Seguro rural é peça estratégica para o trigo avançar no Brasil em meio a risco climático, preços pressionados e dependência de importações

Publicado em 20/02/2026 06:16 e atualizado em 20/02/2026 08:56
Com consumo interno superior à produção e histórico recorrente de perdas por clima, especialistas defendem ampliação da subvenção e políticas integradas para dar previsibilidade ao produtor

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O Brasil produz trigo há décadas, mas ainda não consegue suprir a própria demanda. O país consome cerca de 12 milhões de toneladas por ano, enquanto a produção nacional oscila, a depender da safra, entre 8 e 10 milhões de toneladas. A diferença é coberta com importações, principalmente da Argentina e Estados Unidos.

Dados da Companhia Nacional de Abastecimento (Conab), mostram que a oferta interna permanece estruturalmente inferior ao consumo, mesmo em anos de recuperação produtiva. Essa dependência externa expõe o mercado interno às oscilações cambiais e à disponibilidade do produto no mercado internacional.

Apesar do déficit estrutural, ampliar a produção de trigo no Brasil não é uma equação simples. O clima é um dos principais entraves, mas não o único. A rentabilidade pressionada, o risco elevado e a limitação de instrumentos de proteção tornam a cultura mais vulnerável no planejamento do produtor rural. 

CLIMA: RISCO RECORRENTE

O trigo é uma cultura sensível. Seca no desenvolvimento inicial, excesso de chuva na colheita e geadas no enchimento de grãos são fatores que impactam diretamente na produtividade e qualidade. 
Estudos técnicos da Embrapa Trigo indicam que eventos climáticos adversos são frequentes nas regiões produtoras, especialmente no Sul. Em vários ciclos recentes houve registros de quebra parcial ou total de safra, além de perda de qualidade industrial do grão. 

Essa instabilidade aumenta o risco financeiro da atividade. Em anos com excesso de chuva na colheita, por exemplo, mesmo que o volume seja razoável, a qualidade pode cair, reduzindo o valor recebido pelo produtor. 

SEGURO RURAL COMO SUSTENTAÇÃO DA ATIVIDADE

Diante desse cenário, o seguro rural passa a ter papel central. O Programa de Subvenção ao Prêmio do Seguro Rural (PSR), operacionalizado pelo Ministério da Agricultura e Pecuária, subsidia parte do valor do prêmio pago pelo produtor às seguradoras, tornando a contratação mais viável.

Ainda assim, o orçamento anual do programa é disputado por diversas culturas, e o trigo é classificado como de alto risco. Isso encarece o seguro e dificulta a contratação em condições consideradas atrativas por parte dos produtores.

Para Élcio Bento, analista da Safras & Mercado, o instrumento é determinante para que o trigo avance no país. “O seguro rural é a chave fundamental para o trigo deslanchar no Brasil. Há uma dificuldade de se contratar o seguro rural, especialmente com preços que sejam atrativos, exatamente porque o trigo é uma cultura de alto risco em função das alterações climáticas. E, além disso, existem neste ano, especialmente, além da questão de seguro, uma questão de crédito muito complicada.O produtor está descapitalizado e os seguros que são disponibilizados são seguros que acabam tendo um custo elevado em função da incerteza em relação à colheita do trigo por questões climáticas. O trigo sofre com seca, sofre com chuva, sofre com geadas, enfim, são vários fatores climáticos que podem interferir na colheita de trigo”. Afirma o analista

Elcio diz ainda que aqui no Brasil, mais da metade dos anos, a gente tem alguma quebra de safra de trigo por questões climáticas. “Então, o seguro rural é algo que precisa, que existe a necessidade, sobretudo subsidiado pelo setor governamental, é importante ou quase imprescindível para a produção de trigo no Brasil.” conclui

PREÇO PRESSIONADO E CONCORRÊNCIA EXTERNA

Mesmo com déficit de produção, o trigo brasileiro enfrenta limitação de preço. Como o país importa volumes significativos todos os anos, há referência de mercado sofre influência direta do produto externo. Se o trigo argentino chega competitivo, o preço interno tende a se ajustar para baixo.

Esse ambiente reduz previsibilidade de margem. Para o produtor, o risco é duplo: climático e comercial.
Além disso, o trigo disputa área com outras culturas de inverno e com o milho safrinha em determinadas regiões. Diante de crédito mais restrito e custos elevados, o produtor tende a optar por culturas com menor exposição ao risco.

CRÉDITO E DESCAPITALIZAÇÃO

O ambiente financeiro também pesa. Com juros mais elevados e limitação de recursos em alguns ciclos do Plano Safra, produtores mais descapitalizados reduzem investimentos em culturas consideradas mais vulneráveis. Sem seguro adequado, o risco da lavoura recai integralmente sobre o produtor. Em caso de quebra, o impacto pode comprometer o caixa da propriedade para as próximas safras. 

SEGURANÇA ALIMENTAR E POLÍTICA PÚBLICA

A dependência externa mantém o Brasil exposto a oscilações internacionais. Em momentos de problemas produtivos nos principais exportadores ou de variações cambiais bruscas, o custo da importação sobe e pressiona a cadeia interna.

Ampliar a subvenção ao seguro rural e garantir previsibilidade orçamentária são medidas apontadas por especialistas como essenciais para dar segurança ao produtor e estimular o aumento da área cultivada.

O seguro, isoladamente, não resolve todos os gargalos do trigo brasileiro. Questões como competitividade, qualidade industrial, logística e mercado precisam avançar em conjunto.

No entanto, sem proteção contra as quebras recorrentes, o risco tende a afastar o produtor da cultura.

Em um país que consome mais trigo do que produz, reduzir vulnerabilidades passa necessariamente por fortalecer os instrumentos de gestão de risco. Para o setor, o seguro rural não é apenas uma apólice. É a base para que o trigo tenha espaço para crescer no Brasil.

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Por:
Priscila Alves
Fonte:
Notícias Agrícolas

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