Exportações recordes pressionam preços do café no curto prazo, aponta Hedgepoint

Publicado em 21/09/2026 10:25 e atualizado em 21/09/2026 11:05

O mais recente relatório da Hedgepoint Global Markets sobre o mercado de café mostra que os futuros do Arábica perderam força nos últimos dias, negociados na faixa de 270-280 c/lb. Embora os estoques certificados permaneçam nos níveis mais baixos em décadas e ainda ofereçam algum suporte aos preços, as condições climáticas no Brasil e o aumento das exportações elevam a pressão baixista no curto prazo, com o contrato de dezembro podendo seguir negociado abaixo de 280 c/lb.
Em agosto, as exportações totais de café do Brasil chegaram a 4,16 milhões de sacas (M scs), novo recorde para o mês e alta de 31% sobre agosto de 2025. Os embarques de café verde somaram 3,8 M scs, também 31% acima de um ano antes. Ao mesmo tempo, as chuvas favoreceram o desenvolvimento da safra 2027/28, com algumas regiões já registrando a primeira floração e precipitação acumulada em setembro acima da média de dez anos na maior parte das áreas produtoras.

“Os estoques certificados seguem nos níveis mais baixos em décadas e dão algum suporte aos preços. Ainda assim, o aumento dos estoques pendentes para classificação, o clima no Brasil e o avanço das exportações podem ampliar a pressão baixista, com o contrato de dezembro potencialmente mais perto dos 270 c/lb”, afirma Laleska Moda, analista de inteligência de mercado na Hedgepoint Global Markets.
A análise também aponta que o ritmo de exportações brasileiras ajuda a reduzir os temores em relação à disponibilidade imediata de café, especialmente após meses de comercialização mais lenta pelos produtores e embarques mais fracos. Os dados sugerem que o café brasileiro finalmente está chegando aos mercados consumidores.

Exportações brasileiras aliviam pressão de oferta
Segundo dados do Cecafé, o Brasil exportou 4,16 M scs de café verde e industrializado em agosto, aumento de 31% em relação ao mesmo período de 2025 e novo recorde para o mês. Considerando apenas o café verde, os embarques totalizaram 3,8 M scs, alta de 31,1% na comparação anual e de 42,7% em relação a julho. Dentro desse volume, as exportações de Arábica cresceram mais de 1 M scs no mês, alcançando 2,8 M scs, avanço de 25,7% frente a agosto de 2025. Já os embarques de Conilon atingiram o maior volume da história, com 953,5 mil sacas, alta de 53,6% em um ano.

Os Estados Unidos e a Bélgica foram os dois maiores importadores de café brasileiro em agosto, ambos com volumes superiores a meio milhão de sacas. Os dois países costumam figurar entre os cinco principais destinos das exportações brasileiras, mas o forte crescimento mensal e anual dos embarques ocorre após notícias de que grandes empresas devem enviar cerca de 300 mil sacas de café Arábica para os estoques certificados da ICE, aumentando as perspectivas de mais café chegar aos armazéns dos Estados Unidos e de Antuérpia.
Por enquanto, o relatório de estoques certificados da ICE indica que 31,16 mil sacas de café brasileiro aguardam classificação no armazém de Antuérpia. Esse volume, no entanto, pode aumentar nas próximas semanas.

Brasil: exportações de Arábica verde (M scs)

Fonte: Cecafé | Acumulado indicado no gráfico: 25/26 em 6,1 M scs e 26/27 em 6,7 M scs (+10%)​​

Brasil: exportações de Conilon verde (M scs)

Fonte: Cecafé | Acumulado indicado no gráfico: 25/26 em 1,5 M scs e 26/27 em 2,4 M scs (+56,9%)

Clima favorece nova safra e exige monitoramento

Com a colheita da safra 2026/27 praticamente concluída em agosto, a atenção do mercado passou para as condições climáticas e o desenvolvimento da safra brasileira 2027/28. Desde o final de agosto, as chuvas alcançaram todas as regiões produtoras. Os acumulados parciais de setembro apontam precipitações acima da média dos últimos dez anos na maior parte das áreas cafeeiras, com exceção da Chapada da Bahia e da região Atlântico/Sul. O padrão provavelmente está sendo influenciado pelo fenômeno El Niño.

