O Ministério de Ciências da Terra da Índia chegou a alertar que a monção deste ano pode ser a mais fraca em 11 anos.
A Índia é o segundo maior produtor mundial de açúcar e tradicionalmente ocupa uma posição exportadora. Por isso, a possibilidade de necessidade de importações chama atenção no mercado internacional.
Em 20 de agosto, a Direção-Geral de Comércio Exterior da Índia autorizou a importação de até 1 milhão de toneladas de açúcar bruto, sem impostos, até 31 de outubro. O movimento é relevante porque o país não realiza importações significativas desde a safra 2017/18.
Fundos aumentam posições compradas
O posicionamento dos fundos também merece atenção diante da sequência de altas. Os dados semanais do Commitment of Traders (COT) mostraram que os fundos elevaram em 2.830 contratos suas posições líquidas compradas em açúcar branco negociado em Londres na semana encerrada em 25 de agosto.
O saldo chegou a 70.766 posições líquidas compradas, o maior nível desde o início da série histórica, em 2011.
Uma concentração elevada de posições compradas pode aumentar a volatilidade do mercado. Caso os preços percam força, uma eventual realização de lucros pelos investidores pode ampliar os movimentos de queda.
Brasil e El Niño seguem no foco
No Brasil, maior produtor mundial de açúcar, os dados de produção também contribuem para o cenário de suporte aos preços. A União da Indústria de Cana-de-Açúcar e Bioenergia (Unica) informou que a produção de açúcar no Centro-Sul caiu 26,3% em junho, para 3,903 milhões de toneladas.
Além do volume produzido, o direcionamento da cana entre açúcar e etanol continua sendo determinante para a oferta disponível no mercado internacional. Com maior atratividade do etanol, as usinas podem destinar uma parcela maior da matéria-prima ao biocombustível, reduzindo a produção de açúcar.
O clima também permanece entre os principais fatores de risco. A possibilidade de um El Niño mais intenso aumenta as preocupações com a oferta das principais regiões produtoras, já que o fenômeno pode alterar o regime de chuvas no Brasil, Índia e Tailândia.
Para 2025/26, a ISO ainda prevê uma produção mundial recorde de 182 milhões de toneladas, alta de 3,5% em relação ao ciclo anterior, e superávit de 1,1 milhão de toneladas. A perspectiva muda na temporada seguinte, quando a produção deve recuar para 180,1 milhões de toneladas e o mercado passar a um déficit de 200 mil toneladas.
Com a combinação de menor produção esperada em importantes origens, riscos climáticos e projeções de déficit para a próxima safra, o açúcar mantém trajetória positiva nas bolsas internacionais, enquanto os investidores acompanham os próximos dados de produção e clima para avaliar a disponibilidade global da commodity.