Renda do agro brasileiro vai ter de driblar juros nos EUA e o futuro do câmbio

Publicado em 22/09/2016 14:45 e atualizado em 27/09/2016 08:54
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Nesta quarta-feira, 21 de setembro, o Federal Reserve, em decisão dividida manteve a taxa básica de juros entre 0,25% e 0,50% nos Estados Unidos, prevendo a possibilidade de apenas mais uma alta no ano de 2016. Não acontecia desde dezembro de 2014 de três dirigentes votarem contra o consenso como foi o caso da última reunião. 

A manutenção veio de encontro com o sentimento expressado pela presidente do Fed, Janet Yellen, em sua coletiva de que, por ora, não há “motivos para pressa”, já que as autoridades monetárias locais estão satisfeitas com a forma como a economia norte-americana se movimenta agora e que a mesma teria,  portanto, mais espaço para crescer. 

O fator surpresa não só para o futuro da taxa de juros nos Estados Unidos, mas para o caminho que a maior economia do mundo vai seguir nos próximos meses é a disputa entre o republicano – e demasiadamente polêmico – Donald Trump – e a democrata – não menos polêmica, mas com a cabeça mais ajustada à atual realidade da nação americana – Hillary Clinton para a presidência. A disputa não será fácil e ambos os candidatos tem dado mais do que toda sua força para assumir um dos cargos de maior responsabilidade no presente cenário geopolítico mundial. 

O resultado das eleições norte-americanas será determinante e a nova reunião do Federal Reserve, em novembro, acontece somente seis diante antes do evento. As expectativas são altas e o nervosismo do mercado, portanto, deverá se acentuar.  E de acordo com o Monitor da Taxa de Juros do Fed do portal Investing.com, há apostas que indicam uma chance de somente 15% para um aumento das taxas. Já para a reunião de dezembro, essa probabilidade esperada sobe para algo próximo de 60%.

Segundo apurou o New York Times, as autoridades da instituição anteveem apenas uma revisão dos juros para cima este ano, contra duas no próximo e três em 2018 e 2019. Na reunião de junho, porém, as projeções eram de que neste ano duas altas poderiam ocorrer, além de três em 2017 e mais três em 2018. O órgão espera ainda que o crescimento de longo prazo dos EUA se estabilize em 1,8% por ano, ante 2% estimados em junho.

O impacto da última decisão já foi sentido aqui no Brasil, com um reflexo imediato sobre o dólar, que encerrou o dia perdendo mais de 1,5% e cotado a R$ 3,2114. E não senti-lo será impossível, não só no Brasil, mas na economia global. Internamente, porém, a alternativa seria reduzir as consequências e, para isso, o governo brasileiro terá muito trabalho.

Algumas medidas propostas pelo governo Temer e esperadas pelo mercado parecem ficar para votação somente em 2017, como a reforma trabalhista e reforma da previdência. Ao mesmo tempo, o que o mercado não pode esperar?  Que a reforma fiscal, a aprovação da PEC do Teto limitando os gastos públicos ou demais medidas como estas que, ao menos por ora se mostram mais paliativas do que de fato efetivas, sejam suficientes.  

A aprovação da PEC, segundo o ministro da Fazenda Henrique Meirelles, poderia trazer a possibilidade elevada de uma redução dos juros no Brasil ainda neste ano, e mais que isso, sinalizar para o mercado internacional que somos um país sério – ou que voltamos a trabalhar para isso – e que estamos buscando reduzir o risco país e com isso atrair novos investimentos. O discurso de Michel Temer, em encontro com investidores em Nova York, de que o Brasil vive hoje uma “estabilidade política extraordinária”, afinal, é descabido e insuficiente. Nesta quinta-feira, 22 de setembro, o novo preso pela Operação Lava-Jato foi o ex-dirigente da pasta da Fazenda, Guido Mantega!

Ainda nesta quinta, para a sorte do mesmo Mantega, foi divulgado o IPCA-15, registrando um aumento de 0,23%. O índice ficou abaixo da expectativa da mediana do mercado que era de 0,33% de alta, o que fez com que o mercado de juros futuro, o DI para janeiro de 2018, operasse com baixa de 12 pontos, com base a 12,23%.

E para o produtor brasileiro, que hoje observa a queda no câmbio, principalmente devido a decisão do Fed, o que mudaria caso as taxas de juro norte-americanas registrassem, de fato, uma elevação em dezembro? As consequências ainda não são conhecidas, na sua totalidade, mas analistas já projetavam que, com um aumento de 0,25% a 0,50% nos juros dos EUA, o BCOM - o índice de commodities da Bloomberg - teria um recuo de 5 pontos.

Assim, a máxima de que os produtos agrícolas negociados em bolsas internacionais há muito não respondem somente a seus fundamentos de oferta e demanda, climáticos, ou ligados essencialmente à cultura e sua produção, continua valendo. As decisões adotadas pela economia mundial e o caminho que o dinheiro dos fundos investidores faz frente à uma centena de incertezas quase que diárias exercem uma influência cada vez mais intensa. Conhecimento e informação tem que estar na conta de um agricultor cada vez mais profissional.

Por: Carla Mendes e André Bitencourt Lopes
Fonte: Notícias Agrícolas

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