Chuvas podem deixar 32 milhões de toneladas de cana para a próxima safra
As chuvas que vêm dificultando o avanço da moagem de cana-de-açúcar no Centro-Sul começam a produzir efeitos que podem ultrapassar o calendário da safra 2026/27. Segundo a StoneX, cerca de 32 milhões de toneladas de cana devem ficar para ser processadas na próxima temporada, em um movimento que já está sendo considerado pelo setor como parte do cenário-base para o encerramento deste ciclo.
A estimativa foi apresentada pelo analista de Inteligência de Mercado da StoneX, Marcelo Di Bonifacio Filho, ao Notícias Agrícolas. De acordo com ele, os maiores riscos estão concentrados no Paraná, sul de Mato Grosso do Sul e em áreas de São Paulo, justamente regiões que vêm registrando volumes elevados de chuva.
Do total estimado de 32 milhões de toneladas, aproximadamente 10 milhões de toneladas deverão ser processadas já em março, enquanto o restante deve ser distribuído pelas primeiras quinzenas da safra 2027/28.
A perspectiva surge após um setembro marcado por interrupções no campo e nas unidades industriais. Dados divulgados pelo setor mostram que a moagem do Centro-Sul na primeira quinzena de setembro recuou 34,2% em relação ao mesmo período da temporada anterior. No acumulado até 15 de setembro, a moagem caiu 1,5% e ficou abaixo da registrada no mesmo período de 2025 pela primeira vez nesta safra.
Para Marcelo, o impacto das chuvas não deve ser observado apenas pela redução do volume processado em setembro. O excesso de umidade também encurta a janela disponível para a colheita e faz com que parte da matéria-prima seja carregada para o próximo ciclo.
Moagem deve avançar até dezembro
A StoneX trabalha atualmente com a possibilidade de a moagem da safra 2026/27 se estender até dezembro. O atraso, segundo o analista, terá reflexos principalmente sobre a qualidade da matéria-prima.
"Os impactos vão ser especialmente no ATR, em 2026, que tende a ser menor, abaixo da média", explica Marcelo.
Por outro lado, o excesso de chuva tem um efeito positivo sobre o desenvolvimento da planta. Com maior disponibilidade de água, a cana tende a apresentar maior TCH (toneladas de cana por hectare), compensando parcialmente o cenário menos favorável de qualidade.
O problema, porém, pode se repetir para a cana que permanecer no campo e entrar na safra seguinte.
Segundo a StoneX, essa matéria-prima também deverá enfrentar pressão sobre o ATR quando for processada em 2027. Ao mesmo tempo, a expectativa é de manutenção de um TCH mais elevado, justamente pelo bom desenvolvimento proporcionado pelas chuvas.
Safra 2027/28 pode começar mais cedo
A transferência de um volume relevante de cana para o próximo ciclo também já começa a mudar o planejamento das usinas.
A expectativa da StoneX é de que as unidades antecipem o início da safra 2027/28 para março, período em que deverá haver um volume significativo de cana disponível para moagem.
A estratégia, entretanto, ainda depende diretamente do comportamento do clima. Caso março registre chuvas muito acima da média, a antecipação da moagem pode ser prejudicada, já que as condições de campo podem novamente dificultar a entrada das máquinas e o transporte da cana.
El Niño entra no radar
O comportamento do clima também aparece como um dos pontos de atenção para o planejamento da próxima temporada. Segundo Marcelo, ainda é cedo para afirmar se a safra 2027/28 terá um padrão de chuvas semelhante ao observado na atual temporada.
As previsões, porém, indicam que o El Niño deve atingir seu pico no último trimestre de 2026.
Para a StoneX, ainda não é possível projetar se o fenômeno continuará provocando excesso de chuvas no início de 2027. O risco está principalmente na possibilidade de o El Niño se prolongar e março registrar precipitações muito acima da média.
Nesse caso, a estratégia de antecipar a moagem poderia ser comprometida.
"Por hora, temos trabalhado com esse cenário de moagem antecipada", explica Marcelo.