Incertezas políticas no Brasil já entram nas contas e decisões do produtor rural em plena safra

Publicado em 17/09/2026 15:44 e atualizado em 17/09/2026 17:17
Eleições, ambiente institucional, dólar, juros e crédito aumentam cautela no agro e pesam sobre decisões de venda e novos investimentos

Vender a soja agora ou esperar? Travar o dólar ou manter parte da produção exposta ao câmbio? Investir mais em tecnologia ou preservar caixa? Comprar máquinas, ampliar estrutura ou atravessar a próxima safra com o mínimo possível de novas obrigações?

Perguntas que normalmente fazem parte da rotina do produtor rural brasileiro ganharam uma variável adicional em 2026: o que acontecerá com a economia brasileira depois das eleições de outubro. O primeiro turno está marcado para 4 de outubro e, onde houver, o segundo será realizado no dia 25. Mas, para o agronegócio, decisões que terão efeito muito depois das urnas já precisam ser tomadas agora.

E é justamente aí que a política começa a atravessar a porteira. 

No mercado de soja, Vlamir Brandalizze, consultor da Brandalizze Consulting, vem observando produtores mais contidos nas negociações, mesmo em momentos de melhora dos preços. Além das oscilações da Bolsa de Chicago, ele aponta que parte dessa cautela está ligada à percepção dos agricultores sobre o ambiente doméstico, às eleições e, principalmente, às dúvidas sobre o comportamento do dólar nos próximos meses.

Para o produtor que está formando a safra 2026/27 e, ao mesmo tempo, comercializando sua produção, a questão não é apenas política. É econômica. O resultado eleitoral importa à medida que pode alterar expectativas sobre política fiscal, juros, câmbio, crédito, segurança jurídica e confiança para novos investimentos. E todos esses elementos acabam chegando, por caminhos diferentes, à margem do agricultor.

"O pessoal está um pouco mais desconfiado da economia brasileira, desconfiado do que vem pela frente, muitos temendo as eleições. A situação do Supremo deixou muito produtor nervoso. Ou seja, uma situação que deixa o produtor com um pé atrás, deixando ele muito receoso com o que pode vir na sequência, principalmente, em relação ao dólar", detalha Brandalizze.  Ainda como explicou o consultor, todos os dias saem novos negócios, mas o ritmo perdeu um pouco mais de fôlego nos últimos dias em função dos últimos acontecimentos. 

POLÍTICA ENTRA NA CONTA ANTES MESMO DO PLANTIO

Para Matheus Pereira, diretor da Pátria Agronegócios, tentar analisar o agronegócio isolando-o do ambiente político e econômico brasileiro significa deixar de fora variáveis que passaram a ter peso relevante sobre custos, financiamento, câmbio e decisões de investimento.

O produtor entra na safra 2026/27 administrando margens mais estreitas, dinheiro ainda caro, incerteza cambial e riscos climáticos ao mesmo tempo em que precisa definir quanto investir na lavoura e quanto risco está disposto a carregar. A fotografia aparece inclusive nas primeiras projeções oficiais para a nova temporada.

“São muitos hoje os produtores de alto padrão no Brasil que ainda não fizeram aquisições de fertilizantes, sementes ou químicos para a safra 2026/27, que já está na beira. Faltou crédito, estavam esperando oportunidades melhores e agora encontram um mercado totalmente travado”, detalha Pereira.  

A Conab estima uma área de soja de 49,3 milhões de hectares, crescimento de apenas 1,4% sobre 2025/26. Apesar de representar nova expansão, trata-se do menor crescimento percentual da área brasileira de soja dos últimos 20 anos. A companhia também cita riscos climáticos para o próximo ciclo.

Na avaliação de Pereira, o ritmo mais contido encontra produtores mais prudentes diante das margens, dos custos dos insumos e das condições de financiamento. Preservar caixa, selecionar investimentos e avaliar com maior rigor a contratação de crédito passaram a fazer parte da estratégia.

