Não falta grão, falta fazê-lo chegar”: logística global acende alerta e expõe fragilidade no abastecimento dos grãos
O mundo continua produzindo muito grão. O problema é que, cada vez mais, ter produto no balanço global não significa necessariamente ter o grão disponível no lugar, no momento e nas condições em que o comprador precisa dele.
Uma combinação de guerras, restrições comerciais, dificuldades logísticas, exigências ambientais, problemas de qualidade e concentração da oferta em determinadas origens começa a reduzir a chamada “opcionalidade” do comércio mundial de grãos. E os efeitos já aparecem entre importadores, que em alguns mercados começam a recorrer aos estoques de segurança enquanto aguardam a normalização dos fluxos.
Para Eduardo Vanin, senior agriculture strategist da Marex e analista de mercado da Agrinvest Commodities, essa perda de alternativas é hoje
um dos principais riscos do mercado internacional. “Quando você sacrifica a opcionalidade, isso custa muito caro. E hoje a gente está recheado disso”, afirma em entrevista ao Notícias Agrícolas.
Na prática, não basta haver milho, trigo, soja ou farelo disponíveis no mundo. É preciso saber onde estão esses volumes, quais compradores conseguem acessá-los, em que condições, por qual rota e a que custo. E é justamente aí que os balanços globais começam a contar apenas parte da história, em especial no atual momento da geopolítica global.
Sarah Frick Dare, economista e head de inteligência de mercado agro do Grupo Ceres, chama atenção justamente para o prolongamento da guerra entre Rússia e Ucrânia - que caminha para o seu quinto ano - e para a instabilidade dos corredores de exportação do Mar Negro. A região é uma das principais origens de trigo para importadores do Norte da África, Oriente Médio e Ásia, principalmente a região Sudeste.
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Qualquer redução dos embarques obriga esses compradores a disputar produtos em outras origens. E isso já está acontecendo. Em setembro, estimativas de consultorias internacionais apontavam que as exportações russas poderiam cair para cerca de 1 milhão de toneladas, ante aproximadamente 5 milhões no mesmo mês do ano passado. Os embarques ucranianos também caminhavam para perto de 1 milhão de toneladas, aproximadamente metade do volume registrado um ano antes.
Com menos trigo saindo do Mar Negro, compradores passaram a buscar alternativas na Europa, Austrália e Argentina e, muitas vezes, acabam pagando mais por elas. O problema, portanto, não é necessariamente a inexistência física do produto, mas o “desaparecimento das alternativas”.
E se há problema nos fornecedores, há incerteza entre os compradores. Ainda segundo Vanin, esse movimento já começa a aparecer entre diferentes regiões. “Importadores, Egito, Turquia, países africanos, Ásia, todos estão comendo seus estoques de reserva.” Como explica o especialista, a razão é simples: “o grão não sai na velocidade e na quantidade que o mercado precisa.”
É por isso que a palavra opcionalidade ganha tanta importância agora. Enquanto um importador dispõe de várias origens, consegue comparar preços, substituir fornecedores, negociar fretes e administrar atrasos. Quando essas possibilidades diminuem, cresce sua dependência das poucas origens que permanecem disponíveis. E cresce também o preço dessa dependência.
Vanin resume o atual cenário como uma combinação de fatores que têm potencial inflacionário. Guerra, fretes, barreiras comerciais, regulações, qualidade e clima podem parecer questões independentes, mas acabam convergindo para o mesmo ponto que é, portanto, menos liberdade para o comprador escolher onde e quando comprar.
No trigo, a própria reação recente do mercado mostra essa preocupação. A restrição dos embarques do Mar Negro obrigou compradores a procurar novas origens, enquanto os preços internacionais avançaram e aumentaram as preocupações com inflação de alimentos em regiões fortemente dependentes das importações.
Sarah acrescenta ainda um segundo risco: a relação de troca menos favorável ao produtor em alguns países, que pode limitar área plantada, além das incertezas climáticas associadas ao El Niño.
São riscos que ainda precisam se confirmar em diferentes intensidades, mas que encontram um mercado com menos margem para absorver novos choques logísticos. Os números do próprio USDA (Departamento de Agricultura dos Estados Unidos) ajudam a mostrar esse movimento.
MILHO JÁ TEM DÉFICIT DE 30 MILHÕES DE T
No milho, a margem de segurança é particularmente importante. O relatório mensal de oferta e demanda de setembro do USDA, divulgado no último dia 11, voltou a apertar as projeções para a safra 2026/27. O resultado é um balanço global em que o consumo mundial de milho deve superar a produção em quase 30 milhões de toneladas em 2026/27, o maior déficit entre produção e demanda em mais de três décadas.
Isso acontece mesmo com os Estados Unidos iniciando a colheita de uma das maiores safras de milho de sua história, apesar de consideravelmente menor do que a temporada anterior.
A aparente contradição ajuda a dimensionar o problema: uma grande safra em determinada origem não necessariamente recompõe a folga do mercado mundial quando a produção cai em outros países, o consumo permanece forte e parte da oferta exportável enfrenta limitações. Nesse ambiente, qualquer dificuldade adicional de transporte, origem ou disponibilidade passa a ter um peso maior.
