El Niño aumenta preocupação com calor e irregularidade das chuvas no início da safra de soja no Matopiba
O avanço de um El Niño de forte intensidade, combinado com temperaturas acima da média e chuvas mal distribuídas, coloca em atenção o início da safra 2026/27 de soja no Matopiba. A irregularidade das precipitações e a recuperação ainda parcial da umidade do solo podem dificultar a implantação das lavouras em áreas do Maranhão, Tocantins, Piauí e Bahia.
Dados do Centro de Previsão Climática (CPC), ligado à Administração Nacional Oceânica e Atmosférica dos Estados Unidos (NOAA), apontam que a anomalia da temperatura da superfície do mar na região Niño 3.4 chegou a +2,47 °C em outubro de 2026. A projeção divulgada pelo órgão indica que o fenômeno deve permanecer nas categorias forte a muito forte até o trimestre de janeiro a março de 2027.
O cenário também chama a atenção pela intensidade. Segundo as estimativas do CPC, existe 83% de probabilidade de que o episódio atual supere, em intensidade, os eventos de El Niño registrados desde 1950, considerando o trimestre de outubro a dezembro de 2026.
Calor acima da média e chuvas irregulares
No Matopiba, setembro e outubro representam a transição entre a estação seca e o início do período chuvoso. É uma fase importante para a recuperação da água no solo e para o avanço da semeadura da soja.
Entretanto, setembro foi marcado por baixos volumes de chuva e distribuição irregular das precipitações. Os maiores acumulados ficaram concentrados no oeste e norte do Tocantins e no sul da Bahia. Em boa parte da região, as pancadas isoladas não foram suficientes para promover uma recuperação significativa da umidade do solo.
Ao mesmo tempo, as temperaturas permaneceram elevadas. Dados das estações meteorológicas do Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet) mostram que as máximas médias ficaram mais de 2°C acima da climatologia em diversas áreas do Matopiba.
Na Bahia, Jacobina registrou temperatura máxima média 3°C acima da referência histórica, enquanto Morro do
Chapéu teve anomalia positiva de 3,6°C.
O calor também persistiu em outubro. Em Cruz das Almas (BA), a temperatura máxima ficou 3°C acima da média climatológica, enquanto em Araguaína (TO) a diferença chegou a 3,2°C.
A combinação de calor e chuva irregular aumenta a perda de água por evaporação e dificulta a recuperação da umidade do solo. Com isso, são necessários volumes maiores de precipitação para garantir condições adequadas à semeadura e ao desenvolvimento inicial das plantas.
Umidade do solo começa a apresentar recuperação
Apesar das dificuldades, houve avanço gradual das áreas de instabilidade entre setembro e outubro, principalmente no sul do Matopiba, abrangendo pontos do Tocantins e da Bahia.
A comparação dos dados de armazenamento de água no solo mostra uma melhora entre os dois meses. No Tocantins, alguns pontos passaram a apresentar índices superiores a 30%. Embora a recuperação ainda seja considerada parcial, o resultado indica que as chuvas começaram a contribuir para melhorar as condições hídricas.
No oeste da Bahia, onde há áreas de produção de soja irrigada, a recomendação é acompanhar de perto a disponibilidade de água e ajustar o manejo da irrigação à necessidade das lavouras, principalmente durante a emergência e o estabelecimento das plantas.
Histórico mostra que El Niño não significa necessariamente quebra de safra
Apesar da preocupação com o cenário climático atual, o histórico de produtividade da soja entre 1996 e 2025 mostra que a ocorrência de El Niño não está necessariamente associada a perdas de produção no Matopiba.
O levantamento aponta diferenças importantes entre os estados. Na Bahia e no Piauí, metade dos anos sob influência do fenômeno apresentou produtividade acima da média histórica.
No Tocantins, os resultados ficaram divididos entre rendimentos na média e acima da média, ambos com frequência de 37,5%. Já no Maranhão, predominaram anos com produtividade próxima à média histórica, situação observada em 50% dos registros.
Por outro lado, todos os estados também tiveram anos de El Niño com rendimento abaixo da média. As ocorrências variaram entre 25% e 37,5% dos casos.
O Piauí apresentou a maior oscilação, com 50% dos anos registrando produtividade acima da média e 37,5% abaixo da referência histórica.
Os dados indicam que os efeitos do fenômeno dependem principalmente da distribuição das chuvas ao longo do ciclo da cultura. Períodos de estiagem que coincidem com fases de maior exigência hídrica, como floração e enchimento de grãos, podem representar riscos mais significativos para o rendimento.
Próximos meses serão decisivos para a safra 2026/27
O cenário observado em setembro e outubro acende um sinal de atenção para o início da safra 2026/27, especialmente em áreas onde a recuperação da umidade do solo ainda é limitada e as temperaturas continuam acima dos padrões históricos.
Neste primeiro momento, as principais preocupações estão relacionadas ao avanço da semeadura, à uniformidade da emergência e à formação do estande de plantas. Eventuais restrições de água nessa fase podem comprometer o potencial produtivo de determinadas áreas, mas ainda não permitem antecipar perdas na produção final.
A definição do rendimento dependerá, sobretudo, do comportamento das chuvas e das temperaturas nos próximos meses. A atenção será ainda maior durante as fases reprodutivas da soja, especialmente na floração e no enchimento de grãos, quando a cultura apresenta maior sensibilidade à falta de água.
Assim, embora o El Niño aumente a preocupação com o comportamento climático, o histórico mostra que seus impactos sobre a soja no Matopiba não são uniformes. O acompanhamento das condições meteorológicas e da umidade do solo será fundamental para orientar as decisões dos produtores e avaliar os riscos ao longo do desenvolvimento da safra.