E mesmo com a redução promovida nesta quarta-feira (16) pelo Banco Central, que levou a Selic para 13,75% ao ano, o custo do dinheiro continua elevado. O corte foi de 0,25 ponto percentual apenas e não muda nada, ou quase nada, na gestão financeira dos produtores rurais brasileiros. “A política está diretamente ligada às decisões do produtor rural. Talvez a maneira mais objetiva de enxergar isso hoje seja pela taxa de juros daqui para frente, assim como pelo dólar”, complementa o diretor da Pátria.  

DÓLAR PODE PROTEGER A RECEITA E/OU AUMENTAR O RISCO

Outra transmissão direta entre o cenário brasileiro e a porteira está no câmbio. Uma valorização do dólar frente ao real pode sustentar as cotações domésticas da soja e favorecer receitas de exportação. A mesma moeda, entretanto, também está presente direta ou indiretamente em parcela importante dos custos do produtor.

É justamente esse descasamento que preocupa Pereira.“O fator cambial pode ser uma faca de dois gumes. É algo que precisa ser levado em consideração com muita atenção”, diz.  

Se o agricultor forma seus custos com um dólar mais elevado e mantém a produção futura totalmente exposta, uma valorização posterior do real pode retirar parte da sustentação dos preços domésticos justamente depois de o custo da lavoura ter sido fixado em níveis mais altos.

Por isso, em vez de transformar o resultado das eleições ou a direção futura do câmbio em uma aposta, o diretor da Pátria Agronegócios defende uma estratégia baseada em margem: utilizar ferramentas de proteção de preço e câmbio quando a combinação disponível assegurar rentabilidade à operação.

É uma mudança importante de perspectiva. A pergunta deixa de ser apenas “até onde Chicago pode subir?” ou “onde estará o dólar?” e passa a ser: “a margem que tenho hoje remunera meu risco?”

CRÉDITO MENOR É REALIDADE NA LAVOURA

Para Antônio da Luz, economista-chefe da Farsul, um dos sinais mais preocupantes está, justamente, no financiamento da produção. Segundo cálculo apresentado Da Luz, em entrevista ao Notícias Agrícolas, a partir de dados do Banco Central sobre a área vinculada ao custeio rural acumulado em 12 meses, o indicador teria retornado a patamares equivalentes aos de 2016 e recuado cerca de 25% desde 2024. 

E o indicador, na avaliação do economista merece uma distinção importante: a redução da área financiada não significa, necessariamente, redução equivalente da área efetivamente plantada. Parte dos produtores pode substituir crédito oficial por capital próprio ou outras fontes de financiamento.

Ainda assim, para o economista, a redução do acesso ao crédito traz duas possibilidades preocupantes, sendo uma delas uma menor área cultivada ou manutenção da área com menor utilização de tecnologia. E, neste segundo caso, o risco aparece na produtividade.

Os efeitos deste crédito mais restrito, segundo sua análise, extrapolariam a propriedade rural. Uma produção menor poderia atingir exportações e balança comercial e, por meio do câmbio, contaminar outras variáveis da economia. Menor produtividade e oferta também poderiam exercer pressão sobre os preços dos alimentos. Ou seja: o crédito que falta antes do plantio pode aparecer meses depois no PIB, nas exportações e até na inflação.

“Se não tivermos produtividade ou tivermos menor área plantada por falta de crédito, vamos ter impacto na balança comercial. E, se tivermos impacto na balança comercial, teremos impacto na inflação e no balanço de pagamentos por conta da taxa de câmbio”, analisa o economista chefe da Farsul. “Se não tivermos a mesma área plantada ou tivermos a mesma área com menor produtividade, potencialmente teremos inflação de alimentos ao consumidor. Estou falando de efeitos que não são apenas para o produtor, mas para os agentes econômicos como um todo”.   

