Doenças e clima impõem novos desafios ao trigo no Brasil; Zarc se consolida como ferramenta estratégica no campo

Publicado em 18/02/2026 06:29 e atualizado em 18/02/2026 08:39
Com avanço de manchas foliares, podridões radiculares e perdas de qualidade por excesso de chuva, especialistas reforçam que seguir o zoneamento agrícola é decisivo para reduzir riscos e garantir rentabilidade ao produtor.

O avanço das doenças no trigo e a maior irregularidade climática têm ampliado os desafios para o produtor brasileiro. Manchas foliares, podridões radiculares e perdas de qualidade por excesso de chuva na fase de colheita vêm impactando produtividade e preço recebido, especialmente na Região Sul, onde não há uma estação seca bem definida durante a maturação do cereal.

Nesse cenário, o Protocolo do Zoneamento Agrícola de Risco Climático, o Zarc, tem ganhado protagonismo como ferramenta central de gestão. Segundo o agrometeorologista Gilberto Cunha, da Embrapa Trigo, a primeira decisão para quem deseja reduzir riscos na cultura é clara: seguir rigorosamente as orientações do zoneamento.

“O produtor precisa olhar estado, município, tipo de solo da área e a cultivar escolhida. A partir disso, verificar quais são os períodos de semeadura de menor risco indicados pelo Zarc. Essa é a base da gestão de risco climático no trigo”, afirma.

O Zarc define janelas de plantio com diferentes níveis de risco, considerando histórico climático, tipo de solo e ciclo das cultivares. Ao respeitar essas indicações, o agricultor reduz a probabilidade de enfrentar estiagens em fases críticas ou excesso de chuva na colheita, dois fatores que vêm comprometendo tanto rendimento quanto qualidade industrial do grão.

De acordo com informações do Ministério da Agricultura e Pecuária, o Zarc é uma política pública consolidada que orienta o calendário de plantio em todo o país e é condição obrigatória para acesso a programas como o crédito rural com cobertura do Proagro e ao seguro rural subvencionado. A ferramenta é atualizada periodicamente com base em séries históricas climáticas e estudos técnicos, justamente para acompanhar as mudanças no regime de chuvas e temperatura.

Além da definição correta da janela de plantio, Cunha destaca que a gestão de risco no trigo passa por práticas agronômicas fundamentais. A rotação de culturas é uma das principais. “Não plantar trigo ano após ano na mesma área é essencial. Isso aumenta doenças de solo, como as podridões radiculares, que são de difícil controle e não têm resistência genética consolidada”, explica.

O cultivo contínuo também favorece a sobrevivência de patógenos nos restos culturais, elevando a pressão de manchas foliares. Em anos com maior umidade, esses problemas se intensificam, exigindo mais aplicações de fungicidas e elevando o custo de produção.

A escolha de cultivares com melhor tolerância ou resistência genética às principais doenças da região é outra decisão estratégica. Trata-se de uma medida de baixo custo e alto impacto, especialmente em um contexto em que as condições climáticas têm favorecido ciclos mais severos de doenças.

O monitoramento constante da lavoura também é apontado como decisivo. Aplicações tardias de fungicidas ou adubações fora do momento ideal reduzem eficiência e aumentam despesas sem retorno proporcional. “É preciso assistência técnica presente e decisões no momento em que elas trazem resposta”, reforça o pesquisador.

Na fase final do ciclo, a orientação é não postergar a colheita. No Sul do Brasil, onde a maturação do trigo coincide muitas vezes com o plantio da soja, é comum o produtor priorizar a semeadura da oleaginosa e deixar o cereal pronto no campo. O risco, segundo Cunha, é alto. Chuvas sobre o trigo maduro reduzem peso hectolítrico, provocam germinação na espiga e comprometem a qualidade industrial, impactando diretamente o preço recebido.

Por fim, o especialista lembra que o trigo é uma cultura de risco elevado e que a transferência desse risco é parte da estratégia de gestão. A adesão ao seguro rural privado ou ao Proagro funciona como mecanismo de proteção financeira em caso de perdas climáticas severas.

Com a intensificação das doenças e maior variabilidade do clima, o uso do Zarc deixa de ser apenas uma exigência burocrática e passa a ser uma ferramenta técnica indispensável. Integrado a boas práticas de manejo, escolha adequada de cultivares e proteção financeira, ele se consolida como um dos pilares para manter a viabilidade do trigo no Brasil.

Por: Priscila Alves
Fonte: Notícias Agrícolas

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