Clima afeta trigo e cana, mas plantio da soja avança em Goiás e Mato Grosso
As condições climáticas e seus impactos diretos sobre o desenvolvimento e a colheita das principais safras brasileiras continuam no centro das atenções do agronegócio. Em um panorama que mescla preocupações com a qualidade das lavouras no Centro-Sul e ritmo acelerado no plantio de grãos no Centro-Oeste, o setor também monitora os desdobramentos de mercado nos custos de produção, a escalada do petróleo e o surgimento de novos embargos sanitários à carne de aves.
Clima divide regiões: trigo perde qualidade no Sul e cana atrasa em São Paulo
Na Região Sul, o excesso de precipitações tem comprometido tanto a produtividade quanto o padrão de qualidade do trigo. Com a colheita revelando um produto com padrão e pH abaixo das exigências da indústria moageira nacional, os produtores enfrentam descontos significativos nas vendas. Diante disso, os moinhos brasileiros têm recorrido ao trigo argentino da nova safra para entregas em novembro, buscando maior seletividade nos lotes. Os lotes nacionais desclassificados para a moagem humana estão sendo redirecionados para a alimentação animal ou para mercados externos que aceitam exigências técnicas menores, enquanto a Associação Brasileira da Indústria do Trigo (Abitrigo) projeta a ampliação das importações do cereal.
No Sudeste, o excesso de umidade afeta a safra de cana-de-açúcar em São Paulo. As chuvas acima da média paralisam as operações no campo, elevando o risco de formação de cana bisada — matéria-prima que deixa de ser colhida no ciclo atual e é transferida para o seguinte. A situação acarreta menor concentração de Açúcares Totais Recuperáveis (ATR), perda de produtividade e redução de espaço para o desenvolvimento das lavouras da próxima temporada.
Plantio de soja ganha velocidade no Centro-Oeste
Em contraste com as adversidades climáticas do Centro-Sul, produtores do Centro-Oeste comemoram as condições favoráveis. No sudoeste de Goiás, o município de Jataí antecipou o plantio de soja para o início de outubro e já caminha para a finalização dos trabalhos, com cerca de 90% da área concluída.
A produtora rural Lia Katzer, de Jataí, relatou a rapidez incomum dos trabalhos nesta temporada: "Nunca plantei soja tão cedo como nesta temporada", destacando que as condições climáticas favoráveis permitiram o início do plantio por volta de 3 de outubro e o término de suas áreas já no dia 16. O avanço precoce abre uma janela ideal para a instalação da safrinha de milho no ano que vem.
Em Mato Grosso, principal estado produtor do país, os trabalhos de campo também avançam em ritmo expressivo. No município de União do Sul, as decisões de manejo antecipadas visam otimizar custos e alcançar produtividades elevadas, com o plantio correndo dentro do previsto e as expectativas agora voltadas para o regime de chuvas em novembro.
Custos em alerta: petróleo sobe e fertilizantes fosfatados seguem firmes
O mercado de insumos e combustíveis continua trazendo desafios ao orçamento do produtor rural. As cotações internacionais do petróleo tipo Brent superaram a barreira de US$ 110 por barril ao longo do dia, impulsionadas por tensões geopolíticas entre Estados Unidos e Irã, incidentes com embarcações e recuo nos estoques norte-americanos. A valorização da commodity energética pressiona custos logísticos e industriais em nível global.
No mercado interno de combustíveis, os preços iniciaram o mês de outubro com relativa estabilidade, após expressivas altas registradas em setembro, quando o diesel S10 subiu 6,5% e o etanol hidratado avançou 4,5% nos postos.
Já no segmento de adubos, um levantamento da consultoria StoneX destacou que o preço do enxofre recuou 23% nas últimas sete semanas nos portos brasileiros, retornando a níveis abaixo de US$ 1.000 por tonelada em razão da menor demanda global. Contudo, essa retração da matéria-prima ainda não foi repassada para os fertilizantes fosfatados formulados, como o MAP, que mantêm preços elevados e comprimem as margens operacionais do produtor.
Doença de Newcastle: Arábia Saudita e Malásia anunciam restrições à carne de frango
Na área de sanidade animal, a confirmação de um foco da Doença de Newcastle em uma granja de perus em Santa Catarina ampliou a lista de barreiras comerciais contra a carne de aves do Brasil. Após restrições já notificadas por México, China e Chile, a Malásia anunciou a suspensão de compras de carne de frango de todo o território brasileiro, enquanto a Arábia Saudita determinou o embargo focado especificamente nos produtos avícolas oriundos de Santa Catarina.
Autoridades agropecuárias federais e estaduais atuam na contenção sanitária do foco. Regina de Matos, presidente da Companhia Integrada de Desenvolvimento Agrícola de Santa Catarina (Cidasc), enfatizou a rápida mobilização das equipes no estado para aplicar medidas rigorosas de controle e isolamento, buscando garantir que a enfermidade não se espalhe para outras granjas comerciais e permitindo a retomada gradual dos mercados compradores internacionais.
O cenário impõe ao setor produtivo a necessidade de monitoramento contínuo, tanto no manejo agronômico e sanitário dentro da porteira quanto na gestão de custos e comercialização em um mercado global volátil.
* Com auxílio de IA