El Niño se fortalece e aumenta os desafios para o agronegócio brasileiro

Publicado em 07/07/2026 14:26
Fenômeno já influencia o clima no Brasil e deve ganhar força na primavera. Especialistas alertam para excesso de chuva no Sul e déficit hídrico no Centro-Norte do país

O retorno do El Niño ao Oceano Pacífico já começou a alterar o comportamento da atmosfera e deve se tornar um dos principais fatores de risco para a agricultura brasileira na safra 2026/27. Embora os primeiros sinais de influência já apareçam neste inverno, é entre a primavera e o início do verão que o fenômeno tende a atingir seu auge, elevando o potencial para eventos climáticos extremos justamente durante o plantio e o desenvolvimento das principais culturas do país.

As projeções dos principais centros meteorológicos, reunidas pela Organização Meteorológica Mundial (OMM), apontam um aquecimento expressivo das águas do Pacífico Equatorial, com elevada probabilidade de que o episódio seja classificado como forte. Caso as previsões se confirmem, o cenário pode favorecer ondas de calor, estiagens prolongadas, excesso de chuvas e tempestades severas em diferentes regiões do planeta.

No Brasil, os primeiros impactos já começam a ser percebidos

Segundo o meteorologista sênior da Ampere Meteorologia, Bruno Capucin, os efeitos da circulação atmosférica associada ao El Niño passam a influenciar o clima brasileiro ainda em julho.

"Já na segunda metade deste mês existem evidências de mudanças na circulação atmosférica que favorecem um padrão mais úmido sobre o Sul do Brasil, além de áreas de São Paulo e Mato Grosso do Sul. Isso também contribui para temperaturas mais amenas nessas regiões."

De acordo com o especialista, essa tendência deve permanecer durante o inverno, mas o período de maior preocupação é a primavera,

quando tradicionalmente o fenômeno alcança sua maior intensidade.
"É justamente entre a primavera e o início do verão que esperamos os maiores extremos. O Sul pode registrar volumes muito elevados de chuva, enquanto áreas do Centro-Oeste, Sudeste, Norte e Nordeste ficam mais expostas à falta de precipitação, ondas de calor e até atraso no início da estação chuvosa."

Safra de verão entra no radar

Para o setor agrícola, o momento em que o El Niño deve ganhar força coincide com o início da safra de verão, especialmente das lavouras de soja e do milho primeira safra.

Segundo a agrometeorologista Amanda Balbino, da Ampere Meteorologia, a configuração típica do fenômeno costuma aumentar a irregularidade das chuvas durante a semeadura e reduzir os volumes de precipitação ao longo do ciclo produtivo em importantes polos agrícolas do país.

"As áreas mais vulneráveis ficam concentradas no Centro-Oeste, na região do Matopiba e também no interior de São Paulo, onde há maior risco de chuvas abaixo da média durante fases importantes do desenvolvimento das lavouras", explica.

Enquanto isso, no Rio Grande do Sul, o excesso de precipitação também representa um desafio.

"O aumento das chuvas pode dificultar as operações no campo, favorecer a ocorrência de doenças nas plantas e comprometer o potencial produtivo das culturas", destaca Amanda.

Aquecimento inédito preocupa meteorologistas

Outro fator que chama a atenção dos especialistas é a intensidade prevista para este episódio.

Segundo Bruno Capucin, a região do Pacífico Equatorial utilizada como principal referência para monitorar o fenômeno, conhecida como Niño 3.4, já registra temperaturas recordes para esta época do ano.

"Nunca havíamos observado temperaturas tão elevadas para os meses de junho e início de julho nessa região do oceano. Os modelos indicam que esse aquecimento continuará aumentando até a primavera."

Essa projeção amplia a preocupação entre os meteorologistas porque, quanto maior a intensidade do aquecimento, maiores tendem a ser os impactos sobre o clima.

"Os modelos projetam uma intensidade que nunca foi registrada no histórico. Isso gera apreensão porque não existe um ano realmente comparável ao que pode ocorrer em 2026. Podemos ter eventos extremos tanto de excesso quanto de falta de chuva, além de tempestades severas no Sul, com possibilidade de granizo e até tornados."

Histórico reforça preocupação

Os efeitos do El Niño sobre a agricultura já foram observados em episódios anteriores. Segundo Amanda Balbino, anos marcados por eventos fortes do fenômeno registraram perdas importantes na produtividade da soja, principalmente em regiões afetadas pela escassez de chuvas.

Ela cita como exemplo a safra 2023/24, quando a irregularidade das precipitações contribuiu para uma redução significativa na produção nacional de grãos.

"A produção brasileira ficou em torno de 298 milhões de toneladas, cerca de 21 milhões de toneladas abaixo do ciclo anterior. A deficiência hídrica foi um dos principais fatores para essas perdas."

Embora ainda seja cedo para estimar os impactos da próxima safra, os especialistas reforçam que o acompanhamento constante das previsões meteorológicas será essencial para o planejamento das operações agrícolas, desde a definição da janela de plantio até o manejo das lavouras.

A expectativa é que os próximos meses tragam maior clareza sobre a intensidade definitiva do El Niño. Até lá, produtores de diferentes regiões do país já entram em estado de atenção diante de um cenário que pode exigir estratégias mais cuidadosas para reduzir os riscos climáticos ao longo da safra 2026/27.

Por: Andréia Marques
Fonte: Notícias Agrícolas

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