Amendoim: A lição dos ciclos e o caminho para um futuro sustentável

Publicado em 16/07/2026 10:00
Se há uma certeza no agronegócio, é a natureza cíclica dos mercados. E com o amendoim não é diferente. Por Luiz Antônio Vizeu, gerente de Relações Institucionais da Indústrias Colombo e presidente da Câmara setorial do Amendoim do Ministério da Agricultura.

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As últimas três safras do amendoim no Brasil ficarão marcadas para todos os elos da cadeia produtiva. De um lado, o clima se mostrou implacável – ano com estiagem e temperaturas elevadas; outro com estiagem e o terceiro com excesso de chuvas no momento crítico da colheita. De outro, o mercado internacional que apresentou uma queda de preços do amendoim grãos e óleo de amendoim bastante relevante que, por um efeito dominó, comprometeu a margem de toda a cadeia aqui no Brasil. Parte dos produtores viu seus custos de produção superarem a receita.

Com cerca de 70% a 75%* da produção brasileira destinada à exportação, o amendoim nacional é fortemente dependente do cenário internacional. O aumento expressivo de área plantada no exterior na safra 2024/25 gerou uma oferta global elevada, derrubando os preços no mercado internacional – e, por consequência, no mercado interno. O exportador tem seu teto de preço definido pela referência externa, e compra do produtor brasileiro com base nesse limite. Quando o preço global despenca, a pressão se transmite em cadeia.

Nos últimos 5 anos houve um movimento de avanço expressivo da área plantada para fora do estado de São Paulo, tradicional berço da cultura. Esse crescimento foi impulsionado por duas frentes. A primeira foi a busca de produtores paulistas por regiões com custo de arrendamento mais baixo. A segunda veio de produtores de soja que enxergaram no amendoim uma alternativa viável para suas áreas marginais – áreas em que a produtividade da oleaginosa simplesmente não fecha a conta. A consequência foi um aumento de área plantada na safra 24/25 de cerca de 40% passando de 240 para 340 mil ha conforme estimativa do setor. A produção chegou a 1,3 milhão de ton., um recorde histórico, apesar da produtividade comprometida por problemas climáticos no estado de SP.

O setor passou do auge dos anos 2022 e 2023 com preços elevados, boa produtividade e excelente margem para 3 anos ruins com queda de preço e produtividade expressivos. A safra 25/26 teve diminuição de área plantada e, provavelmente a próxima registrará nova queda.

Estados Unidos e Argentina, grandes produtores e concorrentes diretos do Brasil, também reduziram suas áreas. Esse ajuste global já começa a dar sinais de um maior equilíbrio entre oferta e procura, o que deve levar a uma recuperação dos preços – com reflexos positivos para o Brasil. Mas o setor não pode simplesmente esperar o ciclo girar. As lições desse período duro precisam ser assimiladas para que a próxima fase de alta não resulte em novos desequilíbrios.

O que podemos fazer daqui para frente?

Focar em produtividade, não área. Plantar menos, mas plantar melhor. Ganhar eficiência para que cada hectare entregue seu máximo potencial, reduzindo o custo unitário e aumentando a resiliência contra oscilações de mercado.

Atenção ao cenário mundial: Acompanhar o panorama internacional deixou de ser opcional – é condição básica para dimensionar corretamente a produção que o mercado suporta. A inteligência comercial deve ser o pilar da tomada de decisão no campo.

Mercado interno, uma fronteira a explorar: O consumo doméstico de amendoim incluindo a pasta de amendoim, pode e deve ser trabalhado. O óleo de amendoim - de excelente qualidade para a saúde humana – é um mercado a ser recuperado na gastronomia brasileira.

Fortalecimento institucional: As entidades representativas do setor precisam continuar se fortalecendo e, unidas, destravarem os gargalos do setor e promover o consumo. A recente criação da Câmara Setorial do Amendoim, no âmbito do Ministério da Agricultura, representa mais um passo importante nessa direção. Sua missão inclui congregar as novas regiões produtoras que estão surgindo e manter a qualidade do amendoim brasileiro.

Neste momento, preço e área plantada retornaram a patamares de 2022. Pode parecer um retrocesso, mas carrega consigo a semente da renovação. Um novo ciclo de crescimento virá – isso é dado como certo no agronegócio. A questão é se o setor estará preparado para entender as recentes lições e projetar um futuro mais equilibrado, especialmente do ponto de vista financeiro, para todos os elos da cadeia.

*Dados do Levantamento Socioeconômico da Cadeia Produtiva do Amendoim | ABEX-BR

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Fonte:
Luiz Antônio Vizeu

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