Boa Tarde Agro - Estoques do USDA surpreendem para cima e pressionam milho em Chicago; consultoria recomenda cautela na safra
A divulgação do relatório trimestral de estoques de grãos pelo Departamento de Agricultura dos Estados Unidos (USDA) movimentou intensamente os mercados agrícolas nesta quarta-feira (30). O principal destaque da sessão foi a forte desvalorização do milho na Bolsa de Chicago (CBOT), motivada por estoques norte-americanos sensivelmente maiores do que as estimativas médias do mercado financeiro e comercial.
Milho despenca com surpresa nos estoques norte-americanos
Os números oficiais do USDA apontaram estoques de milho nos Estados Unidos em 53,2 milhões de toneladas (posição em 1º de setembro), superando consideravelmente a média projetada pelos analistas, que girava em torno de 48,9 milhões de toneladas. No mesmo período do ano anterior, os estoques registravam 39,4 milhões de toneladas.
Como reflexo imediato, os contratos futuros do cereal registraram perdas próximas a 4% no pregão diário em Chicago, aprofundando o recuo acumulado no mês de setembro para quase 7%. O movimento também contaminou as cotações na B3, onde os contratos futuros fecharam em queda de mais de 2,5% a 3%, aproximando-se de perdas de R$ 1,00 por saca nos principais vencimentos.
Soja e trigo mostram dados equilibrados
Diferente do milho, os estoques de soja foram reportados ligeiramente abaixo da expectativa média do mercado: 8,6 milhões de toneladas frente aos 8,8 milhões previstos. Apesar de ter operado em campo positivo durante a manhã, a oleaginosa perdeu sustentação no decorrer da tarde, sendo puxada pela forte queda do milho e fechando com leves baixas. Para o trigo, o USDA reportou 50,2 milhões de toneladas, número em linha com as projeções (50,3 milhões de toneladas), embora expressivamente inferior aos 58,08 milhões registrados em setembro do ano passado.
Análise de mercado: realização de lucros e atenção ao clima no Brasil
Em entrevista ao programa Boa Tarde Agronegócio, o consultor de mercado da Terra Agronegócios, Ênio Fernandes, explicou que a reação do milho representou uma forte realização de lucros por parte dos fundos de investimento que estavam comprados, somada à entrada da colheita nos Estados Unidos.
"Nós estamos no meio da safra norte-americana de milho, no momento de maior oferta de milho no país que forma preço no mercado internacional. É natural que esses preços cedessem, mas eles cederam com mais intensidade porque os fundos estavam muito comprados. Não vai me espantar que, depois de 70% a 80% da safra colhida, os preços deem uma amenizada", avaliou o consultor.
Fernandes ressaltou que a demanda interna nos EUA para etanol e as exportações permanecem saudáveis. Segundo ele, o olhar dos agentes globais agora se volta integralmente para o Brasil e as condições de plantio no Cerrado, com foco no Mato Grosso.
"Se nós atrasarmos um pouco a semeadura da soja no Cerrado, principalmente no Mato Grosso, a janela de plantio da safrinha de milho lá na frente é menor. Qualquer atraso no Mato Grosso vai deixar esse mercado tenso", alertou o especialista.
Recomendações ao produtor: foco em margem e escalonamento
Sobre a soja, Ênio Fernandes pontuou que o mercado trabalha sob incertezas climáticas decorrentes da atuação do El Niño e das altas temperaturas projetadas para os próximos meses. A recomendação para o produtor rural brasileiro é adotar uma estratégia de comercialização cadenciada e cautelosa, garantindo margens lucrativas conforme a lavoura se desenvolve.
"Este ano é um ano de cadência. Você tem que ser cauteloso, não é um ano de audaciosos. Conforme a soja vai se desenvolvendo e você tem segurança da sua produção, vai tomando as suas decisões", recomendou. Para quem ainda possui soja da safra disponível, Fernandes destacou a atratividade dos prêmios nos portos e indústrias frente aos altos custos de armazenagem, juros elevados e perda natural de qualidade dos grãos estocados.
Cenário mais amplo: custos em alta e nova legislação de seguro
O programa também repercutiu a pressão dos custos de produção, com destaque para o avanço de 15,1% no preço médio do diesel S10 nos últimos 12 meses, segundo levantamento da Edenred Ticket Log. No âmbito regulatório, foi sancionado pelo governo federal o novo marco regulatório do seguro rural, que cria as bases para a implementação do Fundo de Catástrofe, buscando mitigar os riscos das seguradoras frente a eventos climáticos extremos que têm afetado a cobertura das lavouras no país.
* Com auxílio de IA