Mais cana, menos açúcar: clima limita resposta das usinas mesmo com açúcar mais rentável

Publicado em 07/09/2026 07:00 e atualizado em 07/09/2026 07:35
Cenário de preços favorece o açúcar, mas clima e qualidade da matéria-prima dificultam uma mudança mais rápida no direcionamento da cana

A safra brasileira de cana-de-açúcar 2026/27 caminha para ter mais matéria-prima disponível, mas não necessariamente mais açúcar. O segundo levantamento da Companhia Nacional de Abastecimento (Conab), divulgado em agosto, elevou a estimativa de produção de cana para 705,2 milhões de toneladas, alta de 4,7% em relação ao ciclo anterior. Apesar disso, a produção de açúcar é projetada em 42,89 milhões de toneladas, queda de 2,9%, enquanto o etanol de cana deve alcançar 29,98 bilhões de litros, crescimento de 9,7%.

À primeira vista, os números poderiam indicar uma mudança na estratégia das usinas, com maior direcionamento da matéria-prima para o etanol. Mas, na avaliação de Lívia Coda, especialista de mercado da Hedgepoint, a leitura não é tão simples. Segundo ela, o cenário atual é resultado principalmente das condições da safra, e não de uma decisão estrutural de priorizar o biocombustível.

“Os números divulgados pela Conab não necessariamente refletem uma decisão estratégica de direcionar mais cana para o etanol, mas sim as restrições impostas pelas condições da safra”, explica Lívia.

Açúcar voltou a remunerar mais que o etanol

No início do ciclo, o cenário era diferente. Com ampla disponibilidade global de açúcar, o etanol chegou a apresentar uma remuneração mais atrativa para as usinas, favorecendo uma redução do mix açucareiro já em abril.

De acordo com Lívia, o quadro começou a mudar com o avanço das preocupações climáticas no Hemisfério Norte. O desenvolvimento de um El Niño forte aumentou os riscos para a produção de importantes produtores de açúcar, como Índia e Tailândia, enquanto o excesso de chuvas no Centro-Sul brasileiro prejudicou o ritmo da moagem.

Com isso, os preços do açúcar recuperaram competitividade frente ao etanol.

“Diante desse contexto, os preços do açúcar recuperaram competitividade em relação ao etanol, tornando racional a busca por uma maior produção do adoçante”, afirma.

O problema é que as usinas não conseguiram responder integralmente a esse sinal de mercado. A continuidade das chuvas dificultou o avanço da colheita e também afetou a concentração de sacarose na matéria-prima.

“A persistência de condições mais úmidas afetou não apenas o avanço da safra, mas também a concentração de sacarose na cana, ATR reduzido, restringindo a capacidade das usinas de ampliar o mix açucareiro”, explica a especialista.

Na prática, portanto, o açúcar está mais rentável, mas as condições agronômicas não permitem que as usinas aproveitem completamente essa vantagem.

Atualmente, segundo Lívia, a diferença de remuneração continua favorável ao açúcar. Na comparação entre o etanol hidratado B3 e o açúcar negociado em Nova Iorque, o adoçante apresenta prêmio de aproximadamente 3 centavos de dólar por libra-peso. Mesmo considerando um prêmio de 14% para o etanol anidro sobre o hidratado, o açúcar ainda mantém vantagem econômica próxima de 1 centavo de dólar por libra-peso.

“Os sinais de mercado seguem favorecendo a produção de açúcar em detrimento do etanol e o menor mix observado é relativo às condições de colheita”, resume.

E32 aumenta demanda por etanol, mas não muda o mix

A entrada em vigor da mistura E32, com 32% de etanol anidro na gasolina, adicionou um novo componente à equação do setor. A expectativa era de que o aumento da demanda por anidro pudesse estimular as usinas a direcionar mais cana para o biocombustível.

Para Lívia, porém, esse efeito não deve ser suficiente para alterar significativamente a escolha entre açúcar e etanol nesta safra.

“Não acreditamos que a medida tenha potencial para alterar a decisão de mix das usinas, produz-se mais etanol do que o desejado como consequência e não por escolha”, afirma.

