Biodiesel amplia uso da soja e reforça oportunidades ao produtor rural

Publicado em 06/02/2026 08:41 e atualizado em 06/02/2026 15:24
Processamento interno, avanço da mistura e novos mercados sustentam a demanda pela oleaginosa no Brasil.

A soja mantém papel central na estratégia de crescimento do biodiesel no Brasil e segue como uma das principais alternativas de mercado para o produtor rural. Mesmo com a exportação do biocombustível ainda limitada, o fortalecimento do consumo interno e o aumento do processamento da oleaginosa ampliam oportunidades no campo, especialmente em um cenário de supersafras.

Segundo Donizete Tokarski, presidente da Ubrabio – União Brasileira do Biodiesel e Bioquerosene, a exportação de biodiesel é positiva, mas ainda pouco representativa. “Sempre é uma boa oportunidade a exportação de biocombustíveis para o país. Entretanto, não é o mercado que ainda atende uma demanda significativa”, afirmou. Atualmente, menos de 1% do biodiesel produzido no Brasil é exportado.

Em números, segundo o Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC), as usinas brasileiras exportaram um pouquinho menos do que 94 mil m³ de biodiesel. 

Para Tokarski, o foco deve estar na ampliação das oportunidades que gerem valor dentro do país. “O que nós precisamos é ampliar essas oportunidades para aumentar a nossa exportação, fazendo com que a gente agregue valor aos nossos produtos aqui”, explicou.

Biodiesel consolida mercado para a soja brasileira

O biodiesel ocupa hoje um espaço relevante no consumo da soja produzida no Brasil. De acordo com Donizete Tokarski, cerca de 70% do biocombustível nacional tem origem no óleo de soja. Isso representa aproximadamente 7 bilhões de litros produzidos a partir da oleaginosa, dentro de um total próximo de 10 bilhões de litros.

Para atender esse volume, são processadas cerca de 35 milhões de toneladas de soja por ano. “É um mercado significativo”, destacou o presidente da Ubrabio. Ele ressaltou que o crescimento constante da produção de soja no país exige alternativas que absorvam essa oferta de forma sustentável e economicamente viável.

O processamento interno aparece como um caminho estratégico. Segundo Tokarski, “essa oferta crescente no Brasil precisa ser cada vez mais transformada aqui em valores para a nossa sociedade”. Além da renda direta ao produtor, a agroindústria gera empregos e movimenta a economia no interior do país.

Processamento gera renda e desenvolvimento regional

Donizete Tokarski destacou que os benefícios do biodiesel vão além da exportação. “Esses valores não são apenas o valor da exportação, mas também o valor dos trabalhos que são desenvolvidos no interior do país”, afirmou. A presença de indústrias de esmagamento e biodiesel impulsiona o desenvolvimento regional e fortalece a cadeia produtiva.

Segundo ele, quanto maior a produção de biodiesel, maior também será o mercado para o produtor de soja. “Quanto mais nós tivermos essa oportunidade de produção de biodiesel, mais também teremos o mercado para o produtor de soja”, explicou. Esse movimento contribui para dar maior previsibilidade ao setor agrícola.

O cenário ganha ainda mais relevância diante da necessidade de reduzir a dependência externa. O Brasil importa cerca de 25% do diesel que consome. “Nós temos capacidade de produzir mais biodiesel e não temos capacidade de produzir diesel”, observou Tokarski, ao defender a ampliação da participação do biocombustível na matriz energética.

Aumento da mistura amplia demanda por soja

A elevação da mistura obrigatória de biodiesel ao diesel é vista como um dos principais vetores de crescimento para o setor. O Brasil avança para o B16 até 2026 e projeta alcançar o B20 até 2030. Para Donizete Tokarski, a base legal já está consolidada.

“A Lei Combustível do Futuro foi extremamente sábia”, afirmou. Segundo ele, a legislação permite ampliar a mistura acima de 15% desde que seja comprovada a viabilidade técnica. Tokarski ressaltou que já existem veículos, caminhões e máquinas agrícolas no Brasil com garantia para uso de misturas elevadas, inclusive de biodiesel puro.

