Pegada hídrica desafia produção de leite e exige novas estratégias no campo
Pesquisadores do Brasil e da Alemanha analisaram como técnicas produtivas e cenários de aquecimento global influenciam o uso de água na atividade leiteira, avaliando 67 propriedades em Lajeado Tacongava, no Rio Grande do Sul, por meio de 192 combinações entre práticas agropecuárias e condições climáticas, com o objetivo de identificar alternativas que aumentem a eficiência e reduzam o consumo hídrico. O estudo revela que decisões adotadas dentro das fazendas, somadas às variações do clima, determinam o desempenho ambiental da produção. As conclusões oferecem orientações diretas ao produtor rural.
As unidades avaliadas representam a maior parte da produção local, com predominância de sistemas baseados em pastagens, além de modelos semi-intensivos e intensivos. Todas são voltadas exclusivamente à atividade leiteira, o que permitiu uma análise aprofundada dos sistemas produtivos. Essa diversidade contribuiu para identificar diferenças relevantes entre os modelos.
Para mensurar o consumo hídrico, foi utilizado o conceito de pegada hídrica, que considera o volume total de água envolvido na produção. Foram analisados três componentes: água verde, ligada à alimentação; água azul, usada diretamente nas operações; e água cinza, associada à diluição de resíduos. “Essa metodologia permite identificar onde estão os principais pontos de uso de água”, destacam os pesquisadores.
Manejo eficiente e clima influenciam resultados
Segundo Julio Palhares, da Embrapa Pecuária Sudeste, fatores como maior rendimento de lavouras, melhor aproveitamento da dieta e tratamento adequado de resíduos contribuem para reduzir o consumo hídrico. “Sistemas produtivos bem conduzidos e uso racional da água nas rotinas são fundamentais”, afirma o pesquisador.
Mudanças simples no dia a dia também fazem diferença. Ajustes em procedimentos de limpeza, por exemplo, podem reduzir desperdícios sem comprometer a qualidade do trabalho. “Pequenas alterações operacionais já promovem ganhos importantes”, reforça Palhares.
Em contrapartida, o aumento das temperaturas tende a elevar a demanda por água. Animais consomem mais líquido e culturas apresentam menor rendimento, especialmente o milho. “O clima mais quente intensifica o uso de recursos hídricos e reduz a produtividade agrícola”, alertam os cientistas.
Desempenho produtivo define consumo por litro
A média observada foi de 704 litros de água por quilo de leite corrigido, com grande variação entre propriedades. Os números mínimos ficaram abaixo de 300 litros, enquanto os máximos ultrapassaram mil litros por unidade produzida. “Existe grande potencial de melhoria nos sistemas avaliados”, apontam os autores.
A produtividade aparece como fator decisivo na eficiência. Fazendas com maior produção por animal e melhor conversão alimentar apresentaram menor consumo por litro. “Quanto maior a produção por vaca, menor o impacto hídrico por unidade”, explicam os pesquisadores.
Nos sistemas a pasto, os resultados foram bastante variados, evidenciando a importância da gestão. “Qualquer modelo pode alcançar bons resultados, desde que bem conduzido”, afirma Palhares. Isso reforça o papel do produtor na condução do sistema.
Ações práticas reduzem uso de água
Entre as medidas mais eficientes está o aumento da produtividade das culturas utilizadas na alimentação animal. O ganho de rendimento em lavouras reduz a necessidade de recursos naturais por unidade produzida. “Melhorar a produção agrícola impacta diretamente o consumo hídrico”, destacam os autores.
Outra estratégia relevante envolve a redução do volume utilizado na higienização da ordenha. Equipamentos adequados e manejo correto ajudam a evitar desperdícios. “A eficiência no uso da água começa nas rotinas mais simples”, reforçam os pesquisadores.
O tratamento de resíduos também tem papel importante. Essa prática reduz a carga de poluentes e melhora os indicadores ambientais. “Controlar os efluentes contribui para menor impacto ambiental”, afirma Palhares.
Mudanças climáticas aumentam pressão sobre o sistema
Cenários com elevação de temperatura entre 1,5 °C e 2,5 °C já demonstram aumento no consumo hídrico. Esse efeito ocorre tanto no metabolismo animal quanto na produção de alimentos. “As condições climáticas alteram diretamente a demanda por água”, destacam os pesquisadores.
A redução no rendimento das lavouras, especialmente em função do clima, eleva a necessidade de recursos para manter a produção. “Menor produtividade agrícola resulta em maior uso de água”, explicam os autores.
Apesar disso, o estudo indica que práticas adequadas podem amenizar esses efeitos. “A adoção de boas estratégias ajuda a reduzir os impactos negativos”, reforçam os cientistas.
Produção eficiente é caminho para sustentabilidade
A maior parte do consumo hídrico está relacionada à alimentação do rebanho, representando mais de 98% do total em alguns sistemas. “A dieta dos animais concentra a maior demanda de água”, destacam os autores.
A escolha de animais mais eficientes também influencia os resultados. Bovinos com melhor desempenho produtivo utilizam menos recursos por unidade produzida. “A genética tem papel importante na eficiência do sistema”, apontam os pesquisadores.
Além disso, práticas adotadas nas propriedades contribuem para metas globais, como as estabelecidas pela Organização das Nações Unidas. “Produzir com responsabilidade é essencial para o futuro da atividade”, concluem os autores.
O produtor rural precisa estar atento às mudanças e buscar melhorias constantes. Ajustes no manejo, investimento em produtividade e uso consciente da água são fundamentais. Em um cenário desafiador, eficiência e planejamento serão determinantes para manter a atividade viável.