DA CRISE FINANCEIRA À CONCENTRAÇÃO DE ATIVOS

“De tempos em tempos vem uma crise como essa, que é climática, que é de variação de preços internacionais. É normal. Só que, dessa vez, veio tudo de uma vez”, afirma Christian Lohbauer, cientista político e ex-presidente da CropLife Brasil, que acrescenta à discussão ainda outros dois elementos que têm ditado o ritmo de todo o resto, que são os ambientes institucional e macroeconômico.

Em sua avaliação, a atual dificuldade do agronegócio resulta da sobreposição de diferentes fatores — clima, queda das commodities, aumento de custos, juros e condições econômicas domésticas — em um momento que classifica como uma das crises mais graves enfrentadas pelo setor nas últimas décadas.

Para a decisão empresarial dentro das propriedades, porém, há uma consequência econômica concreta destacada por Lohbauer, que é o endividamento elevado podendo obrigar produtores a vender parte de seus ativos, como há meses vem sendo noticiado e destacado pelo Notícias Agrícolas. “Há muita gente com dívida e que precisa se desfazer de ativos, principalmente da terra. Isso pode provocar uma concentração ainda maior em grandes grupos que conseguem atravessar a crise, enquanto médios produtores e empresas menos estruturadas têm mais dificuldade. [...] Precisamos de um modelo diferente de financiamento e seguro para o produtor rural” . 

O especialista ainda reforça um movimento ainda mais intenso de mudanças mais estruturais no modelo de financiamento e de seguro rural, argumentando que soluções emergenciais não eliminam a vulnerabilidade do produtor diante de novos ciclos de crise climática ou de preços. Nesse cenário, preservar caixa também passa a ser uma decisão de investimento.

Adiar a compra de uma máquina, reduzir alavancagem, rever um projeto de expansão ou segurar uma venda não significa necessariamente que o produtor tenha deixado de acreditar no negócio. Pode significar apenas que, diante de um ambiente com muitas variáveis abertas, aumentou o valor atribuído à liquidez.

A eleição termina. A safra, não.

Há ainda uma peculiaridade importante em 2026: o calendário político e o calendário agrícola se encontraram. O primeiro turno das eleições será realizado em 4 de outubro e eventual segundo turno em 25 de outubro. É justamente nesse período que o plantio da soja brasileira ganha ritmo em algumas das principais regiões produtoras.

O agricultor, portanto, precisa tomar decisões sobre tecnologia, crédito, câmbio, comercialização e investimento antes de saber qual será o ambiente político que encontrará durante boa parte do desenvolvimento e da comercialização dessa mesma safra.

E ainda existe uma variável sobre a qual Brasília não tem qualquer controle, que é o clima. O ano pode ser de El Niño e, confirmado, o fenômeno poderia deixar essa vulnerabilidade ainda mais evidente aos campos brasileiros.  

Matheus Pereira lembra que o mercado internacional trabalha hoje com as informações disponíveis sobre o potencial da safra brasileira. Mudanças relevantes nas condições de plantio, irregularidade das chuvas ou perdas de potencial produtivo podem alterar rapidamente as expectativas para a oferta e trazer nova volatilidade à Bolsa de Chicago.

Isso significa que o produtor brasileiro entra nos próximos meses administrando simultaneamente dois conjuntos de riscos: aqueles que vêm de fora da porteira, como política, juros, câmbio e mercados internacionais, e aqueles que se manifestam dentro dela, começando pelo clima e pelo desempenho da própria lavoura.

Não cabe ao produtor controlar nenhum deles. Cabe decidir quanto risco carregar.

E talvez seja justamente essa a principal marca do ciclo que começa: em vez de esperar todas as respostas para então decidir, o produtor está sendo obrigado a tomar decisões enquanto as perguntas ainda estão abertas.

A eleição tem data para terminar. A safra não pode esperar. Porque, no campo, 2027 já começou.

Por: Carla Mendes
Fonte: Notícias Agrícolas

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