Pressão sobre açúcar e etanol reduz valor do ATR, apontam especialistas
A queda do preço do Açúcar Total Recuperável (ATR), principal referência para a remuneração dos fornecedores de cana-de-açúcar, foi tema de um webinar promovido pela Organização de Associações de Produtores de Cana do Brasil (Orplana). Durante o encontro, especialistas da Datagro e do PECEGE. analisaram os fatores que pressionam o indicador nesta safra e reforçaram que o movimento está diretamente relacionado ao comportamento dos mercados de açúcar e etanol, e não a mudanças na metodologia do sistema Consecana.
O evento da última terça-feira (28) reuniu produtores e profissionais do setor sucroenergético para discutir o cenário nacional e internacional, a formação do ATR e as perspectivas para a safra. Segundo o CEO da Orplana, José Guilherme Nogueira, o objetivo foi ampliar o acesso dos produtores a informações técnicas que ajudem na interpretação dos movimentos do mercado e de seus reflexos sobre a remuneração da cana.
Mercado enfrenta combinação de fatores negativos
Na avaliação de Guilherme Nastari, diretor da Datagro, o setor vive um momento de pressão simultânea sobre os dois principais produtos da cadeia sucroenergética.
Segundo ele, após um período de cerca de seis anos de elevada rentabilidade, o mercado enfrenta um cenário mais desafiador. Entre os fatores apontados estão a desaceleração do consumo mundial de açúcar, o excesso de oferta no comércio internacional, a pressão sobre os preços do etanol e o aumento da produção brasileira, favorecida por uma safra com maior disponibilidade de cana em diversas regiões do Centro-Sul.
Nastari também destacou que o consumo global de açúcar deixou de apresentar o crescimento observado nas últimas décadas, enquanto o mercado brasileiro de etanol enfrenta dificuldades para ampliar a demanda. Entre os motivos, ele citou a perda de competitividade frente à gasolina e a falta de investimentos em ações de comunicação voltadas ao consumidor.
Outro ponto levantado foi a expansão acelerada da produção de etanol de milho, que continua ganhando espaço na matriz energética brasileira. Apesar de aumentar a oferta do biocombustível, o executivo ressaltou que esse movimento fortalece a segurança do abastecimento nacional e amplia a flexibilidade operacional das usinas.
ATR acompanha preços dos produtos finais
O pesquisador do PECEGE, João Rosa, conhecido como Botão, explicou que o ATR representa o açúcar efetivamente recuperado da cana, mas, do ponto de vista econômico, seu valor é resultado da remuneração obtida com a comercialização de açúcar e etanol.
Segundo ele, o indicador funciona como um reflexo da receita gerada pelos produtos finais, considerando a participação de cada um no mix de produção das usinas e os critérios estabelecidos pelo sistema Consecana.
O especialista ressaltou que a redução observada nesta safra decorre da queda nas cotações do açúcar e do etanol, afastando interpretações de que o recuo estaria ligado às recentes atualizações na metodologia do Consecana.
Para o pesquisador, compreender essa dinâmica é fundamental para que o produtor consiga interpretar corretamente as oscilações do indicador e os impactos sobre sua remuneração.
Perspectivas permanecem positivas no longo prazo
Apesar do cenário mais desafiador no curto prazo, os especialistas demonstraram otimismo em relação ao futuro da cadeia sucroenergética.
Na visão apresentada pela Datagro, o crescimento da demanda por combustíveis renováveis, o avanço do combustível sustentável para aviação (SAF), o potencial do etanol para abastecimento marítimo e a expansão da produção integrada entre cana e milho deverão abrir novas oportunidades para o setor nos próximos anos.
Nastari destacou que o Brasil reúne vantagens competitivas importantes na produção de energia renovável e que o etanol continuará desempenhando papel estratégico na transição energética mundial, desde que o setor avance na valorização dos atributos ambientais do combustível junto aos consumidores.