Arroba tem trajetória de alta até o final de ano com exportações crescentes, mercado interno sustentado e oferta reduzida de animais
Arroba tem trajetória de alta até o final de ano com exportações crescentes, mercado interno sustentado e oferta reduzida de animais
O mercado do boi gordo encerra o mês de setembro em forte trajetória de valorização e com expectativas bastante positivas para o último trimestre do ano. A combinação de uma oferta contida de animais prontos para abate e a perspectiva de expansão da demanda internacional e doméstica vem impulsionando as cotações tanto no mercado físico quanto nos contratos futuros da B3, onde as posições para os meses finais de 2026 já operam próximas dos R$ 395 por arroba.
Durante a edição do programa Pecuária e Mercado desta quarta-feira (30), o analista Pedro Gonçalves, da Scot Consultoria, destacou o movimento de alta recente na praça de São Paulo, onde o boi comum atingiu a referência de R$ 360,00/@ e o boi China alcançou R$ 365,00/@, registrando acréscimo diário de R$ 5,00. Em negócios pontuais de indústrias menores para completar escalas de abate, há registros de até R$ 375,00/@.
Na bolsa brasileira (B3), o contrato futuro para outubro superou os R$ 385,00/@, enquanto novembro e dezembro se aproximam da faixa dos R$ 395,00/@. "Aquele mercado futuro que estava apontando R$ 380,00 já está ficando bem próximo da nossa realidade. Se essa demanda esperada realmente acontecer, essa diferença de preço fica muito curta e devemos chegar sim a R$ 385,00, e já tem gente pensando em novembro bem próximo aos R$ 400,00 por arroba", afirmou Gonçalves.
Retorno da China e o apetite norte-americano
O cenário para as exportações ganha fôlego adicional a partir de outubro. A China, que reduziu o ritmo de compras em agosto e setembro após o preenchimento de cotas de importação, enfrenta pressões inflacionárias internas no preço da carne bovina. Segundo a consultoria, o quilo da proteína no país asiático subiu de cerca de US$ 18 para US$ 22 no comparativo anual, um salto inflacionário de mais de 20%. A expectativa é de que o país asiático volte com apetite ao mercado brasileiro.
Além disso, a cota suplementar de importação aberta pelos Estados Unidos (cerca de 300 mil toneladas distribuídas entre parceiros) favorece o Brasil. O mercado americano busca matéria-prima magra para a produção de hambúrgueres, e analistas estimam que o Brasil possa captar entre 50% e 60% dessa cota extra (cerca de 150 mil toneladas), mantendo as exportações diárias na faixa de 10 mil toneladas.
A demanda no mercado interno também é outro componente positivo para preços da arroba. O último trimestre tradicionalmente registra incremento no consumo de proteínas devido às festividades de encerramento de ano. O período ganha impulso complementar pela injeção financeira característica de anos eleitorais. Gonçalves pontuou que, historicamente, a dinâmica da máquina pública e a circulação de recursos aquecem a economia e dão suporte aos preços no varejo.
Pelo lado da oferta, o cenário permanece enxuto. O início da estação de monta e a valorização do bezerro estimulam a retenção de matrizes pelos pecuaristas. Em relação aos confinamentos, embora a relação de troca entre o boi gordo e o milho continue altamente favorável — na ordem de 6,5 a 7 sacas de milho por arroba no Centro-Oeste —, dados preliminares apontam uma ociosidade ligeiramente maior nas estruturas de engorda em comparação a 2025, afastando o risco de uma sobreoferta que venha a pressionar o mercado negativamente.
Questionado sobre a viabilidade da arroba alcançar o patamar histórico de R$ 400,00, Pedro Gonçalves confirmou que a maioria dos fundamentos técnicos aponta para esse caminho, mas fez uma ressalva quanto ao equilíbrio da cadeia produtiva. "O consumidor vai conseguir comprar essa carne da arroba de R$ 400? Se conseguir, aí vai embora. Mas temos que ver também a rentabilidade das unidades frigoríficas. Se as margens da indústria começarem a se estreitar muito, teremos um problema na cadeia", ponderou.
A orientação técnica para os pecuaristas para a reta final do ano é de atenção redobrada à gestão de custos e ao monitoramento do cenário macroeconômico e geopolítico internacional, aproveitando as janelas favoráveis de comercialização para travar margens positivas sem abrir mão da cautela operacional.
* Com auxílio de IA