Segundo a especialista, a oferta projetada de etanol para a temporada é elevada e não representa, neste momento, um risco de falta de biocombustível. A mudança provocada pelo E32 tende a aparecer mais dentro do próprio mercado de etanol, na proporção entre anidro e hidratado, conforme a demanda nas bombas evolua.

“Mais do que um impacto sobre o direcionamento da cana entre açúcar e etanol, a medida tende a influenciar a distribuição da produção dentro do próprio complexo do etanol, alterando a participação relativa de anidro e hidratado conforme os sinais de mercado”, explica.

A avaliação da Hedgepoint é de que, considerando um mix açucareiro entre 47% e 47,5% no Centro-Sul e crescimento de 2,7% do ciclo Otto, a oferta de etanol seria suficiente para atender à demanda sem necessidade de novos ajustes relevantes na alocação de cana.

Índia reforça suporte ao açúcar

Enquanto o E32 amplia a demanda potencial por etanol, o mercado internacional ganhou um novo fator de sustentação para o açúcar com a decisão da Índia de autorizar a importação de até 1 milhão de toneladas de açúcar bruto sem tarifa.

Para Lívia, a abertura indiana reforça um movimento que já vinha acontecendo no mercado internacional por causa das preocupações com a produção do país asiático.

“Parte da recuperação dos preços do açúcar foi impulsionada pelo desenvolvimento do super El Niño, cujos efeitos sobre a safra 2026/27 da Índia já começaram a ser observados”, afirma.

A possibilidade de compras indianas, segundo ela, aumenta a percepção de um mercado internacional mais apertado e ajuda a sustentar os preços no curto prazo.

O movimento também abre espaço para o Brasil ampliar suas exportações. Lívia avalia que há volume disponível e capacidade de exportação para atender uma eventual demanda adicional da Índia.

“Não vemos restrições relevantes de oferta, mas sim desafios operacionais associados às condições climáticas”, diz.

O principal obstáculo, novamente, está nas chuvas, que podem comprometer o ritmo de colheita e a logística. Ainda assim, a especialista destaca que a paridade de exportação brasileira permanece positiva, mantendo o incentivo para direcionar açúcar ao mercado externo.

Preços sobem, mas clima impede uma resposta maior

A valorização do açúcar ganhou força em agosto e continuou no início de setembro, aumentando a atratividade econômica da produção do adoçante. Para Lívia, essa sinalização de preços é clara: a decisão racional das usinas seria trabalhar com um mix mais açucareiro.

“Do ponto de vista econômico, a decisão racional seria ampliar o mix açucareiro, aproximando-o dos maiores níveis historicamente observados para as quinzenas restantes da safra”, afirma.

Mas, novamente, existe uma diferença entre o que o mercado sinaliza e o que a usina consegue efetivamente fazer.

“A migração do mix para níveis mais elevados ainda não se refletiu, ao menos na intensidade esperada, nos dados quinzenais divulgados pela Unica nem nos números publicados pelo MAPA”, explica.

Para ela, as condições climáticas e agronômicas continuam impedindo que o setor capture integralmente a oportunidade oferecida pelos preços.

Mais cana não significa mudança estrutural no mix

Nesse cenário, a queda projetada na produção de açúcar, apesar da maior oferta de cana, não deve ser interpretada como uma mudança estrutural na estratégia do setor sucroenergético.

“Esse resultado representa muito mais uma fotografia da safra atual do que uma mudança estrutural de estratégia”, avalia Lívia.

A especialista destaca que a flexibilidade industrial permite às usinas ajustar o mix de acordo com os preços relativos entre açúcar e etanol. No entanto, essa capacidade de resposta depende das condições operacionais e agronômicas.

“Quando o mix observado se distancia do economicamente mais atrativo, isso nem sempre reflete uma escolha deliberada das usinas, mas pode ser consequência das limitações impostas pelas condições da safra”, completa.

 

Por: Andréia Marques
Fonte: Notícias Agrícolas

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