A obsolescência do preparo intensivo do solo, por Afonso Peche Filho

Publicado em 07/08/2026 15:58
Afonso Peche Filho é Pesquisador científico do Instituto Agronômico de Campinas - IAC
Naviraí
Naviraí/MS - Foto: Eng. Agr. António Tuca Flores 

A agricultura brasileira acumulou, ao longo de décadas, amplo conhecimento sobre os efeitos negativos da mobilização excessiva do solo.

Estudos científicos e experiências de campo demonstraram que o revolvimento frequente pode acelerar processos erosivos, reduzir a estabilidade estrutural, favorecer perdas de matéria orgânica, alterar a dinâmica da água e aumentar a vulnerabilidade dos agroecossistemas.

Apesar disso, extensas áreas agrícolas ainda são manejadas com arações, gradagens, escarificações e outras operações que promovem intensa perturbação do solo. Essa permanência permite discutir o preparo intensivo como uma prática em processo de obsolescência ecológica.

Obsolescência não significa, necessariamente, que uma tecnologia deixou de funcionar. Uma prática pode continuar cumprindo determinada finalidade operacional e, ainda assim, tornar-se inadequada diante de novos conhecimentos e critérios de desempenho. O preparo intensivo ainda mobiliza o solo, incorpora resíduos, controla temporariamente plantas espontâneas e facilita determinadas operações. Entretanto, sua avaliação não pode se limitar à eficiência imediata. É necessário considerar efeitos cumulativos sobre estrutura, biodiversidade, infiltração da água, conservação do carbono e estabilidade produtiva.

Durante muito tempo, o preparo eficiente foi associado à imagem de um solo intensamente mobilizado, destorroado e aparentemente uniforme. Essa concepção resulta de uma visão predominantemente mecânica. Hoje, o solo é reconhecido como um sistema vivo, organizado pela interação entre minerais, matéria orgânica, raízes, microrganismos, fauna edáfica, água e ar. Revolver intensamente esse sistema significa interferir repetidamente em sua organização física e biológica.

A fragmentação dos agregados pode expor matéria orgânica antes protegida e favorecer sua mineralização. A retirada ou incorporação excessiva da cobertura superficial aumenta a exposição à radiação solar, ao impacto das gotas de chuva, ao selamento e ao escoamento superficial. Em áreas declivosas ou submetidas a chuvas intensas, ampliam-se os riscos de erosão e transporte de sedimentos.

Outro aspecto relevante é a possível criação de uma dependência operacional. O solo submetido continuamente à mobilização pode perder parte de sua organização natural e exigir novas intervenções para corrigir problemas produzidos, em parte, pelas próprias operações anteriores. Forma-se um ciclo no qual mobilizar parece necessário justamente porque o sistema permanece submetido à mobilização.

Isso não significa condenar toda intervenção mecânica. Há situações em que operações corretivas podem ser tecnicamente justificadas, como determinados casos de compactação, recuperação de áreas degradadas ou implantação inicial de sistemas. A diferença essencial está entre uma intervenção pontual, fundamentada em diagnóstico, e a mobilização transformada em rotina permanente.

A agricultura conservacionista demonstrou que a qualidade do solo pode ser construída por outros caminhos: cobertura permanente, rotação de culturas, diversidade de raízes, manutenção de resíduos vegetais, redução do revolvimento e valorização dos processos biológicos. O sistema plantio direto expressa essa mudança ao substituir a lógica de preparar continuamente o solo pela lógica de conservar e aperfeiçoar
sua estrutura funcional.

A persistência do preparo intensivo no Brasil pode estar relacionada à tradição operacional, ao parque de máquinas disponível, à necessidade de respostas rápidas e à resistência cultural à mudança. Em muitos casos, permanece a ideia de que o solo precisa ser mecanicamente “arrumado” para produzir.

É nesse contexto que se consolida a noção de obsolescência ecológica: uma prática torna-se ecologicamente obsoleta quando, embora ainda produza resultados imediatos, deixa de responder adequadamente às exigências de conservação e renovabilidade do sistema.

O desafio contemporâneo não é eliminar máquinas, mas substituir a cultura do revolvimento sistemático pela cultura do diagnóstico e da intervenção mínima necessária. A pergunta central deixa de ser “como preparar melhor o solo? ” e passa a ser “como produzir preservando sua capacidade de organizar-se, proteger-se e renovar-se?”.
 

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Fonte:
Afonso Peche Filho

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