Primeira usina de etanol de trigo do Brasil abre novo mercado para cereais de inverno no Rio Grande do Sul

Publicado em 02/06/2026 17:27
Projeto em construção em Passo Fundo terá capacidade para processar 525 mil toneladas de grãos por ano e pode ampliar oportunidades para agricultores e pecuaristas.

O Rio Grande do Sul, responsável por grande parte da produção nacional de trigo, deverá ganhar nos próximos anos um novo mercado para os cereais de inverno. A construção da primeira usina brasileira de etanol de trigo em larga escala, em Passo Fundo, promete movimentar uma cadeia produtiva capaz de absorver 525 mil toneladas de matéria-prima por ano e reduzir a dependência estadual de combustíveis importados.

Atualmente, cerca de 99% do etanol consumido no estado vem de outras regiões do país. A expectativa é que a nova estrutura industrial seja capaz de suprir aproximadamente 23% da demanda gaúcha pelo biocombustível, fortalecendo a oferta regional e criando alternativas para a comercialização da produção agrícola.

Além dos reflexos sobre o setor energético, o empreendimento pode representar uma nova fonte de receita para produtores que cultivam trigo, triticale e outros cereais durante o inverno. A iniciativa surge em um momento de expansão dos biocombustíveis no Brasil e de busca por maior aproveitamento das áreas agrícolas fora da safra de verão.

Nova demanda pode valorizar a produção agrícola

A chegada de uma indústria com grande capacidade de processamento tende a ampliar as possibilidades de destino para os cereais produzidos no estado. Na prática, isso pode reduzir a dependência exclusiva dos mercados tradicionais de alimentos e criar uma alternativa adicional de comercialização para os agricultores.

Segundo Ricardo Reckziegel, diretor comercial da Be8, o projeto está diretamente ligado ao crescimento do mercado de combustíveis renováveis e ao potencial produtivo existente no campo. “A tese do investimento é aproveitar o boom dos biocombustíveis no país, o potencial produtivo de trigo em segunda safra no Rio Grande do Sul e a carência do estado, que atualmente importa todo o etanol que utiliza”, afirmou.

A localização escolhida também favorece o abastecimento da futura unidade. De acordo com o executivo, a região de Passo Fundo concentra cerca de 170 municípios responsáveis por mais da metade da produção estadual de trigo, facilitando a integração entre produtores, cooperativas e indústria.

Melhoramento genético ganha importância

 

O avanço da produção de etanol a partir do trigo também estimula pesquisas voltadas ao desenvolvimento de materiais mais adequados para uso industrial. Entre as iniciativas estão programas de melhoramento genético focados em cultivares com maior concentração de amido, característica fundamental para elevar a eficiência na fabricação do biocombustível.

Parcerias com instituições de pesquisa e empresas de genética já resultaram no desenvolvimento de variedades específicas destinadas a esse mercado. Além de atender às necessidades da indústria, esses materiais também foram desenvolvidos para ampliar o aproveitamento dos coprodutos gerados durante o processamento.

“É uma oportunidade viável de renda para a cultura de cereais de inverno e os resultados desta parceria trarão benefícios diretos à cadeia produtiva do trigo, permitindo agregação de valor aos cereais para fins de produção de biocombustíveis”, destacou Reckziegel.

Coprodutos podem beneficiar a pecuária

Os impactos da nova cadeia não se limitam à produção de combustível. O processamento dos cereais também gera produtos destinados à alimentação animal, como DDGS, farelo úmido e glúten vital, ingredientes amplamente utilizados em sistemas de produção pecuária.

Para pecuaristas, especialmente aqueles que trabalham com confinamento e semiconfinamento, a ampliação da oferta desses insumos pode contribuir para melhorar a disponibilidade regional de alimentos energéticos e proteicos. A presença de uma indústria próxima das áreas produtoras também tende a reduzir custos logísticos ao longo da cadeia.

Segundo o diretor comercial da Be8, a expectativa é criar um ambiente de negócios capaz de conectar agricultura e produção animal. “Carregamos a responsabilidade de desenvolver um trabalho capaz de agregar valor, gerar renda e ampliar as opções para os produtores, desde a comercialização de trigo, milho e triticale até a oferta de novos produtos, como o DDGS e o farelo úmido”, afirmou.

Redução de importações pode fortalecer competitividade

Outro efeito esperado é a diminuição da dependência brasileira de determinados insumos importados. Entre eles está o glúten vital, utilizado pela indústria alimentícia e atualmente adquirido principalmente de fornecedores internacionais.

A produção nacional desse ingrediente poderá ampliar a competitividade da cadeia agroindustrial e reduzir a saída de recursos destinados às importações. Além disso, especialistas do setor avaliam que o aumento da oferta doméstica pode estimular novos investimentos ligados ao processamento de cereais.

Para Reckziegel, o projeto representa uma oportunidade de agregar valor à produção agrícola gaúcha. “A natureza inovadora deste projeto representa um novo capítulo para o agro gaúcho, agregando valor para toda a cadeia produtiva, com a otimização do uso das áreas produtivas durante o inverno e o desenvolvimento genético de trigo para atender as demandas dos mercados de alimentos e energia limpa”, disse.

Biocombustíveis ampliam espaço no agronegócio

O crescimento da indústria de biocombustíveis tem sido apontado como uma das principais tendências do agronegócio brasileiro. Além de contribuir para a diversificação da matriz energética, o setor vem criando novas oportunidades para cadeias agrícolas que buscam ampliar a agregação de valor à produção.

Nesse contexto, os cereais de inverno passam a ganhar importância estratégica, especialmente em regiões com elevado potencial produtivo e disponibilidade de áreas agrícolas durante parte do ano. A combinação entre produção de energia, alimentos e nutrição animal reforça o papel desses cultivos dentro dos sistemas agropecuários.

“Os biocombustíveis são sinônimos de crescimento do PIB, geração de empregos, agregação de valor ao agronegócio e reindustrialização por meio de mais investimentos”, afirmou Reckziegel.

Com previsão de ampliar a demanda por trigo e outros cereais de inverno, a nova usina inaugura uma etapa diferente para o setor no Rio Grande do Sul. Mais do que produzir combustível, o projeto sinaliza o surgimento de um mercado capaz de conectar agricultura, pecuária e indústria em uma mesma cadeia de valor.

 

Por: Michelle Jardim
Fonte: Notícias Agrícolas

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