B3 acompanha melhor preços do milho no interior do que Chicago em prazos de até dois meses, aponta estudo
Os contratos futuros de milho negociados na B3 apresentaram maior aderência às variações dos preços do cereal em Sorriso/MT do que os contratos da Bolsa de Chicago em horizontes de até dois meses. É o que aponta um estudo da Terra Investimentos, que também destaca os limites da proteção de preços diante de fatores regionais, como fretes e demanda local.
O levantamento elaborado por Geraldo Isoldi, da Mesa Agro da Terra Investimentos, considerou 694 pregões entre outubro de 2023 e outubro de 2026. A análise comparou o preço do milho disponível em Sorriso com as cotações do primeiro vencimento da B3 e de Chicago, convertidas para reais.
Em um horizonte de 20 pregões, equivalente a aproximadamente um mês, as variações da B3 explicaram 16% das oscilações do preço do milho em Sorriso, contra 8% de Chicago. Em 40 pregões, cerca de dois meses, os percentuais foram de 28% e 17%, respectivamente.
A diferença praticamente desapareceu nos períodos mais longos. Em 60 pregões, aproximadamente três meses, Chicago apresentou capacidade explicativa de 38%, ante 37% da bolsa brasileira.
Os resultados foram obtidos por meio de regressões estatísticas e representam a parcela das variações do preço físico explicada pelas oscilações dos contratos futuros. Portanto, não significam que esses mesmos percentuais correspondam à proteção financeira obtida pelo produtor.
Diferença entre preços pode comprometer resultado do hedge
Embora a B3 tenha apresentado maior aderência ao mercado de Sorriso nos períodos mais curtos, o estudo mostra que a utilização de contratos futuros não elimina todos os riscos envolvidos na comercialização.
Isso acontece porque o hedge permite compensar oscilações da cotação futura, mas não garante que o preço recebido pelo milho no mercado físico acompanhe a bolsa na mesma proporção.
Na B3, os contratos de milho têm como referência de liquidação o Indicador ESALQ/B3, associado à região de Campinas (SP). Já em Sorriso, os preços também respondem às condições de transporte, à demanda regional e ao ritmo de comercialização.
Entre outubro de 2023 e outubro de 2026, o estudo identificou uma base média negativa de R$ 22,08 por saca em relação à referência da B3, com desvio-padrão de R$ 5,21 por saca.
Para demonstrar o impacto dessa diferença, a Terra Investimentos simulou a proteção de 9 mil sacas de milho, volume equivalente a 20 contratos futuros da B3. Considerando uma cotação inicial de R$ 65,55 por saca e a base média negativa de R$ 22,08, o preço esperado para o produtor seria de R$ 43,47 por saca.
Se a base permanecer estável, o resultado da operação mantém esse valor, mesmo diante de altas ou baixas na bolsa. Entretanto, caso a diferença entre os preços aumente para R$ 25,00 negativos, o valor final recua para R$ 40,55 por saca.
No exemplo hipotético, essa mudança representa R$ 2,92 a menos por saca, ou R$ 26.280 nas 9 mil sacas protegidas. A simulação não considera corretagem, emolumentos ou custos financeiros associados às margens de garantia.
Chicago ganha relevância durante a colheita da safrinha
Apesar da maior aderência da B3 nos horizontes mais curtos, o estudo identificou uma relação mais forte entre Chicago e os preços de Sorriso durante a colheita da segunda safra, entre junho e setembro.
Nesse período, a correlação semanal com Chicago chegou a 0,38, contra 0,18 da B3. Segundo a Terra Investimentos, o resultado está relacionado à maior influência da paridade de exportação sobre a formação dos preços do milho mato-grossense nessa época do ano.
Os autores ressaltam, entretanto, que a análise dessa janela compreendeu apenas 51 semanas, o que exige cautela na interpretação dos resultados.
Outro aspecto destacado é o câmbio. Enquanto a B3 negocia contratos de milho em reais, Chicago opera em dólares. Dessa forma, a utilização dos futuros norte-americanos para proteger uma venda em reais também exige atenção às oscilações cambiais.
O levantamento aponta ainda diferenças no tamanho dos contratos, na liquidez dos vencimentos e nas exigências de margem e ajustes diários, fatores que interferem na execução das operações.
Para a Terra Investimentos, a relação entre os mercados varia conforme o prazo de comercialização e o período do ano. O histórico analisado também não garante que os resultados se repitam nas próximas safras.
Assim, o estudo indica que a escolha de uma estratégia de proteção precisa considerar não apenas as cotações das bolsas, mas também as características do mercado regional e a possibilidade de mudanças na base até a venda efetiva do milho.