Crise logística no Brasil encarece produtos nacionais: como reverter esse cenário?

Publicado em 07/04/2026 11:57
* Alexandre Pierro é doutorado em energia e mestre em gestão e engenharia da inovação, engenheiro mecânico, bacharel em física e especialista de gestão da PALAS, consultoria pioneira na implementação da ISO de inovação na América Latina.

O Brasil produz, exporta e movimenta uma das maiores economias do mundo — mas ainda esbarra em um gargalo básico: a ineficiência em fazer seus próprios produtos chegarem aos destinos em nosso próprio território. Em um cenário global marcado por tensões geopolíticas e alta no preço do petróleo, a dependência quase absoluta do transporte rodoviário revela uma fragilidade estrutural que encarece nossa produção e, inevitavelmente, limita o crescimento do país. Um cenário preocupante, mas que pode ser revertido e aperfeiçoado através da inovação. 

Dados compartilhados no estudo anual “Custos Logísticos e o Impacto nas Empresas Brasileiras” mostraram que os custos logísticos no Brasil atingiram R$ 1,96 trilhão em 2025, valor equivalente a 15,5% do PIB nacional. Em países desenvolvidos, essa porcentagem costuma variar entre 8% e 12% do Produto Interno Bruto, o que evidencia a ineficiência brasileira em nossa malha rodoviária. 

Não se trata de um problema pontual, mas sim de falhas estruturais que vêm agravando cada vez mais nos últimos anos e comprometendo, diretamente, nossa economia. Essa distorção se torna ainda mais evidente em cadeias que dependem, fortemente, do transporte rodoviário, como é o caso da soja. Produzida majoritariamente no interior do país, muitas vezes a milhares de quilômetros dos portos, percorre longas distâncias em caminhões movidos a diesel — um insumo diretamente impactado por oscilações internacionais do petróleo. 

O efeito cascata disso no preço é inevitável. Isso porque, além de o produtor rural arcar com fretes elevados para escoar a safra, os exportadores também incorporam esse custo ao valor de venda – fazendo com que, ao final da cadeia, o preço da soja brasileira, mesmo sendo altamente competitiva em termos de produtividade, chegue mais caro ao mercado, reduzindo a margem de lucro dos produtores. 

Há, ainda, o agravante da ineficiência da malha rodoviária. Estradas em condições precárias aumentam o consumo de combustível, elevam o tempo de transporte, geram perdas de carga e encarecem a manutenção dos veículos. Sem falar dos impactos das crises climáticas nesse sentido, como os que vimos em 2024 quando as enchentes que atingiram o RS impediram que suprimentos e atendimentos chegassem ao estado por via terrestre, ficando conhecido como um dos maiores desastres naturais que já impactaram o local. 

O modelo logístico nacional precisa, urgentemente, ser repensado, de forma que deixemos de ser tão dependentes de uma única malha ineficiente, passando a explorar e diversificar outras rotas tão benéficas quanto essa. Há quantas décadas, por exemplo, não investimos em nossas ferrovias, que já foram consideradas a única via de transporte de cargas e pessoas no país? Ou, ainda, nossa rede hidroviária, já que temos milhares de quilômetros de rios navegáveis com potencial para serem desenvolvidos com mais intensidade, e por um custo bem menor em comparação a outras opções. 

Mesmo que não sejam iniciativas com resultados a curto prazo, explorar essas inovações pode gerar benefícios enormes em termos econômicos, impulsionando a geração de empregos e mercados, assim como estimulando o compartilhamento de ideias, ao invés de ficarmos à mercê desses eventos e guerras internacionais que impactam, diretamente, nossa dependência no petróleo e, consequentemente, nas rodovias – da mesma forma que está acontecendo, atualmente, com a Guerra no Irã. 

A crise logística brasileira não será resolvida apenas com ajustes pontuais, mas com uma mudança estrutural na forma como o país pensa sua própria movimentação de riquezas. Diversificar esses modais e incentivar a inovação não é apenas uma agenda de infraestrutura, mas uma estratégia para reduzir custos, aumentar a competitividade e proteger a economia de choques externos. O Brasil já tem os recursos suficientes para dar esses primeiros passos, só falta transformar esse tamanho potencial em prioridade. 

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Por:
Alexandre Pierro

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