Combustíveis renováveis colocam o agro brasileiro no centro da nova matriz energética e diversificam opções para o produtor rural
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O Brasil começa a ocupar um espaço estratégico na transição energética ao integrar agronegócio, indústria e logística em torno dos combustíveis renováveis. Iniciativas recentes mostram que a produção rural deixou de ser apenas fornecedora de alimentos e passou a sustentar novas cadeias energéticas. O campo, agora, fornece matéria-prima essencial para reduzir emissões e atender exigências ambientais globais.
A produção de combustíveis sustentáveis a partir de óleos vegetais e resíduos agrícolas reforça o protagonismo do agro brasileiro. Essas soluções ganham relevância porque utilizam estruturas industriais já existentes, o que acelera a adoção no mercado. Para o produtor rural, o avanço representa novas oportunidades de renda e diversificação.
Algumas iniciativas se destacam nesse cenário: a Petrobras, com a entrega do combustível sustentável de aviação, e a Refinaria Rio Grandense, no Rio Grande do Sul, com a conversão de sua planta para o biorrefino. Ambas mostram que a transição energética já está em curso e depende diretamente do setor produtivo rural.
AVIAÇÃO SUSTENTÁVEL AVANÇA COM PRODUÇÃO NACIONAL
A Petrobras anunciou as primeiras entregas de combustível sustentável de aviação (SAF) produzido integralmente no Brasil no mês de dezembro de 2025. O volume comercializado foi de 3 mil metros cúbicos, destinados a distribuidoras que operam no Aeroporto Internacional do Galeão, no Rio de Janeiro. Essa quantidade equivale a cerca de um dia de consumo dos aeroportos do estado.
O SAF, como é conhecido, pode substituir o querosene de aviação convencional sem exigir mudanças em aeronaves ou sistemas de abastecimento. Essa característica facilita a adoção imediata pelas companhias aéreas. Na prática, trata-se de uma solução rápida para reduzir as emissões do transporte aéreo.
Segundo a presidente da Petrobras, Magda Chambriard, o SAF contribui para o cumprimento das metas de descarbonização do setor aéreo. “O produto atende padrões internacionais rigorosos e antecipa exigências futuras. A iniciativa posiciona o Brasil como fornecedor confiável em um mercado cada vez mais regulado”, explica.
CERTIFICAÇÃO, REDUÇÃO DE EMISSÕES E NOVAS EXIGÊNCIAS
O combustível produzido pela Petrobras recebeu certificação de sustentabilidade conforme as regras da ICAO (International Civil Aviation Organization). Isso garante que o SAF atende critérios ambientais reconhecidos globalmente. Para o setor aéreo, essa certificação é fundamental para cumprir compromissos internacionais de redução de carbono.
A produção utiliza matérias-primas de origem vegetal, como óleo de soja e óleo técnico de milho. Esses insumos permitem uma redução de até 87% nas emissões líquidas de CO₂ na parcela renovável do combustível. O resultado é um produto quimicamente igual ao combustível fóssil, porém com menor impacto ambiental.
A antecipação da produção também prepara o mercado para novas regras. A partir de 2027, companhias aéreas deverão usar SAF em voos internacionais, seguindo o programa CORSIA. No mercado interno, a exigência virá com a Lei do Combustível do Futuro, já aprovada no país.
REFINARIAS SE ADAPTAM PARA ATENDER A NOVA DEMANDA
A produção inicial do SAF ocorreu na Refinaria Duque de Caxias, no Rio de Janeiro. A unidade tem autorização da ANP para incorporar matéria-prima renovável no processo de coprocessamento. Outras refinarias da Petrobras já realizam testes para ampliar a oferta nos próximos anos.
Esse modelo aproveita estruturas existentes, reduzindo custos e tempo de implantação. Para o Brasil, significa acelerar a transição energética sem depender de tecnologias importadas. Para o agro, representa a consolidação de uma demanda contínua por óleos vegetais certificados.
Enquanto a Petrobras avança no setor aéreo, outra iniciativa reforça o papel do campo na produção de energia limpa. No sul do país, a Refinaria Rio Grandense inicia um projeto pioneiro de conversão para combustíveis renováveis. O foco está na utilização direta de matérias-primas agrícolas.
RIO GRANDENSE APOSTA NO BIORREFINO INTEGRADO
A Refinaria Rio Grandense está adaptando sua planta para operar com óleos vegetais e óleos residuais. Segundo o Flávio Souza, Head de refino da empresa, esse processo substitui o petróleo por óleos de origem agrícola.
“Essa tecnologia permite a produção de Diesel Verde, SAF e outros combustíveis chamados de ‘drop-in’. Isso significa que eles podem ser usados diretamente, sem alterações na infraestrutura existente. Para o mercado, essa compatibilidade aumenta a viabilidade econômica do projeto”, explica.
Na primeira fase, a refinaria utilizará óleo de soja e óleo de milho. Ambos são insumos amplamente disponíveis no Brasil e já fazem parte da rotina do produtor rural. A expectativa é iniciar a operação nas próximas semanas, marcando uma nova etapa para o setor energético gaúcho.
TECNOLOGIA ACESSÍVEL E IMPACTO ECONÔMICO
A conversão da refinaria utiliza uma unidade já existente, conhecida como FCC. Essa adaptação reduz investimentos em comparação à construção de uma nova planta. De acordo com Flávio Souza, essa escolha torna o projeto mais competitivo e rápido de implantar.
O impacto econômico vai além da indústria. Estão previstos investimentos de cerca de 1 bilhão de dólares na refinaria. Na cadeia agrícola, o efeito pode alcançar valores semelhantes, estimulando produção, transporte e certificação de óleos vegetais.
Além da soja, o projeto abre espaço para o desenvolvimento de culturas de inverno. Canola, carinata e camelina são exemplos citados como alternativas promissoras. “Essas culturas têm boa aceitação em mercados internacionais, especialmente na Europa”, complementa o executivo.
OPORTUNIDADES PARA O PRODUTOR RURAL
A demanda por óleos certificados cria novas oportunidades para o produtor. Flávio Souza destaca que a matéria-prima precisa atender padrões de sustentabilidade nacionais e internacionais. “Isso valoriza práticas agrícolas responsáveis e rastreáveis. Culturas de inverno como ”, comenta.
O Rio Grande do Sul tem vantagem competitiva nesse cenário. A localização da refinaria no porto de Rio Grande facilita o escoamento para o mercado externo. Países como Alemanha, França e Espanha já demandam produtos de biorrefinarias.
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