Mercado do café não tem tendência definida, segue volátil e cafeicultor precisa manter foco nas oportunidades
Mercado do café não tem tendência definida, segue volátil e cafeicultor precisa manter foco nas oportunidades
O mercado do café tem apresentado forte volatilidade e recuo expressivo nas cotações nas últimas semanas. Em cerca de um mês, os valores pagos ao produtor caíram aproximadamente 22%, saindo de patamares entre R$ 1.900 e R$ 1.950 para a faixa de R$ 1.500 por saca. Em entrevista ao programa Bom Dia Agronegócio, Heberson Sastre, gerente da Mesa de Operações da Minasul, detalhou os fatores agronômicos e de mercado que estão pressionando as bolsas e o mercado físico.
Clima no Sul de Minas e alívio sobre a safra futura
Segundo Sastre, a melhora nas condições climáticas no Brasil tem deixado o mercado mais confortável quanto ao potencial produtivo da safra seguinte. No Sul de Minas, principal região produtora de café arábica do país, o volume de chuvas ficou acima da média histórica, propiciando uma boa florada.
"Existia uma preocupação muito grande até dois meses atrás de como seria o nosso clima brasileiro, principalmente em Minas Gerais [...], essa preocupação era em relação ao El Niño. Até agora, muita chuva, e isso alivia um pouco essa preocupação em relação à safra futura", pontuou o especialista. A proximidade da colheita no Vietnã também contribui para aumentar a sensação de oferta no cenário internacional.
Apesar do bom início para a safra vindoura, o excesso de umidade trouxe desafios para a reta final dos trabalhos de campo da safra atual. Produtores ainda enfrentam dificuldades para recolher o café de chão, além de registros de chuvas de granizo em diversas localidades, demandando aplicações de curativos e atenção redobrada à qualidade do grão (café de varrição e proporção de bebida dura versus riada/rio).
Comportamento da demanda e política de estoques
No front da demanda global, Sastre destacou que o consumo segue em expansão moderada, crescendo entre 0,5% e 0,7% ao ano. No entanto, o padrão de compras da indústria internacional mudou diante da elevação das taxas de juros no mundo, tornando inviável a manutenção de grandes volumes estocados nas torrefações e tradings.
"Hoje é quase um crime ou até proibido em algumas empresas ter estoque grande. Ela é muito curta, o estoque nas torrefações, nos dealers, naqueles comerciantes internacionais [...] é baixo, porque é muito caro carregar estoque", explicou Sastre, ressaltando que as compras têm ocorrido no modelo "da mão para a boca", com coberturas pontuais para períodos de aproximadamente dois meses.
Recomendações e estratégias para o produtor
Embora as cotações tenham recuado de seus picos recentes, Sastre frisou que os valores atuais de R$ 1.500 por saca ainda garantem margem de lucro para a atividade, ainda que em patamares mais estreitos. A recomendação da Minasul é que o cafeicultor mantenha a gestão de custos atualizada e aproveite as janelas de oportunidade para travar negócios lucrativos.
Entre as estratégias apontadas, o analista sugere a priorização da venda de cafés de qualidades inferiores, aproveitando para reter os cafés finos: "Os cafés finos têm uma correlação maior com a bolsa do que cafés inferiores, que sofrem oferta e demanda, mas não têm muita correlação com a Bolsa de Nova York. Caso o mercado reaja, os cafés finos acompanham", orientou.
Para os próximos meses, o setor continuará monitorando a evolução climática durante o estágio de granação das lavouras (entre dezembro e março), além do ritmo das exportações brasileiras na entressafra, períodos que poderão trazer novas oscilações e surpresas ao mercado.
* Com auxílio de IA