Cada ponto percentual adicional na mistura gera impacto direto sobre a demanda por soja. “Cada 1% de biodiesel adicionado é cerca de 700 milhões de litros”, explicou. Desse volume, aproximadamente 500 milhões de litros são provenientes do óleo de soja, exigindo o processamento adicional de cerca de 2,5 milhões de toneladas do grão.

Farelo fortalece a produção de proteínas

O aumento do esmagamento da soja também amplia a oferta de farelo, coproduto essencial para a cadeia de proteínas. Segundo Tokarski, para cada incremento na mistura, cerca de 2 milhões de toneladas de farelo passam a ser disponibilizadas no mercado.

“Além da produção do óleo, também serão 2 milhões de toneladas de farelo que estarão disponíveis no mercado para a produção de proteínas”, afirmou. Esse volume é importante tanto para o consumo interno quanto para a exportação de carnes e derivados, segmentos relevantes da economia brasileira.

O dirigente destacou que a maior disponibilidade de farelo contribui para reduzir custos e ampliar a produção de alimentos. Segundo ele, esse equilíbrio entre energia e alimento reforça a importância da soja como base estratégica da agroindústria nacional.

Sustentabilidade da soja entra no debate técnico

A questão ambiental também foi abordada por Donizete Tokarski, especialmente em relação às discussões sobre certificação da soja usada no biodiesel. Ele explicou que é necessária uma análise técnica sobre os dados do RenovaBio e dos CBios. “As empresas não são obrigadas a participar desse programa”, esclareceu.

Segundo Tokarski, a rastreabilidade da soja apresenta desafios específicos. “Nós temos indústrias de biodiesel que adquirem matéria-prima de mais de 10.000 agricultores”, afirmou. Essa característica torna o processo mais complexo quando comparado a outras cadeias produtivas.

Apesar disso, ele reforçou que a produção nacional é reconhecida por sua sustentabilidade. “A soja brasileira é altamente sustentável”, disse, citando avanços tecnológicos e a redução da pegada de carbono ao longo dos últimos anos. Para ele, o aprimoramento das políticas pode ampliar o reconhecimento dessa realidade.

SAF surge como novo mercado em construção

Outro ponto tratado na entrevista foi o combustível sustentável de aviação, conhecido como SAF. Segundo Donizete Tokarski, o Brasil ainda não produz esse biocombustível, mas há expectativa de crescimento. “Eu tenho uma expectativa de que o SAF vai ser uma transformação muito grande na indústria brasileira”, afirmou.

O SAF pode ser produzido a partir de diferentes rotas, incluindo óleos vegetais e etanol. Para o produtor rural, isso representa uma possibilidade futura de ampliação de mercado. “O SAF é um caminho para ampliar esse processamento da soja no Brasil”, explicou Tokarski.

Ele destacou que o país possui ampla disponibilidade de matéria-prima. Em 2025, o Brasil exportou cerca de 110 milhões de toneladas de soja em grãos e a produção deve continuar crescendo. Segundo ele, ampliar o processamento interno é essencial para agregar valor à produção.

Industrialização reforça oportunidades no campo

Ao longo da entrevista, Donizete Tokarski reforçou a importância de transformar a soja dentro do país. “Nós precisamos de dar uma destinação interna para que a gente possa ampliar a nossa industrialização nacional”, afirmou. Para ele, biodiesel e SAF são caminhos complementares nesse processo.

Esses mercados estimulam o esmagamento, geram coprodutos e fortalecem a agroindústria. Para o produtor rural, isso significa mais opções de comercialização e maior estabilidade de demanda. O avanço dos biocombustíveis, segundo Tokarski, contribui para consolidar a soja como matéria-prima estratégica da economia brasileira.

 

Por: Michelle Jardim
Fonte: Notícias Agrícolas

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