Logística, custos elevados e guerra ameaçam exportações de frutas e preocupam produtores brasileiros
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A logística segue como um dos principais desafios para a fruticultura brasileira, especialmente para os produtores que dependem das exportações. Durante a Fruit Attraction São Paulo 2026, o tema apareceu de forma recorrente, com destaque para o aumento dos custos, atrasos nas operações e a falta de previsibilidade, fatores que impactam diretamente a competitividade da fruta brasileira no mercado internacional.
Para o sócio-diretor da Agrodan, Paulo Dantas, o cenário global tem influência direta sobre o desempenho das exportações, principalmente por conta do frete marítimo, que representa uma parcela significativa do custo total. “Se o petróleo continuar subindo, a tendência é frete marítimo aumentar e aí termina complicando muito as exportações de frutas”, afirma. O executivo lembra que esse movimento já trouxe impactos recentes ao setor, citando 2022 como um ano crítico: “Em 2022 duplicou o frete marítimo. A Agrodan mesmo não teve lucro em 2022 e muita gente perdeu dinheiro”, relata.
Além do aumento dos custos, os problemas operacionais na logística internacional também preocupam. O gerente técnico comercial da Coopexvale, Cristhian Diaz, destaca que atrasos no transporte geram efeitos em cadeia que afetam diretamente o mercado. “Se atrasa um navio, isso gera muitos problemas lá fora. Às vezes chega junto com outros navios e aumenta a oferta ao mesmo tempo, derrubando preços”, explica. Segundo ele, esse tipo de situação tem se tornado mais frequente nos últimos anos, especialmente após a pandemia, e exige maior capacidade de adaptação dos produtores.
Diaz também ressalta que os desafios logísticos não estão apenas no cenário externo, mas também dentro do próprio Brasil. “Temos que melhorar nossos acordos com os armadores e nossas estradas. A logística no Brasil ainda é um desafio”, pontua. Para ele, a combinação de gargalos internos com instabilidades internacionais cria um ambiente ainda mais complexo para o planejamento das exportações.
Outro ponto crítico destacado pelo setor é o fato de se tratar de um produto altamente perecível, o que aumenta a sensibilidade a qualquer falha na cadeia. “A gente trabalha com uma janela curta. Em cerca de 30 a 45 dias a fruta precisa sair do campo e chegar ao consumidor”, ressalta o gerente da Cooperativa de Produtores e Exportadores do Vale do São Francisco. Nesse contexto, atrasos ou elevação de custos não afetam apenas a rentabilidade, mas também a qualidade do produto entregue ao mercado.
Guerra no Oriente Médio
A instabilidade geopolítica, especialmente no Oriente Médio, surge como um novo fator de preocupação para o setor, ampliando ainda mais os riscos logísticos e pressionando custos.
Para Paulo Dantas, maior produtor e exportador de mangas do Brasil, o cenário é “super preocupante”, principalmente pelo impacto direto sobre o petróleo e, consequentemente, sobre o frete marítimo. “Tomara que resolva logo”, reforça.
O diretor da Coopa, Marcelo Faria, também destaca o clima de incerteza gerado pelos conflitos e seus reflexos na cadeia de transporte internacional. “É um momento de tensão, porque isso reflete diretamente no custo do transporte marítimo e nas seguradoras dos navios”, afirma, explicando que esse aumento de custos acaba sendo incorporado ao valor final da fruta exportada.
Na mesma linha, Diaz, chama atenção para os impactos mais amplos da crise em regiões estratégicas para o comércio global. “Quando você tem áreas estratégicas afetadas, muitos contêineres ficam parados e isso impacta o mundo inteiro”, explica. Segundo ele, além do encarecimento do transporte, há também efeitos sobre a disponibilidade de contêineres e a organização das rotas, o que pode gerar novos atrasos e aumentar a volatilidade dos preços.
Diante desse cenário, os agentes do mercado estão buscando entender quais serão os impactos e procurando alternativas. “O clima é bastante limitante, e desafiador, porque para alguns lugares você tem dificuldade com rota. Eu estava falando com uma das grandes empresas que faz o transporte marítimo e eles falavam sobre isso, dificuldade em operar, dificuldade com combustível, dificuldade com valor de frete. Então é um momento delicado”, relata o sócio-diretor da Xportare, Junior Silveira.
“A gente está buscando entender de que maneira que isso vai influenciar, até para a gente entender como se portar perante a esse desafio novo. AO exportações das frutas do Brasil para aquela região são poucas, mas acaba mexendo com a rota marítima de uma maneira geral. O Brasil exporta direto também para o Oriente Médio, que é um mercado menor em relação à participação, mas é um mercado relevante. Nesse momento, a gente tem tido dificuldade para acessar o mercado e existe o fato de que a região é um hub logístico, muito do mundo passa pelo Oriente Médio e isso afeta a gente”, avalia Silveira.
Diante desse cenário, produtores reforçam que a logística se consolidou como um dos principais fatores de risco para a fruticultura brasileira, ao lado de variáveis como câmbio e demanda internacional. A combinação entre custos elevados, instabilidade geopolítica e limitações estruturais exige maior eficiência e planejamento, além de reforçar a necessidade de investimentos em infraestrutura e melhorias na cadeia logística para garantir a competitividade do Brasil no mercado global de frutas.
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