Safra de cacau 26/27 tende a superávit restrito com riscos na África e ameaça de El Niño, apontam consultorias
A safra global de cacau de 26/27 caminha para um cenário de superávit bastante restrito, o que mantém o mercado internacional em alerta quanto à volatilidade e à sustentabilidade da oferta. Após uma recuperação temporária de estoques no ciclo anterior, as projeções divulgadas pelas consultorias Hedgepoint Global Markets e StoneX apontam para um forte estreitamento do excedente global, refletindo problemas produtivos na África Ocidental e o avanço iminente de um evento severo de El Niño.
De acordo com a Hedgepoint, o superávit global para a temporada 2026/27 está estimado em 111 mil toneladas, resultado de uma retração de cerca de 2% na produção combinada a um crescimento de 2,5% na moagem industrial. Em uma leitura ainda mais cautelosa, a StoneX reduziu sua projeção de excedente para apenas 25 mil toneladas. Os dados da StoneX indicam uma queda de 6,2% na produção mundial, estimada em 4,83 milhões de toneladas, enquanto a demanda global deve ensaiar uma recuperação de 2%, alcançando 4,75 milhões de toneladas.
O principal vetor dessa cautela do mercado reside na região da África Ocidental, que responde pelo maior volume da oferta mundial e enfrenta um conjunto complexo de adversidades climáticas e estruturais. Na Costa do Marfim, a Hedgepoint estima uma produção de 1.801 mil toneladas para 2026/27, pressionada por taxas de frutificação abaixo da média. No mesmo sentido, a StoneX projeta a produção marfinense em 1,775 milhão de toneladas, destacando que o excesso de chuvas e o encharcamento dos solos em meados de 2026 prejudicaram o desenvolvimento das lavouras.
A StoneX ressalta ainda que a decisão do regulador local de suspender temporariamente novas vendas antecipadas reflete o temor quanto ao potencial produtivo real da próxima temporada. Em Gana, a Hedgepoint aponta uma queda de 8% na produção, para 595 mil toneladas, patamar alinhado às estimativas da StoneX, que projeta 585 mil toneladas para o país devido a irregularidades climáticas e contagens de vagens abaixo do padrão. Na Nigéria e em Camarões, os levantamentos da Hedgepoint estimam produções próximas de 290 mil e 285 mil toneladas, respectivamente, enquanto a StoneX aponta para 335 mil e 290 mil toneladas, pontuando que o ambiente regional adverso limita saltos maiores de produtividade, apesar dos incentivos passados.
Fora do continente africano, outras origens mantêm relativa estabilidade produtiva. O Equador destaca-se pela resiliência e por investimentos contínuos em tecnologia, com ambas as consultorias projetando uma safra em torno de 600 mil toneladas. No Brasil, a produção nacional é avaliada como estável pela Hedgepoint, enquanto a StoneX projeta o volume entre 210 mil e 215 mil toneladas, sustentado pelo avanço tecnológico que compensa riscos climáticos pontuais na Bahia. Peru e Indonésia também mostram trajetórias de crescimento moderado, com o Peru estimado em 205 mil toneladas pela StoneX e a Indonésia respaldada pela expansão gradual de área monitorada pela Hedgepoint.
Contudo, o maior risco para o desenrolar da safra 2026/27 é a consolidação de um El Niño forte a muito forte. Dados meteorológicos destacados pela StoneX indicam uma probabilidade de 81% de o fenômeno atingir intensidade muito forte entre outubro e dezembro de 2026, com estudos mostrando que eventos dessa natureza reduzem a produção global de cacau em média 1,7%. Do lado da demanda, Hedgepoint e StoneX observam que o processamento industrial global apresenta sinais graduais de recuperação com a normalização dos custos de subprodutos, embora as margens da indústria sigam pressionadas.