Algumas regiões produtoras de Arábica e Conilon já registraram as primeiras floradas da safra 2027/28, embora ainda seja esperado um florescimento mais generalizado. As previsões apontam para a continuidade das chuvas ao longo do restante de setembro e durante outubro, favorecendo os níveis de umidade do solo e o desenvolvimento das lavouras, embora volumes excessivos de precipitação devam ser monitorados de perto.

“Apesar de ainda ser cedo para estimar a produção da safra 2027/28, a expansão da área plantada nos últimos anos, combinada às condições climáticas favoráveis até o momento, poderá compensar parcialmente os efeitos negativos do ano de baixa bienalidade do Arábica e sustentar o potencial produtivo. Assim, a evolução do clima nos próximos meses será fundamental para avaliar o balanço global de oferta da próxima safra”, afirma Laleska.

Precipitação acumulada nas regiões cafeeiras do Brasil (mm)

Fonte: Somar, Bloomberg, Hedgepoint

Vietnã mantém exportações fortes, mas estoques estão baixos

No mercado de Robusta, as exportações do Vietnã permaneceram acima da média em agosto, reforçando as perspectivas de oferta no curto prazo. O país exportou 2,1 M scs no mês, o maior volume para agosto em sete anos, alcançando um acumulado de 27,7 M scs na safra 2025/26 (outubro-agosto). O resultado representa aumento de 19,6% em relação à safra 2024/25 e uma das melhores performances dos últimos sete ciclos.

Por outro lado, os estoques no país encontram-se em níveis extremamente baixos, o que tende a limitar os embarques nos próximos meses. Além disso, os possíveis impactos do El Niño continuam no radar. Desde o início do desenvolvimento da safra 2026/27, os volumes acumulados de chuva no Vietnã têm permanecido, em geral, abaixo da média, e algumas regiões já esperam uma redução na produção neste ano.

Ainda assim, devido à expansão da área cultivada nos últimos anos, a Hedgepoint continua projetando uma produção semelhante à da safra 2025/26, em 30,5 M scs. Alguns produtores devem iniciar os trabalhos de campo da safra 2026/27 no início de outubro, mas volumes mais significativos de café devem chegar ao mercado apenas após novembro.

Ainda existe o risco do El Niño afetar o ciclo 2027/28 no Vietnã, especialmente porque o fenômeno tende a prolongar a estação seca, reduzindo a umidade do solo e a disponibilidade de água para irrigação. Há também risco de impactos sobre a safra 2027/28 da Indonésia, que já está em desenvolvimento nas regiões produtoras de Robusta. Nesse contexto, os preços poderão encontrar suporte nos próximos meses, dependendo da intensidade dos efeitos do El Niño sobre a produção nos principais países produtores.

“O El Niño pode prolongar a estação seca no Vietnã e reduzir a disponibilidade de água para irrigação. Os possíveis efeitos sobre Vietnã e Indonésia poderão dar suporte aos preços do Robusta nos próximos meses”, relata Laleska.

Oferta melhora, mas equilíbrio global ainda depende do clima

Em resumo, os contratos futuros de Arábica perderam força nos últimos dias à medida que a melhora das perspectivas de oferta passou a pesar sobre o mercado, apesar de os estoques certificados permanecerem em níveis historicamente baixos e ainda fornecerem algum suporte aos preços. O desempenho recorde das exportações brasileiras em agosto reduziu as preocupações com a disponibilidade de curto prazo e indicou que o café brasileiro está chegando aos principais mercados consumidores, incluindo Estados Unidos e Bélgica. A possibilidade de um volume adicional de café brasileiro ingressar nos estoques certificados da ICE pode reforçar ainda mais a percepção de uma oferta mais confortável no curto prazo.

A atenção também está voltada ao desenvolvimento da safra 2027/28. As chuvas generalizadas no Brasil e o registro das primeiras floradas melhoraram as perspectivas de produção, enquanto as condições climáticas favoráveis e a expansão da área cultivada podem compensar parcialmente o ciclo de baixa bienalidade do Arábica. No Robusta, o Vietnã segue exportando volumes elevados, embora os estoques domésticos estejam cada vez mais apertados. Os riscos associados ao El Niño nas próximas safras do Vietnã e da Indonésia colocam a evolução do clima entre os principais fatores a serem monitorados para a direção dos preços nos próximos meses.

“O clima nas principais origens seguirá determinante para o balanço global de oferta e para a direção dos preços”, ressalta Laleska.

Fonte: Hedgepoint Global Markets

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