Corte da cota de açúcar pelos EUA ameaça US$ 30 milhões em receita do Nordeste
A redução da cota de importação de açúcar brasileiro pelos Estados Unidos pode provocar um impacto negativo de US$ 30 milhões nas exportações do Nordeste, segundo avaliação do presidente da Associação de Produtores de Açúcar, Etanol e Bioenergia (NovaBio), Renato Cunha. O cálculo considera as 55,9 mil toneladas retiradas da cota brasileira para o ano fiscal de 2027.
Com a decisão do Escritório do Representante do Comércio dos Estados Unidos (USTR), o Brasil terá direito a exportar 100 mil toneladas de açúcar bruto de cana dentro da cota tarifária no período de outubro de 2026 a setembro de 2027. O volume é cerca de 36% inferior ao patamar tradicional de aproximadamente 156 mil toneladas.
Segundo Cunha, a redução afeta diretamente as usinas do Norte e do Nordeste, que são as responsáveis pela utilização dessa cota preferencial. A operação é destinada exclusivamente a essas regiões em razão da Lei nº 9.362/1996, que reserva a elas a exportação de derivados de cana para mercados preferenciais.
"Na prática não é razoável pensar que perderemos toda esta receita, já que iremos buscar outros mercados, mas que não pagam o mesmo preço pago pelos EUA", afirma Cunha.
As 55,9 mil toneladas retiradas do Brasil serão redistribuídas entre outros 28 países. A cota brasileira poderá ser utilizada a partir de 1º de outubro de 2026, início do novo ano fiscal norte-americano.
Impacto sobre o setor nordestino
De acordo com a NovaBio, a decisão norte-americana alcança uma cadeia que reúne aproximadamente 20 mil fornecedores de cana-de-açúcar no Nordeste, muitos deles de pequeno porte, além de cerca de 270 mil trabalhadores.
Apesar da redução, a entidade avalia que o açúcar brasileiro deverá encontrar outros destinos para compensar parte do volume que deixa de acessar os Estados Unidos com a tarifa preferencial. O desafio, segundo Cunha, é que esses mercados não necessariamente oferecem a mesma remuneração.
Entre as alternativas está o mercado europeu. O presidente da NovaBio cita a cota de 180 mil toneladas de açúcar aberta pela União Europeia dentro do acordo UE-Mercosul. A janela para os embarques deve começar em breve, o que pode abrir uma alternativa para parte do açúcar que não será destinada aos Estados Unidos.
Entenda a redução da cota dos EUA
Para o ano fiscal de 2027, os Estados Unidos estabeleceram uma cota de importação de 1,117 milhão de toneladas de açúcar bruto de cana, em equivalente de açúcar bruto, dentro das regras da Organização Mundial do Comércio (OMC).
Em julho, os norte-americanos distribuíram inicialmente 1,061 milhão de toneladas entre os países fornecedores. As 55.993 toneladas restantes foram posteriormente repartidas entre outros países, sem aumento da parcela destinada ao Brasil.
A chamada cota tarifária permite a entrada de determinado volume de açúcar nos Estados Unidos com uma tarifa de importação menor. Acima desse limite, o produto fica sujeito a uma tarifa mais elevada, o que reduz a competitividade das exportações.
A redução da participação brasileira ocorre em um cenário de atenção para o mercado global de açúcar. Para a safra 2026/27, a Datagro projeta déficit mundial de 3,17 milhões de toneladas, após um superávit estimado em 570 mil toneladas na temporada 2025/26.