TRIGO: ESTOQUES NO PAPEL x OFERTA DISPONÍVEL
O trigo talvez seja hoje o exemplo mais claro dessa diferença entre estoque estatístico e disponibilidade efetiva. O USDA estima a produção mundial de trigo em 822,4 milhões de toneladas em 2026/27, 3,1 milhões acima da projeção de agosto. Os estoques finais globais também foram elevados para 276,3 milhões de toneladas.
À primeira vista, os números poderiam sugerir uma situação confortável, mas a composição desses estoques conta outra história. Entre os grandes exportadores, os estoques finais são projetados em 68,6 milhões de toneladas. E parte do aumento ocorreu justamente porque Rússia e Ucrânia estão conseguindo exportar menos trigo diante das dificuldades logísticas provocadas pela guerra.
Ou seja, o trigo existe, mas uma parcela maior dele permanece justamente onde há dificuldade para fazê-lo chegar ao mercado internacional.
A Rússia continua projetada como maior exportadora mundial de trigo, mas seus embarques devem cair significativamente em relação ao ano anterior diante das limitações ao trânsito pelo Mar Negro. O comércio global do cereal em 2026/27 é projetado pelo USDA cerca de 6% abaixo do recorde da temporada anterior.
É exatamente nesse ponto que o risco logístico se encontra com o balanço de oferta e demanda.
Apesar da elevação dos estoques mundiais de trigo, o departamento norte-americano estima redução dos estoques em alguns países importadores diante dos preços mais elevados e das dificuldades de abastecimento.
No Egito, por exemplo, maior importador global do cereal, os estoques finais foram reduzidos em setembro em 600 mil toneladas, para 4,7 milhões de toneladas. Na Argélia, o corte foi de 500 mil toneladas, para 5,2 milhões.
O que aparece no balanço mundial como estoque, portanto, pode estar concentrado justamente em regiões ou países que não conseguem colocá-lo facilmente à disposição dos compradores.
COMPLEXO SOJA: MENOS “OPCIONALIDADE” E PESO DA EUDR
A mesma lógica aparece no complexo soja. Mesmo com uma oferta mundial robusta, as tensões comerciais entre Estados Unidos e China, as exigências de qualidade e a distribuição regional da produção começam a definir com maior força quem consegue comprar de quem.
Vanin aponta uma divisão crescente - mas já estabelecida e conhecida - no mercado chinês entre empresas estatais e privadas, com diferentes estratégias de originação entre Estados Unidos e América do Sul. Ao mesmo tempo, nem toda soja brasileira disponível apresenta a mesma facilidade de acesso a todos os mercados.
Segundo o analista, cargas originadas no Norte do Brasil têm enfrentado dificuldades específicas para atender a China por questões relacionadas à qualidade. É novamente a diferença entre volume existente e volume efetivamente disponível para determinado comprador.
Do mesmo modo, a lei antidesmatamento da União Europeia - a EUDR (European Union Deforestation Regulation) -, que tem a validade da sua prorrogação em dezembro - também pode mexer com o mapa do farelo de soja. Ainda de acordo com o analista da Agrinvest, dependendo da aplicação das novas exigências, compradores europeus podem encontrar dificuldade para adquirir no Brasil todo o volume de farelo de que necessitam dentro dos novos critérios.
“Isso reduz a opção do europeu”, afirma. E, quando as opções diminuem, o efeito não termina no porto. A necessidade de buscar outras origens reorganiza fluxos internacionais, altera fretes, modifica prêmios e pode chegar aos próprios mercados futuros. Para Vanin, no caso do farelo, esse rearranjo pode inclusive mudar a dinâmica de precificação na Bolsa de Chicago.
COMO O BRASIL SENTE ESTES EFEITOS?
Para o Brasil, esse rearranjo traz oportunidades, embora também reflita exposição.
No milho, um balanço mundial mais apertado pode ampliar a importância do produto brasileiro no comércio internacional justamente num momento em que a demanda doméstica cresce, principalmente com a expansão do etanol de milho.
Na soja e no farelo, a redução das alternativas de determinados compradores pode fortalecer a posição brasileira em algumas janelas de comercialização.
Mas há um outro lado. Para capturar essa vantagem, o Brasil também precisa conseguir entregar. Problemas de qualidade, custos elevados de frete, gargalos portuários ou dificuldades para atender novas exigências ambientais podem retirar do país justamente parte da vantagem criada pela perda de outras origens.
No trigo, a vulnerabilidade brasileira é ainda mais evidente. O país continua estruturalmente dependente de importações para completar o abastecimento doméstico, tendo a Argentina como sua principal fornecedora. Qualquer encarecimento ou restrição da oferta regional chega mais rapidamente aos moinhos e, posteriormente, aos preços dos derivados.
É por isso que a fotografia atual dos mercados agrícolas exige olhar além dos números absolutos de produção.
O mundo pode produzir mais de 820 milhões de toneladas de trigo. Pode colher outra enorme safra de milho nos Estados Unidos. Pode ter soja disponível no Brasil, nos Estados Unidos e na Argentina. Ainda assim, um comprador pode ter dificuldade para encontrar o produto certo, na origem possível, pelo preço viável e no momento em que precisa recebê-lo.
O risco maior começa antes de faltar grão, mas começa quando faltam alternativas. E, em um mercado no qual alguns importadores já recorrem aos próprios estoques de segurança, cada nova ruptura logística passa a encontrar um sistema menos preparado para absorvê-la.