Açúcar recupera parte das últimas perdas; safras da Índia e do Brasil estão no radar

Publicado em 04/11/2026 15:31
Em entrevista ao Notícias Agrícolas, analista da StoneX detalha os impactos do atraso da colheita brasileira, o avanço atípico da produção na Índia e a dinâmica com o etanol
Marcelo Di Bonifacio Filho - Analista em Inteligência de Mercado da StoneX
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Açúcar recupera parte das últimas perdas; safras da Índia e do Brasil estão no radar

Após registrar momentos de alta com cotações negociadas na faixa de 21 centavos de dólar por libra-peso em Nova York, o mercado futuro do açúcar passou por uma correção recente, operando abaixo dos 19 centavos. A movimentação reflete ajustes macroeconômicos, sobretudo a valorização do dólar, alinhada às expectativas em torno da safra brasileira no Centro-Sul e do início dos trabalhos em importantes regiões produtoras globais, como a Índia.

Safra no Centro-Sul: atraso nas chuvas e cana bisada

O encerramento da safra no Centro-Sul brasileiro tem sido marcado por um ritmo desacelerado em função do excesso de umidade. Segundo Marcelo Di Bonifácio Filho, analista da StoneX, a precipitação acima da média registrada em outubro e prevista para novembro quebra o ritmo operacional de moagem das usinas, elevando o volume de cana-de-açúcar que ficará para ser colhida no ciclo seguinte.

"Nós calculamos na nossa última estimativa, publicada em setembro, que o Centro-Sul contaria com um pouco mais de 30 milhões de toneladas de cana bisada. Há outras casas que trabalham com números até maiores, entre 50 e 60 milhões", destacou Di Bonifácio. Ele aponta que o cumprimento da projeção de 630 milhões de toneladas moídas dependerá do volume acumulado até o término de dezembro. Se a moagem alcançar entre 610 e 615 milhões de toneladas até lá, o patamar projetado ainda poderá ser atingido; caso fique perto de 600 milhões, o cumprimento da meta se tornará mais difícil.

Índia tem produção atípica em outubro, mas sem ganho de produtividade

No cenário internacional, o início adiantado da colheita indiana chamou a atenção do mercado, superando 800 mil toneladas de açúcar fabricadas em outubro. Contudo, o analista esclarece que esse volume não indica uma supersafra, mas sim um adiantamento no calendário.

"Essa alta agora é mais um adiantamento da produção, um início atípico, e menos um ganho de produtividade. Na verdade, se caminha para uma Índia igual ou pior à safra anterior", pontuou Marcelo. O governo indiano antecipou as licenças de início de safra para meados de outubro no estado de Maharashtra, mas as monções mais de 10% abaixo da média histórica continuam limitando a produtividade local, mantendo a expectativa de possíveis restrições de oferta e necessidade de importação adicional a partir de março.

Dependência mundial do açúcar brasileiro e perspectivas para 2027/28

Com a redução das exportações da Tailândia e a menor contribuição da União Europeia — que deve atuar de forma mais ativa na ponta compradora —, o mercado global passa a depender ainda mais do Centro-Sul brasileiro. Segundo a StoneX, os fluxos comerciais do primeiro trimestre do próximo ciclo deverão ser bastante apertados.

Para a temporada seguinte, a expectativa é de aumento na oferta nacional. A consultoria projeta a possibilidade de uma safra recorde de 660 milhões de toneladas de cana no Centro-Sul, com produção de açúcar beirando marcas históricas acima de 42 milhões de toneladas. Esse volume expressivo pode exercer pressão baixista nas cotações internacionais entre abril e setembro, durante o pico da safra brasileira.

Relação com o etanol e o mercado energético

No mercado doméstico de combustíveis, o etanol hidratado tem registrado consumo recorde e firmeza de preços. As usinas viraram o mix produtivo para o açúcar, enquanto a umidade prejudicou a qualidade da cana (ATR) e atrasou a moagem. Com isso, os estoques de etanol desaceleraram, dando sustentação às cotações, em especial para o etanol anidro.

A paridade de preços com a gasolina segue competitiva nas bombas, mantendo-se abaixo de 65% em polos como São Paulo. No entanto, para as usinas, a remuneração das telas futuras continua favorecendo amplamente a produção de açúcar em detrimento do biocombustível, cenário que deve justificar a manutenção de um mix açucareiro elevado na próxima safra.

Cenário político e comércio internacional

Em relação às pautas geopolíticas e regulatórias, o setor sucroenergético segue atento aos debates sobre a elevação da mistura de etanol na gasolina (como o avanço das discussões sobre o E32 e E35 no Brasil). No âmbito externo, após as eleições nos Estados Unidos, eventuais mudanças na política tarifária de importação e exportação de biocombustíveis entre os dois países permanecem no radar, embora os impactos práticos dependam de negociações de médio e longo prazos.

A combinação de fatores climáticos no Brasil, produtividade incerta na Ásia e a correlação direta entre o dólar e a commodity devem continuar ditando a volatilidade dos preços do açúcar nas bolsas internacionais ao longo dos próximos meses.

* Com auxílio de IA

Fonte: Notícias Agrícolas

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