E85 na Índia pode abrir oportunidades para o etanol e o açúcar brasileiros
O lançamento do combustível E85 pela Índia, composto por 85% de etanol e 15% de gasolina, representa mais do que uma nova etapa da política energética do país asiático. Para o Brasil, um dos maiores produtores mundiais de etanol e líder global nas exportações de açúcar, a iniciativa pode abrir novas oportunidades comerciais e reforçar uma tendência que vem ganhando força no mercado internacional: a busca por maior independência energética por meio dos biocombustíveis.
Embora o anúncio não seja mais novidade, especialistas avaliam que os desdobramentos do programa indiano merecem atenção. A Índia é atualmente o país mais populoso do mundo, possui uma frota crescente de veículos e depende fortemente das importações de combustíveis fósseis. Ao ampliar o consumo doméstico de etanol, o país pode alterar o equilíbrio dos mercados globais de energia e de açúcar.
O CEO da SCA Brasil, Martinho Ono, destaca que o movimento indiano pode gerar reflexos importantes para o setor sucroenergético brasileiro.
"A Índia é um grande produtor de açúcar. Na medida em que ela começa a utilizar mais cana para a produção de etanol, acaba reduzindo a pressão de oferta sobre o mercado internacional de açúcar", afirmou.
Segundo Ono, esse é um dos primeiros benefícios potenciais para o Brasil. Historicamente, quando a Índia registra excedentes de açúcar, o país amplia suas exportações e exerce forte influência sobre os preços internacionais. Com mais matéria-prima direcionada para a produção de etanol, o volume disponível para exportação tende a diminuir.
"Eu acho que o açúcar fica com um balanço de equilíbrio maior. O Brasil é o maior produtor mundial e tem influência direta na formação dos preços. O fato de um concorrente desse porte deixar de colocar tanto açúcar no mercado ajuda nesse equilíbrio", explicou.
Demanda por etanol pode criar novas oportunidades
Além dos impactos sobre o açúcar, o avanço do E85 pode fortalecer o mercado internacional de etanol nos próximos anos.
A Índia já alcançou a mistura de 20% de etanol na gasolina (E20) em um período relativamente curto e agora inicia uma nova fase, voltada ao uso de combustíveis com alta concentração do biocombustível. O programa inclui a expansão de veículos compatíveis com o E85, como automóveis, motocicletas e os tradicionais "tuk-tuks" utilizados em larga escala no país.
Para Martinho Ono, o projeto indiano não deve ser analisado apenas sob a ótica do curto prazo.
"É um mercado que não é de curto prazo. O lançamento é muito bem-vindo e abre um potencial muito grande de ampliação da frota flex. Isso vai gerar uma demanda muito maior de etanol naquele país", avaliou.
Caso a produção local não acompanhe o crescimento do consumo, o Brasil aparece como um dos candidatos naturais para suprir parte dessa necessidade.
"O segundo benefício é que, se a Índia precisar complementar sua oferta de etanol, o Brasil pode se beneficiar como um dos grandes produtores mundiais do biocombustível", afirmou.
Tendência global favorece biocombustíveis
O movimento da Índia também reforça uma discussão cada vez mais presente em diferentes regiões do mundo: a busca por alternativas aos combustíveis fósseis diante das incertezas geopolíticas e da necessidade de reduzir emissões.
Segundo Ono, o Brasil já ocupa uma posição privilegiada nesse cenário graças à sua experiência de décadas com o etanol.
"O Brasil é um exemplo para o mundo. Hoje, mais de 50% da matriz energética do ciclo Otto brasileiro já conta com participação dos biocombustíveis", destacou.
Na avaliação do executivo, conflitos internacionais e a concentração da produção mundial de petróleo em poucas regiões tendem a acelerar a procura por fontes renováveis de energia. Isso pode estimular outros países a seguirem caminhos semelhantes ao da Índia.
"Muitos países estão repensando suas matrizes energéticas. A expectativa é que mais mercados passem a utilizar etanol na gasolina, abrindo novas oportunidades para os produtores brasileiros", disse.
Cana e milho ampliam capacidade de resposta
Outro fator que fortalece a posição brasileira é a crescente produção de etanol de milho, que vem complementando a oferta tradicional produzida a partir da cana-de-açúcar.
Segundo Ono, essa expansão aumenta a flexibilidade do setor nacional, permitindo atender tanto o mercado interno quanto eventuais oportunidades de exportação.
"O Brasil precisa de demanda para continuar investindo e agregando valor às commodities agrícolas por meio dos biocombustíveis. O avanço de programas como o da Índia abre novas fronteiras de mercado e pode trazer benefícios importantes para toda a cadeia produtiva", concluiu.