Apesar de volatilidade internacional, oferta e andamento da safra de trigo pesam nos preços internos
Apesar de volatilidade internacional, oferta e andamento da safra de trigo pesam nos preços internos
Quebra expressiva e problemas de qualidade no Brasil
As adversidades climáticas afetaram a produção do Centro-Oeste ao Sul do país. De acordo com o analista Douglas Araújo, a atual temporada tem sido difícil para os triticultores nacionais: "É um ano diferente, essa safra é dolorosa para o triticultor brasileiro, porque nós registramos uma quebra de volume e de qualidade praticamente em todas as regiões do Brasil", pontuou.
Em estados como São Paulo, lavouras inteiras sofreram perdas qualitativas expressivas devido ao excesso de chuvas, reduzindo drasticamente o volume de trigo próprio para moagem. No Paraná e no Rio Grande do Sul, além da redução do peso hectolitro (PH) e do falling number, grande parte do volume colhido vem sendo destinada ao mercado de ração animal. Segundo dados divulgados no Congresso da Abitrigo pela consultoria Safras & Mercado, a colheita nacional deve atingir cerca de 5,12 milhões de toneladas, o que representa uma queda de 37% em relação aos 8,12 milhões de toneladas registrados no ano anterior.
Importações devem superar 9 milhões de toneladas
Com a retração da colheita doméstica de trigo de qualidade para panificação, os moinhos precisarão recorrer em larga escala ao mercado externo. As estimativas apresentadas durante o encontro do setor variam entre 9,5 milhões de toneladas (Bunge) e 10,4 milhões de toneladas (Safras & Mercado).
"Independentemente do número que efetivamente vai se confirmar, uma importação acima de 9 milhões de toneladas pelo Brasil é um volume enorme, coloca o Brasil de volta entre os grandes — top 3 — importador mundial de trigo", ressaltou Douglas Araújo. O especialista alertou ainda para as exigências logísticas que isso impõe, já que a indústria precisa planejar embarques com 30 a 45 dias de antecedência, sobretudo em um período de maior demanda por derivados, como nas festas de fim de ano.
Cenário internacional e a oferta argentina
No mercado global, as cotações na Bolsa de Chicago operam sob a influência da geopolítica e da expectativa em torno de acordos que possam normalizar o fluxo comercial no Mar Negro. Por outro lado, a Argentina surge como um importante contraponto de abastecimento para o Brasil. Com chuvas benéficas do El Niño em suas áreas de cultivo, o país vizinho projeta a segunda maior safra de sua história, estimada entre 23 e 24 milhões de toneladas, o que garantirá um fluxo contínuo de oferta ao mercado brasileiro.
Orientações para o produtor e a indústria
Para o triticultor brasileiro, o momento exige cautela redobrada no manejo e na comercialização. Lotes que conseguiram atingir especificações adequadas de moagem contam com valorização e prêmios atrativos, enquanto grãos desclassificados para a alimentação humana precisam de cuidado na armazenagem para evitar proliferação de micotoxinas (DON), sendo absorvidos majoritariamente pela indústria de ração com deságio.
A conjuntura atual reforça a vulnerabilidade da triticultura frente às oscilações climáticas severas e impõe à cadeia produtiva desafios complexos de gestão de risco, controle de qualidade e planejamento logístico para atender à demanda de abastecimento nacional.
* Com auxílio de IA